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Juros do cartão fazem dívida do Nubank disparar 65 vezes mesmo após pressão regulatória

A dívida do Nubank de um morador do DF saltou 65 vezes em quatro anos e reacendeu debate sobre juros do cartão, rotativo e proteção ao consumidor.
Aplicativo do Nubank aberto em smartphone ao lado de cartão físico da fintech em imagem promocional do banco digital.
Caso de dívida do Nubank que saltou de R$ 12 mil para R$ 788 mil reacendeu debate sobre juros do cartão e limite do crédito rotativo. (Foto: Divulgação/Nubank)

A dívida do Nubank de um morador do Distrito Federal saltou de R$ 12,3 mil para R$ 788 mil após quatro anos de atraso no cartão de crédito. O crescimento de cerca de 65 vezes levou a Secretaria do Consumidor do DF a notificar o banco digital e pedir explicações sobre juros, encargos financeiros e crédito rotativo.

O caso ganhou dimensão maior porque ocorre depois da criação do teto que limita os juros do rotativo do cartão no Brasil. Embora a dívida tenha começado antes da nova regra, a escalada do débito reacendeu dúvidas sobre a eficácia das medidas adotadas para impedir que dívidas bancárias se tornem financeiramente impagáveis.

A Secretaria do Consumidor questionou o Nubank sobre taxas aplicadas no rotativo, fórmula de cálculo dos juros e critérios usados no parcelamento da fatura. O banco não respondeu até a publicação do caso original.

Dívida do Nubank recoloca pressão sobre limite dos juros do rotativo

A nova regra do rotativo entrou em vigor em janeiro de 2024 e limita juros e encargos a 100% do valor original da dívida. Na prática, um débito de R$ 100 não pode ultrapassar R$ 200 em cobrança total nas operações enquadradas na norma.

O problema é que contratos anteriores continuam carregando efeitos do modelo antigo. No caso envolvendo a dívida do Nubank, a pendência começou em janeiro de 2022, período em que os juros do cartão ainda podiam crescer sem o limite atual.

O episódio expõe uma fragilidade importante do sistema regulatório brasileiro. O teto reduziu o risco de crescimento infinito das dívidas novas, mas não eliminou passivos antigos nem resolveu dúvidas sobre transparência nos cálculos usados pelas instituições financeiras.

O Banco Central mantém o cartão de crédito entre as modalidades mais caras do sistema financeiro. O rotativo continua operando com taxas anuais extremamente elevadas, mesmo após mudanças regulatórias.

Cartão de crédito virou novo foco de pressão sobre bancos e fintechs

O caso da dívida do Nubank ganhou repercussão num momento em que bancos já enfrentam pressão crescente sobre transparência nas cobranças ligadas ao cartão de crédito. A discussão deixou de envolver apenas juros altos e passou a atingir também contratos, encargos e produtos agregados vendidos junto às operações financeiras.

O Itaú virou um dos casos recentes mais relevantes desse debate após acordos ligados a cobranças consideradas indevidas em contratos associados a cartões. As discussões envolveram seguros e tarifas cobradas durante anos por empresas do grupo, incluindo Itaucard, Luizacred e Itaú CBD, com ressarcimentos que chegaram a R$ 253,7 milhões.

Os episódios possuem naturezas diferentes. No Itaú, o foco estava em cobranças questionadas judicialmente. Na dívida do Nubank, a pressão recai sobre o crescimento extremo dos juros no rotativo. Mesmo assim, ambos expõem um problema semelhante: consumidores continuam encontrando dificuldade para entender quanto realmente pagarão ao entrar em modalidades de crédito bancário de alto custo.

Crescimento explosivo das dívidas virou problema estrutural do crédito

O cartão de crédito se tornou uma das principais portas de entrada do endividamento no Brasil porque mistura consumo cotidiano, facilidade operacional e juros elevados.

O risco aumenta quando consumidores recorrem ao:

  • pagamento mínimo;
  • crédito rotativo;
  • parcelamento automático da fatura.

A dívida cresce rapidamente porque os juros passam a incidir sobre valores acumulados mês após mês. Em operações longas, o débito deixa de acompanhar a renda do consumidor e ganha dinâmica própria.

A Secretaria do Consumidor do DF informou ter recebido 77 reclamações contra o Nubank em 2026. Em todo o ano de 2025, foram 211 registros.

O secretário do Consumidor do Distrito Federal, Samuel Konig afirmou que “crédito não pode virar armadilha” e disse que a pasta poderá aplicar multa caso identifique irregularidades nas práticas analisadas.

A dívida do Nubank ganhou relevância justamente porque transforma um caso individual em novo teste para a política criada para conter abusos no cartão de crédito. O Brasil limitou parte do crescimento futuro dos juros do rotativo, mas ainda enfrenta o impacto de contratos antigos, cobrança complexa e dívidas que continuam saindo do controle mesmo após o avanço regulatório.

Foto de Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista formado pela Faculdade Estácio e pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação em economia e negócios. Integra as equipes editoriais do Economic News Brasil e do J1, veículos que compõem o Sistema BNTI de Comunicação. Sua atuação é fundamentada em sólida experiência em jornalismo editorial e comunicação institucional.

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