Anúncio SST SESI

Trabalho em plataformas digitais ganha primeiro acordo global e amplia cobrança sobre aplicativos

A OIT aprovou o primeiro acordo internacional voltado aos trabalhadores de plataformas digitais. Veja por que a decisão pode influenciar futuras regulações e aumentar a pressão sobre aplicativos em diversos países.
Entregador de aplicativo participa de mobilização com motociclistas em área urbana.
OIT aprovou o primeiro acordo internacional voltado à proteção de trabalhadores de plataformas digitais.

O trabalho em plataformas digitais passou a contar com sua primeira referência internacional de proteção trabalhista após a Organização Internacional do Trabalho (OIT) aprovar, nesta sexta-feira (12/06) um acordo voltado a milhões de profissionais que atuam por meio de aplicativos e plataformas online.

A medida foi adotada durante a Conferência Internacional do Trabalho, em Genebra, e busca ampliar garantias para trabalhadores de setores como transporte e entrega. Segundo o Banco Mundial, até 435 milhões de pessoas atuavam em plataformas digitais em todo o mundo em 2023.

Embora não altere automaticamente a legislação dos países, a decisão cria uma base internacional que pode influenciar futuras regulações nacionais e ampliar a cobrança por regras mais claras para empresas da economia digital.

O movimento também sinaliza uma mudança no debate global sobre trabalho por aplicativo. A discussão deixa de se concentrar apenas no vínculo empregatício e passa a incluir a forma como plataformas administram, remuneram e supervisionam milhões de trabalhadores.

O que a OIT quer mudar na relação entre o trabalho, trabalhadores e as plataformas digitais

A nova norma da OIT foi criada para enfrentar uma característica comum das plataformas digitais: empresas que controlam a atividade por meio de algoritmos, mas frequentemente classificam os trabalhadores como autônomos. Na avaliação da organização, esse modelo deixou milhões de profissionais fora de garantias normalmente associadas ao mercado formal.

Por isso, o acordo orienta os países a criar mecanismos que assegurem direitos fundamentais aos trabalhadores de plataformas, incluindo:

  • Liberdade de associação,
  • Negociação coletiva e
  • E acesso a sistemas de proteção social.

A recomendação vale independentemente da classificação jurídica adotada por cada legislação nacional.

Ao estabelecer esse parâmetro, a OIT cria uma referência internacional para futuras regulações. O objetivo não é transformar automaticamente trabalhadores autônomos em empregados, mas impedir que a expansão das plataformas digitais ocorra sem garantias mínimas de proteção trabalhista.

Algoritmos ampliam debate sobre controle do trabalho

Um dos pontos centrais da discussão envolve a forma como as plataformas organizam suas operações.

Empresas de aplicativos utilizam algoritmos para distribuir tarefas, calcular pagamentos, avaliar desempenho e, em alguns casos, suspender ou encerrar o acesso de trabalhadores às plataformas.

Esse modelo permitiu a expansão rápida do setor, mas também gerou questionamentos sobre transparência e equilíbrio na relação entre empresas e profissionais.

Na avaliação de organizações que acompanharam as negociações, a crescente influência dos sistemas automatizados transformou os algoritmos em um dos principais temas regulatórios da economia digital.

A preocupação é que decisões capazes de afetar renda e permanência no trabalho sejam tomadas sem mecanismos claros de contestação ou supervisão.

Países divergem sobre o impacto das novas regras nas plataformas digitais de trabalho

A aprovação do acordo expôs uma divergência sobre os limites da regulamentação do trabalho em plataformas digitais. Durante as negociações, países como Índia e Estados Unidos defenderam uma aplicação mais flexível das diretrizes, argumentando que regras excessivamente rígidas podem elevar custos operacionais. Além disso, reduzir a capacidade de inovação e dificultar o crescimento de startups e pequenas empresas ligadas à economia digital.

O posicionamento mostra que o debate não gira apenas em torno dos direitos dos trabalhadores de aplicativo. Também envolve a sustentabilidade econômica de um setor que cresceu rapidamente graças à flexibilidade dos modelos de contratação em plataformas de entrega, como iFood, ou de transportes, como a Uber,

Enquanto sindicatos e organizações de defesa dos trabalhadores defendem proteções mais amplas, parte dos governos e das empresas teme que novas obrigações reduzam a oferta de oportunidades e desacelerem investimentos em plataformas digitais.

Direitos dos trabalhadores de aplicativo entram em nova etapa global

O principal efeito imediato do acordo é político e regulatório. A norma aprovada pela OIT cria uma referência internacional que poderá ser utilizada por governos, tribunais e legisladores ao discutir novas regras para plataformas digitais.

No entanto, isso não significa que todos os países adotarão as mesmas medidas nem que mudanças ocorrerão rapidamente. Cada Estado precisará decidir como incorporar as diretrizes ao próprio sistema jurídico, algo que, no Brasil, já entra na pauta há um bom tempo.

Ainda assim, a decisão estabelece um marco inédito para o setor. Pela primeira vez, os direitos dos trabalhadores de aplicativo passam a integrar uma agenda internacional formal, elevando a pressão para que a expansão da economia digital seja acompanhada por mecanismos mais amplos de proteção trabalhista.

Foto de Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista formado pela Faculdade Estácio e pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação em economia e negócios. Integra as equipes editoriais do Economic News Brasil e do J1, veículos que compõem o Sistema BNTI de Comunicação. Sua atuação é fundamentada em sólida experiência em jornalismo editorial e comunicação institucional.

Mais lidas

Últimas notícias

Entrar no canal Canal do Economic News Brasil no WhatsApp