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Compartilhamento de dados entre Claro e Serasa entra na mira da ANPD e pressiona mercado de crédito

A investigação da ANPD contra Claro e Serasa vai além da privacidade. O caso pode redefinir como empresas usam dados para criar produtos de crédito e gerar receita. Entenda os impactos.
Loja da Claro em centro comercial. A operadora é alvo de processo da ANPD por supostas irregularidades no compartilhamento de dados de clientes com a Serasa Experian.
Investigação da ANPD avalia se a Claro compartilhou mais informações de clientes do que o necessário durante parceria firmada com a Serasa. (Foto: Divulgação/Claro)

A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) abriu processos contra a Claro e a Serasa Experian após identificar indícios de irregularidades em uma parceria que envolveu o compartilhamento de informações de clientes entre 2021 e 2023. Segundo a agência, a operadora teria transferido mais de uma centena de metadados para a empresa de análise de crédito, incluindo informações de consumo e comportamento dos usuários.

A apuração busca esclarecer se esse volume de dados era necessário para os objetivos da parceria e se os clientes foram informados adequadamente sobre o tratamento das informações. Tanto a Claro quanto a Serasa negam qualquer descumprimento da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

O embate ganhou relevância porque alcança uma atividade que se tornou estratégica para diversos setores da economia. Empresas de telecomunicações, bancos, fintechs, varejistas e bureaus de crédito utilizam dados para desenvolver produtos, avaliar riscos e ampliar receitas. Por isso, a decisão da ANPD pode influenciar muito mais do que o futuro das duas companhias investigadas.

Como o compartilhamento de dados virou um ativo estratégico para empresas

Dados pessoais se tornaram uma das matérias-primas mais valiosas da economia digital.

Empresas utilizam essas informações para:

  • construir modelos de crédito;
  • identificar padrões de consumo;
  • personalizar ofertas;
  • reduzir riscos financeiros;
  • desenvolver novos serviços.

Nesse ambiente, a combinação de diferentes bases de dados aumenta o potencial econômico das informações coletadas.

Uma operadora de telefonia consegue identificar hábitos de consumo, frequência de uso de serviços e padrões de relacionamento com seus clientes. Já uma empresa de análise de crédito possui informações financeiras e histórico de comportamento econômico.

A integração desses universos permite criar modelos mais sofisticados de avaliação e segmentação. É justamente esse tipo de operação que passou a ser observado com mais rigor pelos reguladores.

Investigação da ANPD sobre compartilhamento de dados pode gerar efeitos para muito além de Claro e Serasa

A apuração não afeta apenas as duas empresas envolvidas.

Diversos setores utilizam mecanismos semelhantes para desenvolver produtos e ampliar receitas:

  • bancos;
  • fintechs;
  • seguradoras;
  • varejistas;
  • marketplaces;
  • empresas de análise de crédito.

A ANPD, que constantemente lida com casos envolvendo uso de dados, questiona se houve compartilhamento excessivo de informações e se os consumidores receberam transparência adequada sobre o tratamento dos dados.

Segundo a autoridade, a parceria envolveu 106 metadados distintos, incluindo informações relacionadas ao perfil de uso dos clientes. A avaliação busca verificar se todo esse conjunto era realmente necessário para a finalidade proposta.

Uma interpretação mais restritiva da LGPD pode obrigar empresas a revisar contratos, políticas de privacidade e mecanismos de consentimento atualmente utilizados no mercado.

Isso tende a elevar custos de conformidade e aumentar o nível de fiscalização sobre iniciativas baseadas em compartilhamento de dados.

Economia dos dados passa a enfrentar um ambiente regulatório mais rigoroso

O caso também evidencia uma mudança na atuação da própria ANPD.

Nos primeiros anos da LGPD, a autoridade concentrou esforços na orientação das empresas e na construção de diretrizes regulatórias. Agora, os processos começam a testar, na prática, os limites da legislação.

A Claro responde a um processo administrativo sancionador que pode resultar em penalidades previstas na lei. Já a Serasa Experian permanece em fase de fiscalização, etapa que ainda poderá evoluir para um procedimento sancionador.

O avanço dessas investigações aumenta a atenção do mercado porque cria precedentes.

Empresas observam não apenas o resultado final dos processos, mas também os critérios que a ANPD utilizará para definir o que considera proporcional, transparente e necessário no tratamento de dados pessoais.

Por isso, o debate sobre o compartilhamento de dados entre Claro e Serasa deixou de ser uma questão restrita à proteção da privacidade. A investigação coloca sob análise um modelo de negócios que movimenta bilhões de reais e ajuda a sustentar parte relevante da economia digital brasileira.

Foto de Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista formado pela Faculdade Estácio e pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação em economia e negócios. Integra as equipes editoriais do Economic News Brasil e do J1, veículos que compõem o Sistema BNTI de Comunicação. Sua atuação é fundamentada em sólida experiência em jornalismo editorial e comunicação institucional.

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