A venda da Corredor Logística e Infraestrutura (CLI) para a Abu Dhabi (AD) Ports Group, confirmada nesta terça-feira (02/06) por US$ 835 milhões (cerca de R$ 4,2 bilhões), encerra um processo iniciado em circunstâncias bem diferentes. Há cinco anos, a empresa estava associada a uma complexa reestruturação financeira. Hoje, controla operações que movimentam cerca de 10% das exportações brasileiras de grãos e açúcar.
O contraste ajuda a explicar por que a transação se tornou uma das mais relevantes da infraestrutura logística brasileira nos últimos anos. Mais do que uma mudança de controle, o negócio reflete a valorização de ativos ligados ao escoamento do agronegócio e evidencia o retorno obtido pelos investidores que apostaram na recuperação da companhia.
Após anos concentrada na reorganização financeira, a empresa passou a ampliar presença operacional e ganhou relevância em dois dos principais corredores de exportação do país. Esse processo criou as condições que agora atraíram um operador global para o negócio.
Como a reestruturação ajudou a viabilizar a venda da CLI
A história da CLI começou a mudar em 2020, quando a IG4 Capital assumiu o controle do terminal de Itaqui, no Maranhão, dentro de uma operação ligada à reorganização de aproximadamente US$ 240 milhões em dívidas.
Naquele momento, a prioridade não era preparar uma venda futura. O foco estava em recuperar a capacidade operacional do ativo e construir uma estrutura financeira capaz de sustentar crescimento em um setor que exige investimentos permanentes.
A estratégia evoluiu conforme o mercado agrícola brasileiro ampliava sua dependência de corredores logísticos eficientes. Em vez de permanecer restrita a uma única operação portuária, a companhia passou a buscar escala para atender uma demanda crescente de exportação. Movimento que, inclusive, ajudaria a viabilizar a venda da CLI.
Esse processo ganhou força em 2022, quando a empresa adquiriu da Rumo um terminal agrícola em Santos. Para financiar a expansão, a IG4 trouxe a australiana Macquarie Asset Management para dividir o controle do negócio e apoiar uma nova fase de crescimento.
Santos e Itaqui transformaram a escala da operação
A combinação dos dois ativos alterou o perfil da companhia. Itaqui já ocupava posição relevante dentro do chamado Arco Norte, rota que ganhou importância à medida que a produção agrícola avançou em regiões como Matopiba e Centro-Oeste.
A presença simultânea nos dois portos ampliou a capacidade de atendimento da companhia e reduziu a dependência de uma única região logística. Com isso, a empresa passou a reunir características cada vez mais valorizadas em infraestrutura: escala, diversificação geográfica e acesso direto ao agronegócio exportador.
Os resultados apareceram nos indicadores operacionais:
- mais de 17 milhões de toneladas movimentadas em 2024;
- receita próxima de R$ 1 bilhão;
- EBITDA de R$ 556 milhões.
Três resultados e transformação ajudam a explicar por que a venda da CLI despertou o interesse da AD Ports e se tornou uma das operações mais relevantes do setor logístico brasileiro nos últimos anos.
Por que a AD Ports decidiu entrar no Brasil pela CLI
A venda da CLI deu à AD Ports acesso imediato a uma infraestrutura-chave para o comércio brasileiro de grãos e açúcar. Em vez de disputar novas concessões ou construir operações do zero, o grupo de Abu Dhabi comprou uma plataforma já posicionada em dois dos principais corredores do agronegócio nacional.
O ativo reúne operações no Porto de Santos, principal porta de saída das exportações brasileiras, e no Porto de Itaqui, um dos terminais mais importantes do Arco Norte. Juntos, os dois portos permitem acesso a diferentes regiões produtoras e reduzem a dependência de uma única rota logística.
A operação também se conecta à estratégia dos Emirados Árabes Unidos de ampliar presença em cadeias globais de abastecimento alimentar. Diferentemente de investimentos focados apenas na compra de commodities, o objetivo é ganhar participação em ativos que controlam armazenamento, movimentação e embarque de produtos agrícolas.
Não por acaso, esta é a maior aquisição já realizada pela AD Ports. O grupo administra portos e zonas industriais em diversos países, mas encontrou na CLI uma oportunidade rara de entrar diretamente em uma das principais rotas de exportação de alimentos do mundo.
O que a venda da CLI sinaliza para a infraestrutura brasileira
A operação também revela uma mudança na forma como investidores avaliam ativos logísticos no país. O interesse crescente não está apenas na movimentação portuária, mas na capacidade de conectar produção, armazenagem e exportação em corredores cada vez mais disputados.
Esse cenário ajuda a explicar por que ativos considerados difíceis de replicar passaram a receber avaliações mais elevadas. Portos com localização estratégica, licenças operacionais e acesso consolidado às cadeias de exportação tornaram-se escassos.
A venda da CLI sintetiza esse processo. Em poucos anos, uma empresa associada a uma reestruturação financeira foi transformada em uma plataforma logística capaz de atrair uma quisição histórica. O resultado reforça o valor que o mercado passou a atribuir à infraestrutura ligada ao agronegócio brasileiro. E, inclusive, sugere que novos movimentos semelhantes podem surgir nos próximos anos.





