O Banco Digimais transferiu carteiras de financiamento de veículos altamente inadimplentes para fundos de investimento enquanto negocia uma possível venda ao BTG Pactual. Os ativos envolvem operações de crédito para carros usados, clientes já endividados e empréstimos com juros elevados, segmento considerado de alto risco pelo mercado financeiro.
A operação passou a gerar pressão sobre o banco após fundos ligados a essas carteiras acumularem índices extremos de atraso. Um dos FIDCs relacionados ao negócio chegou a registrar quase 60% da carteira em inadimplência, levantando dúvidas sobre a qualidade real dos ativos e sobre quanto das perdas foi deslocado para fora do balanço principal da instituição.
O caso ganhou dimensão maior porque a negociação envolvendo o BTG já prevê possibilidade de suporte financeiro do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo normalmente utilizado para evitar contaminação sistêmica em operações bancárias mais delicadas.
Crédito de veículos virou origem da deterioração do Banco Digimais
O financiamento de veículos foi durante anos o principal negócio do Banco Digimais. Em 2021, essa modalidade chegou a representar 94% das operações de crédito da instituição.
O banco atuava num nicho evitado por grandes instituições financeiras:
- carros antigos;
- veículos baratos;
- clientes já endividados;
- operações com juros elevados.
Em dezembro de 2025, o Digimais apareceu entre os bancos com maiores taxas de juros do país, segundo o Banco Central:
- 2,97% ao mês;
- 41,07% ao ano.
Esse tipo de crédito costuma gerar rentabilidade elevada em momentos de crescimento econômico. O problema aparece quando inadimplência, desvalorização dos veículos e baixa recuperação judicial começam a corroer rapidamente a carteira.
Nos últimos anos, o banco passou a transferir parte dessas operações para FIDCs, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios.
Na prática, os fundos compram recebíveis financeiros e assumem o risco das parcelas futuras. O modelo é comum no mercado. O que chamou atenção no caso Banco Digimais foi o volume de carteiras problemáticas deslocadas para essas estruturas em meio a uma operação de venda para o BTG.
Fundo Tabor expôs dimensão da carteira problemática
O caso mais sensível envolve o fundo Tabor, que comprou parte da carteira de financiamento de veículos do banco.
Em abril de 2026, o fundo registrava:
- R$ 960 milhões em carteira;
- R$ 575 milhões em inadimplência;
- atraso equivalente a 59,9% da operação.
Mais de R$ 200 milhões correspondiam a parcelas vencidas havia até dois anos.
Os números ampliaram dúvidas sobre a qualidade real dos ativos ligados ao Banco Digimais porque, no balanço semestral de dezembro de 2025, a instituição declarava R$ 366 milhões em créditos vencidos no financiamento de veículos.
Naquele momento, porém, apenas o fundo Tabor já acumulava inadimplência superior ao valor registrado oficialmente pelo banco nessa modalidade. A discrepância passou a alimentar questionamentos sobre quanto do problema financeiro havia sido deslocado para estruturas externas ao balanço principal.
Especialistas do mercado consideram incomum o uso tão agressivo de FIDCs nesse contexto. Em bancos tradicionais, essas estruturas normalmente servem:
- para gestão de capital;
- diversificação de funding;
- venda controlada de recebíveis;
- redução equilibrada de exposição.
Quando fundos passam a concentrar carteiras altamente deterioradas, o mercado tende a interpretar o movimento como tentativa de aliviar pressão contábil sobre o banco de origem.
Outro fator que elevou a preocupação é que o próprio Digimais aparece como investidor de fundos ligados às carteiras problemáticas. Isso reduziu a percepção de separação efetiva entre quem origina o crédito e quem absorve o prejuízo final.
BTG mira base de clientes enquanto risco continua pressionando operação com Banco Digimais
A negociação envolvendo o BTG Pactual acontece em meio à deterioração da carteira do Banco Digimais.
O próprio BTG informou que o interesse está concentrado na “carteira de clientes” da instituição. No mercado, a sinalização foi interpretada como indicativo de que ativos mais problemáticos podem ficar fora da operação principal.
A transação ainda depende:
- de processo competitivo;
- de condições precedentes;
- de mecanismos de suporte financeiro;
- da participação do FGC.
Esse último ponto ganhou peso porque o FGC costuma atuar em operações destinadas a evitar risco de contágio no sistema financeiro. Além disso, o cenário também ficou mais sensível após a operação envolvendo o fundo Hermon.
A holding ligada ao empresário e líder religioso Edir Macedo comprou R$ 741 milhões em cotas do fundo, que possui como principal ativo um direito judicial relacionado a indenização histórica envolvendo herdeiros da antiga Companhia de Mineração e Siderurgia, incorporada durante o processo de criação da Vale.
O fundo estima direito potencial de R$ 2,2 bilhões, mas o processo se arrasta há décadas e segue cercado por disputas judiciais sobre cálculo e pagamento.
A operação ampliou a percepção de que parte relevante dos ativos ligados ao grupo depende de recuperação longa, incerta e de difícil precificação financeira.
Banco Digimais virou teste para mercado de crédito estruturado
O caso do Banco Digimais com o BTG Pactual passou a simbolizar uma discussão mais ampla dentro do sistema financeiro brasileiro: até que ponto estruturas de crédito conseguem redistribuir risco sem apenas deslocar perdas para fora do balanço principal.
A combinação entre crédito subprime de veículos, carteira inadimplente em FIDCs e possível necessidade de suporte do FGC aumentou a pressão sobre a negociação com o BTG.
Mais do que uma simples venda bancária, a operação virou um teste sobre transparência financeira, qualidade real dos ativos e capacidade do mercado de absorver prejuízos sem transferir parte da conta para mecanismos de proteção do próprio sistema bancário.



