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Cedae manteve R$ 91 milhões no Banco Digimais sob crescente pressão

A Cedae manteve até R$ 91,2 milhões aplicados no Banco Digimais mesmo após rebaixamentos e alertas sobre a situação financeira da instituição. O caso levanta dúvidas sobre governança, avaliação de risco e proteção do dinheiro público.
Imagem da fachada do Banco Digimais para ilustrar uma matéria jornalística sobre a Cedae e Banco Digimais
Cedae mantém milhões no Banco Digimais apesar de alertas de risco. (Imagem: divulgação/Banco Digimais)

Banco Digimais virou alvo de questionamentos após a revelação de que a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) manteve aplicações milionárias na instituição financeira controlada por Edir Macedo, mesmo diante de sucessivos sinais de deterioração financeira.

O caso envolve até R$ 91,2 milhões em investimentos realizados durante a gestão do então diretor financeiro Antonio Carlos dos Santos, indicado pelo ex-governador Cláudio Castro (PL). As aplicações continuaram mesmo quando agências de classificação de risco passaram a apontar aumento das incertezas sobre o banco.

O episódio ganhou relevância porque não envolve apenas uma instituição financeira privada. A discussão passou a ser sobre como recursos públicos foram administrados diante de alertas crescentes de mercado.

O que chamou atenção no caso

  • Aplicações chegaram a R$ 91,2 milhões
  • Banco pertence ao bispo Edir Macedo
  • Fitch rebaixou a instituição para BB-
  • Moody’s reduziu a nota para CCC+
  • Auditorias discutiram riscos envolvendo o banco
  • Atual gestão informou que os investimentos não serão renovados

Por que a Cedae investiu no Banco Digimais

Os investimentos ocorreram por meio de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) emitidos pelo Banco Digimais.

As operações incluíram:

  • aporte inicial de R$ 35 milhões;
  • nova aplicação de R$ 25 milhões;
  • remuneração entre 106% e 109% do CDI;
  • prazos de resgate que chegavam a um ano.

As aplicações foram autorizadas dentro das regras vigentes da política financeira da companhia. A flexibilização dos critérios permitia exposição de parte da carteira a bancos com classificação BBB-, faixa considerada o limite mínimo do grau de investimento.

Isso abriu espaço para que a estatal direcionasse recursos a instituições que ofereciam rentabilidade maior, mas apresentavam risco superior ao de grandes bancos tradicionais.

Como o risco do Digimais aumentou ao longo do tempo

O cenário começou a mudar rapidamente.

A tentativa de venda da instituição acabou frustrada, exigindo novos aportes de capital dos controladores e aumentando as dúvidas sobre a situação financeira do banco.

Ao mesmo tempo, relatórios de mercado passaram a destacar preocupações relacionadas à qualidade de ativos e à capacidade de recuperação de determinados investimentos.

Os principais sinais de deterioração incluíram:

  • desistência da venda anunciada da instituição;
  • necessidade de reforço de capital;
  • aumento da dependência de captações;
  • questionamentos sobre ativos financeiros;
  • rebaixamentos sucessivos pelas agências de rating.

Mesmo diante desse cenário, os recursos permaneceram aplicados.

A situação chamou atenção porque a própria Cedae já enfrentava questionamentos relacionados a investimentos anteriores em instituições financeiras de perfil semelhante.

O que os rebaixamentos das agências revelaram

A deterioração ficou mais evidente quando as classificações de risco começaram a cair. Em março, a Fitch Ratings reduziu a nota do Digimais para BB-, nível considerado especulativo.

Pouco depois, a Moody’s Local promoveu novo rebaixamento, levando a instituição para CCC+, categoria associada a risco elevado de inadimplência.

O relatório apontou preocupação com a crescente exposição do banco a fundos de investimento e dificuldades para verificar parte relevante desses ativos.

Segundo a agência, a carteira de títulos e valores mobiliários alcançava cerca de R$ 4,3 bilhões, representando aproximadamente 42% dos ativos totais da instituição.

O diagnóstico elevou a pressão sobre a gestão dos recursos públicos investidos no banco.

Por que o caso virou um debate sobre dinheiro público

O episódio extrapolou a esfera financeira porque envolve recursos de uma empresa estatal.

Quando uma companhia pública investe seu caixa, a prioridade costuma ser preservar três pilares:

  • segurança;
  • liquidez;
  • rentabilidade.

O desafio surge quando a busca por retornos mais elevados aumenta a exposição a instituições consideradas mais vulneráveis.

Nesse contexto, o caso Digimais passou a levantar dúvidas sobre a forma como os riscos estavam sendo avaliados internamente e sobre a velocidade de reação diante da deterioração dos indicadores do banco.

Documentos da própria estatal mostram que o tema chegou ao Comitê de Auditoria, onde foram discutidas alternativas para realocação dos recursos em instituições com melhor classificação de risco.

O que muda agora para a Cedae

A atual administração informou que promoveu mudanças na Política de Aplicações Financeiras com o objetivo de fortalecer mecanismos de governança e reduzir a exposição a ativos considerados mais arriscados.

A companhia também declarou que os investimentos no Digimais não serão renovados.

Os recursos deverão ser direcionados para instituições classificadas entre as mais sólidas do sistema financeiro nacional.

O episódio deixa uma discussão que vai além da relação entre a estatal e o banco de Edir Macedo. O caso expõe como decisões de investimento podem transformar a busca por rentabilidade em um problema de governança quando envolvem dinheiro público e instituições sob crescente pressão financeira.

Cedae e Banco Digimais: o alerta para a gestão de estatais

O principal legado do caso não está apenas nos R$ 91,2 milhões investidos.

A controvérsia mostra como mudanças em critérios de aplicação, classificações de risco e mecanismos de controle podem influenciar diretamente a segurança dos recursos administrados por empresas públicas.

Por isso, a discussão sobre Cedae e o Banco Digimais tende a permanecer no debate público mesmo após o vencimento das aplicações, servindo como referência para futuras decisões envolvendo a gestão financeira de estatais brasileiras.

Foto de Marconi Bernardino

Marconi Bernardino

Marconi Bernardino é jornalista formado pela Unifavip Wyden, em Caruaru (PE). Integra a equipe do Economic News Brasil, com atuação na produção de conteúdos analíticos sobre negócios, mercado financeiro e fortunas, além de experiência em jornalismo para televisão e rádio.

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