O resultado da Marisa no primeiro trimestre de 2026 (1T26) mostrou uma companhia operacionalmente mais organizada, mas ainda incapaz de converter eficiência em recuperação financeira consistente. A varejista avançou no digital, reduziu despesas e melhorou indicadores de fidelização, porém voltou a registrar forte prejuízo em meio à pressão dos juros e do consumo enfraquecido.
A Marisa encerrou o trimestre com prejuízo líquido de R$ 95,8 milhões, revertendo o lucro de R$ 2,4 milhões registrado um ano antes. Ao mesmo tempo, a companhia viu o EBITDA consolidado despencar 66,9%, movimento que expôs a dificuldade do varejo popular em recuperar escala num ambiente de crédito caro e inadimplência elevada.
Mesmo assim, o balanço revelou uma contradição importante. Enquanto os números consolidados pioraram, a empresa apresentou melhora operacional relevante em indicadores recorrentes, mostrando que parte do turnaround começou a produzir efeitos internos, mas ainda insuficientes para neutralizar a deterioração financeira do setor.
Digital cresce, mas avanço online ainda não recompõe receita
A Marisa registrou crescimento de 22% no canal digital no primeiro trimestre, impulsionado pela ampliação do marketplace, expansão omnichannel e aumento do sortimento online. A companhia também acelerou novas parcerias comerciais e reforçou operações integradas entre lojas físicas e plataforma digital.
Mesmo com esse avanço, o crescimento online não evitou retração do faturamento consolidado nos resultado da Marisa observado no primeiro trimestre:
- receita líquida caiu 3,8%;
- vendas em mesmas lojas recuaram 0,7%;
- lucro bruto consolidado caiu 7,6%;
- margem bruta perdeu 2 pontos percentuais.
O desempenho mostra que o varejo de moda popular continua enfrentando dificuldade para transformar expansão digital em crescimento estrutural de receita. O consumidor permanece mais seletivo, mais endividado e menos disposto a ampliar gastos discricionários, principalmente em segmentos ligados a vestuário e consumo não essencial.
Marisa tenta reposicionar marca para aumentar retenção e recorrência
A companhia usou o trimestre para acelerar mudanças internas ligadas ao reposicionamento da marca. O foco passou a ser ampliar conexão com a mulher brasileira e aumentar recorrência de compra dentro da mesma base de clientes.
Nesse processo, a categoria infantil ganhou prioridade estratégica porque 70% das clientes possuem filhos. A empresa ampliou espaço da linha infantil nas lojas e reforçou a estratégia de transformar a operação em modelo “one stop shop”, concentrando compras da família dentro da mesma jornada de consumo.
De acordo com a divulgação de resultado da Marisa no 1T26, a companhia também iniciou um projeto de rebranding e revisão da experiência comercial, incluindo:
- reformulação das coleções;
- reorganização dos lifestyles;
- ampliação do mix de produtos;
- melhoria visual das lojas;
- reforço da proposta omnichannel.
Os efeitos começaram a aparecer em alguns indicadores de relacionamento. A base ativa de clientes cresceu 6,3%, alcançando 6,6 milhões, enquanto o churn caiu 50% em relação ao mesmo período do ano anterior. O NPS acumulado também avançou 20 pontos percentuais.
EBITDA recorrente da Marisa melhora, mas resultado consolidado no 1T26 continua pressionado
O principal conflito no resultado da Marisa no 1T26 apareceu na diferença entre os indicadores operacionais recorrentes e os números consolidados.
Enquanto o EBITDA total caiu 66,9%, o EBITDA recorrente em mesmas lojas avançou 60,6%, acompanhado de alta de 2,8 pontos percentuais na margem operacional recorrente.
A melhora operacional foi sustentada principalmente por:
- redução de despesas administrativas;
- controle mais rígido de estoques;
- melhora do giro de produtos;
- maior disciplina comercial;
- preservação de caixa operacional.
A companhia reduziu despesas gerais e administrativas em 17,2%, reforçando uma política mais agressiva de austeridade operacional.
Parte relevante da piora consolidada aconteceu porque o primeiro trimestre de 2025 havia sido beneficiado por receitas tributárias extraordinárias. Naquele período, a Marisa reconheceu créditos fiscais não recorrentes que elevaram artificialmente o resultado financeiro e operacional da companhia.
Mesmo assim, os números mostram que a recuperação operacional ainda depende mais de corte de custos do que de crescimento consistente da demanda, fator que limita a velocidade do turnaround.
Resultado da Marisa no 1T26 mostra que crédito próprio ganha peso enquanto juros corrorem caixa
O Cartão Marisa voltou a ganhar relevância dentro da operação num momento em que o varejo popular depende cada vez mais de crédito próprio para sustentar frequência de compra e ticket médio. A participação do cartão subiu 3,1 pontos percentuais em um ano e passou a responder por 26% das transações da companhia.
Ao mesmo tempo, a base ativa do cartão cresceu 8%, ultrapassando um milhão de unidades ativas. O avanço ajuda a elevar retenção e engajamento da cliente, mas também amplia exposição financeira justamente num cenário de inadimplência mais elevada entre famílias de baixa e média renda.
A pressão apareceu diretamente no balanço financeiro da companhia:
- resultado financeiro negativo de R$ 88,3 milhões;
- dívida líquida de R$ 336,8 milhões;
- alavancagem de 1,3 vez EBITDA;
- caixa reduzido de R$ 48 milhões para R$ 10,6 milhões.
Mesmo com melhora operacional e avanço digital, o resultado da Marisa no 1T26 mostra que o varejo popular continua pressionado pela combinação entre juros altos, crédito mais caro e perda de capacidade de consumo. caixa.



