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Custo da energia elétrica acumula quase R$ 1 tri em encargos e pressiona indústria e consumidores

O custo da energia elétrica pode incorporar R$ 985 bilhões em encargos até 2050. Subsídios, jabutis legislativos e contratações do setor ampliam a pressão sobre tarifas, competitividade industrial e inflação.
Conta de energia elétrica ao lado de calculadora, moedas e lâmpada, ilustrando o aumento dos custos de eletricidade e o impacto das tarifas no orçamento.
Entidades do setor elétrico alertam que subsídios, contratações obrigatórias e mudanças regulatórias podem ampliar os custos da energia nas próximas décadas. (Foto: Reprodução)

O avanço do custo da energia elétrica se transformou em uma das principais preocupações de empresas e consumidores. Um levantamento da Frente Nacional dos Consumidores de Energia estima que decisões tomadas pelo governo federal e pelo Congresso Nacional já contrataram cerca de R$ 985 bilhões em despesas que serão incorporadas às tarifas até 2050.

O valor não inclui reajustes tarifários futuros, inflação, bandeiras tarifárias ou outros custos que normalmente afetam a conta de luz. A estimativa considera apenas medidas aprovadas ou contratadas nos últimos anos que ainda produzirão efeitos financeiros ao longo das próximas décadas.

O impacto vai além da fatura residencial. Setores produtivos alertam que o aumento da conta de energia reduz competitividade, encarece a produção e pressiona preços em toda a economia.

Por que a conta de luz sobe mesmo com excesso de energia renovável

A alta do custo da energia elétrica expõe uma contradição do setor elétrico brasileiro. Enquanto o país amplia rapidamente a geração solar e eólica, tarifas continuam pressionadas e novas despesas seguem sendo contratadas para os próximos anos.

O avanço das renováveis aumentou a oferta de energia, mas também ampliou o desafio de manter o equilíbrio do sistema. A geração solar desaparece justamente no início da noite, quando o consumo cresce, obrigando o país a manter outras fontes prontas para entrar em operação rapidamente.

A pressão aumentou com a expansão das placas solares em residências e empresas. A geração distribuída saltou de 26 GW em 2023 para 45 GW no ano passado, dificultando o controle do fluxo de energia pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

O reflexo aparece no crescimento do curtailment, quando o operador precisa reduzir a produção de parques solares e eólicos para preservar a estabilidade da rede. O corte passou de 3,3% da geração em 2023 para 20% no ano passado, mostrando que o sistema convive ao mesmo tempo com excesso de oferta e necessidade de reforço energético.

Foi nesse cenário que surgiram os leilões de reserva de capacidade e as contratações bilionárias de potência. O objetivo é garantir segurança energética, mas críticos afirmam que atrasos regulatórios e decisões políticas transformaram uma necessidade técnica em mais um fator de pressão sobre o custo da energia elétrica nas próximas décadas.

Subsídios e jabutis ampliam o custo da energia elétrica

O avanço do custo da energia elétrica não está ligado apenas às necessidades operacionais do sistema. Especialistas apontam que decisões políticas e subsídios aprovados nos últimos anos passaram a pesar cada vez mais sobre as tarifas.

O exemplo mais citado é o marco legal das eólicas offshore. Durante a tramitação, parlamentares incluíram os chamados jabutis, emendas sem relação direta com o tema original que ampliaram benefícios setoriais e criaram novas obrigações de contratação de energia. Segundo estimativas do mercado, o pacote chegou a representar até R$ 550 bilhões em impactos potenciais nas contas de luz.

Parte dessas medidas foi vetada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas o Congresso derrubou os vetos posteriormente. Segundo cálculos de entidades do setor, essa decisão acrescentou cerca de R$ 197 bilhões em custos ao longo de 25 anos.

Para críticos do modelo atual, o problema é que benefícios concedidos a grupos específicos acabam sendo financiados por todos os consumidores. O resultado aparece diretamente no custo da energia elétrica, que acumula novos encargos mesmo em um país que amplia sua capacidade de geração renovável.

Leilão bilionário coloca indústria e governo em lados opostos

O maior componente do novo custo da energia elétrica está no Leilão de Reserva de Capacidade (LRCap), criado para garantir energia disponível nos momentos de maior demanda. O problema é que o modelo adotado pelo governo virou alvo de críticas de empresários e especialistas do setor.

Após anos sem novos certames, o governo concentrou em um único leilão quase 19 GW de potência, volume equivalente a cerca de uma vez e meia a capacidade de Itaipu. Segundo representantes do mercado, o atraso reduziu a concorrência e elevou os preços contratados.

Entre os principais números da controvérsia estão:

  • 19 GW contratados no LRCap;
  • R$ 546 bilhões em impactos estimados nas tarifas até 2050;
  • aumento projetado de até 13% nos custos da indústria no pico da cobrança;
  • aumento de até 10% para médias empresas.

O Ministério de Minas e Energia afirma que a contratação é necessária para garantir segurança energética e sustentar o crescimento das fontes renováveis. Já entidades empresariais argumentam que o modelo adotado ampliará o custo da energia elétrica para setores que dependem fortemente de eletricidade, como:

  • Indústria de transformação;
  • Mineração;
  • Logística;
  • Comércio;
  • Refrigeração e armazenagem.

Para esses segmentos, a disputa em torno do LRCap deixou de ser apenas técnica e passou a envolver competitividade, investimento e crescimento econômico.

Custo da energia elétrica virou uma disputa sobre crescimento econômico

O debate sobre o custo da energia elétrica já não se resume à geração de eletricidade. A discussão passou a envolver a qualidade das decisões regulatórias, a influência de interesses setoriais e a capacidade do país de equilibrar segurança energética com modicidade tarifária.

Enquanto governo e Congresso defendem que as medidas aprovadas garantem expansão da oferta e sustentam a transição energética, empresários e especialistas alertam que o acúmulo de subsídios, exceções regulatórias e contratações obrigatórias está tornando a conta de luz mais cara.

O desfecho dessa disputa ajudará a definir não apenas o valor das tarifas até 2050, mas também a competitividade da economia brasileira em um cenário global cada vez mais pressionado por custos e produtividade.

Foto de Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista formado pela Faculdade Estácio e pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação em economia e negócios. Integra as equipes editoriais do Economic News Brasil e do J1, veículos que compõem o Sistema BNTI de Comunicação. Sua atuação é fundamentada em sólida experiência em jornalismo editorial e comunicação institucional.

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