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Relatório do Banco Pine vê cenário econômico mais complexo e reduz espaço para queda da Selic

O relatório Pine Macro | Revisão de Cenário revisou para cima as projeções de inflação e reduziu a expectativa de cortes da Selic. O documento aponta que geopolítica, petróleo e desafios fiscais passaram a influenciar de forma crescente o cenário econômico brasileiro.
Nilton David, diretor de Política Monetária do Banco Central, participa de painel sobre cenário econômico no Pine Macro Day do Banco Pine
Nilton David, diretor de Política Monetária do Banco Central, durante painel sobre conjuntura econômica e juros no Pine Macro Day, realizado pelo Banco Pine.

O relatório Pine Macro – Revisão de Cenário, divulgado nesta semana pelo Banco Pine, revisou projeções para inflação, juros e câmbio e reforçou a leitura de que o cenário econômico passou a depender mais de choques externos, riscos geopolíticos e juros internacionais elevados.

A atualização das estimativas afeta decisões de empresas, investidores e famílias porque altera premissas sobre custo do crédito, retorno de investimentos, reajustes contratuais, câmbio e planejamento financeiro para os próximos anos.

Mais do que uma revisão numérica, o documento indica uma mudança na composição dos riscos que cercam a economia. Juros internacionais elevados, inflação persistente e eventos geopolíticos passaram a pesar mais sobre preços de ativos, energia e commodities.

Geopolítica passa a influenciar mais as projeções econômicas

A revisão de cenário atribui papel crescente à geopolítica na formação das expectativas econômicas. O conflito no Oriente Médio, a disputa tecnológica entre Estados Unidos e China e a reorganização das cadeias produtivas aparecem como fatores capazes de alterar fluxos de comércio, preços e investimentos.

O documento destaca que a combinação entre inflação global mais persistente e juros internacionais elevados passou a limitar a margem de atuação dos bancos centrais.

Para o Brasil, esse quadro aumenta a sensibilidade dos mercados a choques externos. Oscilações nos preços de energia, alterações nas rotas comerciais e mudanças nos fluxos de capital podem afetar custos de produção, margens empresariais e decisões de investimento.

“Hoje em dia, os eventos geopolíticos geram mais alteração em preço de ativo do que aqueles indicadores econômicos que nós estamos acostumados a acompanhar”, destacou Cristiano Oliveira, economista e diretor-executivo do Banco Pine.

Relatório do Banco Pine eleva projeções de inflação para 2026 e 2027

O relatório revisou para cima as projeções econômicas de curto e médio prazo, com ajuste nas estimativas de inflação para 2026 e 2027. Segundo Cristiano Oliveira, a mudança reflete principalmente o ambiente inflacionário internacional, a alta do petróleo e seus derivados e os efeitos climáticos associados à transição para um cenário de Super El Niño.

As novas projeções indicam IGP-M de 7,3% em 2026 e de 6% em 2027. Para o IPCA, índice utilizado no regime de metas de inflação, a expectativa passou para 5,6% em 2026 e 5% em 2027.

A revisão importa porque inflação mais alta afeta contratos, aluguel, custos logísticos, folha de pagamento e preços finais. Para empresas, o efeito aparece no orçamento. Para investidores, aparece na leitura sobre juros reais e retorno dos ativos.

Entre os fatores que sustentam a revisão do cenário econômico estão:

  • petróleo e derivados, com efeito sobre energia, transporte e custos industriais;
  • risco geopolítico, com impacto sobre commodities e preços de ativos;
  • Super El Niño, com possível pressão sobre alimentos e cadeias produtivas;
  • inflação de serviços, ainda influenciada pelo mercado de trabalho;
  • juros internacionais elevados, que reduzem o espaço para flexibilização monetária no Brasil.

O documento também destaca que a retomada da influência dos riscos geopolíticos sobre energia e commodities tornou o processo de desinflação mais complexo para os bancos centrais.

