A dívida do Nubank de um morador do Distrito Federal saltou de R$ 12,3 mil para R$ 788 mil após quatro anos de atraso no cartão de crédito. O crescimento de cerca de 65 vezes levou a Secretaria do Consumidor do DF a notificar o banco digital e pedir explicações sobre juros, encargos financeiros e crédito rotativo.
O caso ganhou dimensão maior porque ocorre depois da criação do teto que limita os juros do rotativo do cartão no Brasil. Embora a dívida tenha começado antes da nova regra, a escalada do débito reacendeu dúvidas sobre a eficácia das medidas adotadas para impedir que dívidas bancárias se tornem financeiramente impagáveis.
A Secretaria do Consumidor questionou o Nubank sobre taxas aplicadas no rotativo, fórmula de cálculo dos juros e critérios usados no parcelamento da fatura. O banco não respondeu até a publicação do caso original.
Dívida do Nubank recoloca pressão sobre limite dos juros do rotativo
A nova regra do rotativo entrou em vigor em janeiro de 2024 e limita juros e encargos a 100% do valor original da dívida. Na prática, um débito de R$ 100 não pode ultrapassar R$ 200 em cobrança total nas operações enquadradas na norma.
O problema é que contratos anteriores continuam carregando efeitos do modelo antigo. No caso envolvendo a dívida do Nubank, a pendência começou em janeiro de 2022, período em que os juros do cartão ainda podiam crescer sem o limite atual.
O episódio expõe uma fragilidade importante do sistema regulatório brasileiro. O teto reduziu o risco de crescimento infinito das dívidas novas, mas não eliminou passivos antigos nem resolveu dúvidas sobre transparência nos cálculos usados pelas instituições financeiras.
O Banco Central mantém o cartão de crédito entre as modalidades mais caras do sistema financeiro. O rotativo continua operando com taxas anuais extremamente elevadas, mesmo após mudanças regulatórias.
Cartão de crédito virou novo foco de pressão sobre bancos e fintechs
O caso da dívida do Nubank ganhou repercussão num momento em que bancos já enfrentam pressão crescente sobre transparência nas cobranças ligadas ao cartão de crédito. A discussão deixou de envolver apenas juros altos e passou a atingir também contratos, encargos e produtos agregados vendidos junto às operações financeiras.
O Itaú virou um dos casos recentes mais relevantes desse debate após acordos ligados a cobranças consideradas indevidas em contratos associados a cartões. As discussões envolveram seguros e tarifas cobradas durante anos por empresas do grupo, incluindo Itaucard, Luizacred e Itaú CBD, com ressarcimentos que chegaram a R$ 253,7 milhões.
Os episódios possuem naturezas diferentes. No Itaú, o foco estava em cobranças questionadas judicialmente. Na dívida do Nubank, a pressão recai sobre o crescimento extremo dos juros no rotativo. Mesmo assim, ambos expõem um problema semelhante: consumidores continuam encontrando dificuldade para entender quanto realmente pagarão ao entrar em modalidades de crédito bancário de alto custo.
Crescimento explosivo das dívidas virou problema estrutural do crédito
O cartão de crédito se tornou uma das principais portas de entrada do endividamento no Brasil porque mistura consumo cotidiano, facilidade operacional e juros elevados.
O risco aumenta quando consumidores recorrem ao:
- pagamento mínimo;
- crédito rotativo;
- parcelamento automático da fatura.
A dívida cresce rapidamente porque os juros passam a incidir sobre valores acumulados mês após mês. Em operações longas, o débito deixa de acompanhar a renda do consumidor e ganha dinâmica própria.
A Secretaria do Consumidor do DF informou ter recebido 77 reclamações contra o Nubank em 2026. Em todo o ano de 2025, foram 211 registros.
O secretário do Consumidor do Distrito Federal, Samuel Konig afirmou que “crédito não pode virar armadilha” e disse que a pasta poderá aplicar multa caso identifique irregularidades nas práticas analisadas.
A dívida do Nubank ganhou relevância justamente porque transforma um caso individual em novo teste para a política criada para conter abusos no cartão de crédito. O Brasil limitou parte do crescimento futuro dos juros do rotativo, mas ainda enfrenta o impacto de contratos antigos, cobrança complexa e dívidas que continuam saindo do controle mesmo após o avanço regulatório.





