Resultados da Marisa no 1T26 mostra avanço no digital sem conseguir frear prejuízo de R$ 95 mi

O resultado da Marisa no 1T26 mostrou avanço no digital e melhora operacional, mas a companhia ainda sofre com queda de receita, juros elevados e consumo pressionado.
Fachada de loja da Marisa em shopping center durante período de divulgação do resultado da Marisa no 1T26.
Marisa ampliou vendas digitais e reduziu despesas no 1T26, mas voltou a registrar prejuízo em meio à pressão dos juros e do consumo fraco. (Foto: Reprodução)

O resultado da Marisa no primeiro trimestre de 2026 (1T26) mostrou uma companhia operacionalmente mais organizada, mas ainda incapaz de converter eficiência em recuperação financeira consistente. A varejista avançou no digital, reduziu despesas e melhorou indicadores de fidelização, porém voltou a registrar forte prejuízo em meio à pressão dos juros e do consumo enfraquecido.

A Marisa encerrou o trimestre com prejuízo líquido de R$ 95,8 milhões, revertendo o lucro de R$ 2,4 milhões registrado um ano antes. Ao mesmo tempo, a companhia viu o EBITDA consolidado despencar 66,9%, movimento que expôs a dificuldade do varejo popular em recuperar escala num ambiente de crédito caro e inadimplência elevada.

Mesmo assim, o balanço revelou uma contradição importante. Enquanto os números consolidados pioraram, a empresa apresentou melhora operacional relevante em indicadores recorrentes, mostrando que parte do turnaround começou a produzir efeitos internos, mas ainda insuficientes para neutralizar a deterioração financeira do setor.

Digital cresce, mas avanço online ainda não recompõe receita

A Marisa registrou crescimento de 22% no canal digital no primeiro trimestre, impulsionado pela ampliação do marketplace, expansão omnichannel e aumento do sortimento online. A companhia também acelerou novas parcerias comerciais e reforçou operações integradas entre lojas físicas e plataforma digital.

Mesmo com esse avanço, o crescimento online não evitou retração do faturamento consolidado nos resultado da Marisa observado no primeiro trimestre:

  • receita líquida caiu 3,8%;
  • vendas em mesmas lojas recuaram 0,7%;
  • lucro bruto consolidado caiu 7,6%;
  • margem bruta perdeu 2 pontos percentuais.

O desempenho mostra que o varejo de moda popular continua enfrentando dificuldade para transformar expansão digital em crescimento estrutural de receita. O consumidor permanece mais seletivo, mais endividado e menos disposto a ampliar gastos discricionários, principalmente em segmentos ligados a vestuário e consumo não essencial.

Marisa tenta reposicionar marca para aumentar retenção e recorrência

A companhia usou o trimestre para acelerar mudanças internas ligadas ao reposicionamento da marca. O foco passou a ser ampliar conexão com a mulher brasileira e aumentar recorrência de compra dentro da mesma base de clientes.

Nesse processo, a categoria infantil ganhou prioridade estratégica porque 70% das clientes possuem filhos. A empresa ampliou espaço da linha infantil nas lojas e reforçou a estratégia de transformar a operação em modelo “one stop shop”, concentrando compras da família dentro da mesma jornada de consumo.

De acordo com a divulgação de resultado da Marisa no 1T26, a companhia também iniciou um projeto de rebranding e revisão da experiência comercial, incluindo:

  • reformulação das coleções;
  • reorganização dos lifestyles;
  • ampliação do mix de produtos;
  • melhoria visual das lojas;
  • reforço da proposta omnichannel.

Os efeitos começaram a aparecer em alguns indicadores de relacionamento. A base ativa de clientes cresceu 6,3%, alcançando 6,6 milhões, enquanto o churn caiu 50% em relação ao mesmo período do ano anterior. O NPS acumulado também avançou 20 pontos percentuais.

EBITDA recorrente da Marisa melhora, mas resultado consolidado no 1T26 continua pressionado

O principal conflito no resultado da Marisa no 1T26 apareceu na diferença entre os indicadores operacionais recorrentes e os números consolidados.

Enquanto o EBITDA total caiu 66,9%, o EBITDA recorrente em mesmas lojas avançou 60,6%, acompanhado de alta de 2,8 pontos percentuais na margem operacional recorrente.

A melhora operacional foi sustentada principalmente por:

  • redução de despesas administrativas;
  • controle mais rígido de estoques;
  • melhora do giro de produtos;
  • maior disciplina comercial;
  • preservação de caixa operacional.

A companhia reduziu despesas gerais e administrativas em 17,2%, reforçando uma política mais agressiva de austeridade operacional.

Parte relevante da piora consolidada aconteceu porque o primeiro trimestre de 2025 havia sido beneficiado por receitas tributárias extraordinárias. Naquele período, a Marisa reconheceu créditos fiscais não recorrentes que elevaram artificialmente o resultado financeiro e operacional da companhia.

Mesmo assim, os números mostram que a recuperação operacional ainda depende mais de corte de custos do que de crescimento consistente da demanda, fator que limita a velocidade do turnaround.

Resultado da Marisa no 1T26 mostra que crédito próprio ganha peso enquanto juros corrorem caixa

O Cartão Marisa voltou a ganhar relevância dentro da operação num momento em que o varejo popular depende cada vez mais de crédito próprio para sustentar frequência de compra e ticket médio. A participação do cartão subiu 3,1 pontos percentuais em um ano e passou a responder por 26% das transações da companhia.

Ao mesmo tempo, a base ativa do cartão cresceu 8%, ultrapassando um milhão de unidades ativas. O avanço ajuda a elevar retenção e engajamento da cliente, mas também amplia exposição financeira justamente num cenário de inadimplência mais elevada entre famílias de baixa e média renda.

A pressão apareceu diretamente no balanço financeiro da companhia:

  • resultado financeiro negativo de R$ 88,3 milhões;
  • dívida líquida de R$ 336,8 milhões;
  • alavancagem de 1,3 vez EBITDA;
  • caixa reduzido de R$ 48 milhões para R$ 10,6 milhões.

Mesmo com melhora operacional e avanço digital, o resultado da Marisa no 1T26 mostra que o varejo popular continua pressionado pela combinação entre juros altos, crédito mais caro e perda de capacidade de consumo. caixa.

Foto de Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista formado pela Faculdade Estácio e pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação em economia e negócios. Integra as equipes editoriais do Economic News Brasil e do J1, veículos que compõem o Sistema BNTI de Comunicação. Sua atuação é fundamentada em sólida experiência em jornalismo editorial e comunicação institucional.

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