Cenário econômico reduz espaço para novos cortes da Selic

A mudança nas projeções de inflação levou a uma recalibração da expectativa para a política monetária. A revisão de cenário passou a considerar apenas duas reduções adicionais de 25 pontos-base na taxa básica de juros.

Com isso, a taxa Selic deverá encerrar esse ciclo em 14% ao ano. A leitura apresentada pelo relatório indica que a autoridade monetária deverá manter postura cautelosa para assegurar o retorno da inflação ao centro da meta.

Esse ponto tem efeito direto sobre crédito e investimento. Juros mais altos por mais tempo encarecem capital de giro, financiamentos, emissão de dívida e projetos de expansão, além de manter maior atratividade para aplicações de renda fixa.

A avaliação reflete também o comportamento da atividade econômica doméstica. O documento observa que o mercado de trabalho continua relativamente forte, enquanto algumas modalidades de crédito seguem em expansão e a renda real das famílias mantém trajetória de crescimento.

“Nosso cenário base passou a incorporar apenas duas quedas adicionais de 25 p.b na taxa Selic”, disse o economista-chefe do Banco Pine.

Real mantém fundamentos favoráveis apesar dos desafios

Apesar da revisão para inflação e juros, o relatório preservou avaliação construtiva para o real, com projeção de câmbio de R$ 5,20 por dólar ao fim de 2026.

A visão é sustentada pelo diferencial de juros entre Brasil e economias desenvolvidas, pela evolução dos termos de troca e pela redução do prêmio de risco associado ao país.

Para empresas expostas ao câmbio, esse diagnóstico é relevante porque influencia custos de importação, receitas de exportação, proteção cambial e decisões de investimento externo.

A expectativa de entrada de capital estrangeiro reforça essa leitura ao ampliar a oferta de dólares na economia.

“Os investimentos diretos estrangeiros devem ultrapassar US$ 100 bilhões anuais em poucos anos”, disse Oliveira.

Pine Macro Day aprofunda debate sobre geopolítica, juros e crédito

O Banco Pine realizou na quinta-feira (28/05) o Pine Macro Day, evento transmitido pelo YouTube para debater os rumos da economia global e brasileira. A programação reuniu especialistas em geopolítica, representantes do Banco Central e executivos do banco em painéis sobre economia internacional, política monetária e crédito bancário.

Entre os participantes estiveram Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e membro do Conselho de Administração do Banco Pine; Vivian Oswald, especialista em geopolítica internacional da Jota; Cristiano Oliveira, diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine; Nilton David, diretor de Política Monetária do Banco Central; e Clive Botelho, diretor executivo do Banco Pine.

Confira o vídeo do evento:

Fiscal e produtividade seguem como limitações domésticas

Embora mantenha uma visão construtiva para o câmbio, a revisão de cenário mostra que o cenário econômico brasileiro ainda enfrenta limites internos para uma expansão mais robusta. Entre eles estão a dinâmica fiscal e a baixa produtividade.

Na avaliação apresentada, a trajetória das contas públicas continua sendo fator de atenção para investidores e formuladores de política econômica. O tema permanece associado à percepção de risco e ao custo de financiamento da economia.

O documento também ressalta que o crescimento potencial do país continua limitado pela produtividade. Esse fator reduz a capacidade de expansão sustentada da atividade, mesmo em momentos de melhora do ambiente externo.

A conclusão do relatório do Banco Pine é que o cenário econômico brasileiro combina capacidade de atração de capital com restrições fiscais e produtivas. Para empresas e investidores, a consequência prática é trabalhar com premissas mais conservadoras para juros, inflação, câmbio e custo de capital.

Foto de Jackson Pereira Jr

Jackson Pereira Jr

Jackson Pereira Jr. é jornalista e empreendedor, fundador do Sistema BNTI de Comunicação e dos portais Economic News Brasil, Boa Notícia Brasil e J1 News Brasil.

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