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Crise do gado nos Estados Unidos derruba capacidade de frigoríficos e encarece a carne

A escassez de gado nos Estados Unidos atingiu o menor nível em 75 anos e já força JBS, Tyson e Cargill a fechar unidades e reduzir capacidade. Entenda como a falta de animais está elevando os preços da carne, pressionando frigoríficos e alterando o mercado global de proteínas.
Imagem de vacas e gados para ilustrar uma matéria sobre o gado nos Estados Unidos.
Crise do gado força frigoríficos a cortar operações nos EUA. (Imagem: Monika Kubala/Unsplash)

A escassez de gado nos Estados Unidos começou a provocar um movimento incomum na maior indústria de carne bovina do mundo. Grandes frigoríficos estão fechando unidades, reduzindo turnos de trabalho e retirando capacidade de processamento do mercado.

O fenômeno afeta empresas como JBS USA, Tyson Foods e Cargill e ocorre justamente em um momento de preços recordes da carne bovina. O cenário revela uma crise estrutural que atinge toda a cadeia produtiva, da fazenda ao consumidor.

O fechamento das plantas ocorre porque a alta da carne não foi suficiente para compensar a disparada do custo do gado. Com menos animais disponíveis para abate, os frigoríficos passaram a disputar matéria-prima em um mercado cada vez mais restrito, pressionando margens e reduzindo a rentabilidade do setor.

Escassez de gado nos Estados Unidos reduz a capacidade da indústria

Os ajustes ganharam força entre 2025 e 2026. A JBS USA encerrou as atividades de sua planta de carne bovina em Souderton, na Pensilvânia, com capacidade para processar cerca de 2 mil cabeças por dia. No mesmo período, também fechou uma unidade de produtos processados em Memphis, no Tennessee.

Antes disso, a companhia já havia encerrado as operações da Swift Beef Company, na Califórnia. A medida eliminou centenas de empregos e reduziu a capacidade de preparação e embalagem de carne destinada ao varejo.

A Tyson Foods anunciou o fechamento do frigorífico de Lexington, em Nebraska, capaz de processar aproximadamente 5 mil bovinos por dia, além da redução das operações da planta de Amarillo, no Texas. A Cargill também fechou uma unidade de processamento de carne moída em Wisconsin, reforçando o movimento de ajuste do setor.

Menor rebanho em 75 anos explica a crise dos frigoríficos

Os fechamentos refletem uma mudança histórica na pecuária americana. Dados do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) mostram que o rebanho total de bovinos e bezerros caiu para 86,2 milhões de cabeças no início de 2026, o menor nível registrado em 75 anos.

A situação é ainda mais crítica no segmento responsável pela reposição dos animais. O rebanho de vacas de corte recuou para 27,6 milhões de cabeças, o menor patamar desde o início dos anos 1950, enquanto o total de bezerros caiu para 32,9 milhões, menor volume desde 1941.

Entre os fatores que explicam a redução estão:

  • Anos consecutivos de seca em importantes regiões pecuárias
  • Custos elevados de alimentação animal
  • Liquidação de matrizes durante os períodos mais severos da crise climática
  • Recuperação lenta da capacidade produtiva do rebanho

O impacto já aparece na estrutura industrial. Somente os fechamentos das unidades da JBS em Souderton e da Tyson em Lexington retiraram aproximadamente 7 mil cabeças por dia da capacidade de processamento dos Estados Unidos. Considerando um abate diário entre 120 mil e 125 mil bovinos, a redução representa cerca de 5% a 6% da capacidade nacional.

Carne em preço recorde não impede perdas na cadeia bovina

O principal paradoxo da crise é que a carne bovina nunca esteve tão cara, mas isso não significa condições mais favoráveis para os frigoríficos. A escassez de animais elevou o custo da matéria-prima a níveis históricos.

Segundo projeções do USDA, o preço médio do fed steer, referência para bovinos terminados para abate, deverá atingir US$ 235,75 por 100 libras de peso vivo em 2026, estabelecendo um novo recorde para o mercado americano.

O custo de aquisição de um animal terminado passou de aproximadamente US$ 2.620 por cabeça em 2024 para cerca de US$ 3.300 em 2026, aumento superior a US$ 680 por animal em apenas dois anos. Como o gado representa entre 80% e 90% dos custos operacionais de um frigorífico bovino nos Estados Unidos, a pressão financeira tornou-se um dos principais desafios do setor.

A crise também chegou ao consumidor. A carne bovina fresca atingiu US$ 9,64 por libra-peso em abril de 2026, enquanto os bifes alcançaram US$ 12,80 por libra, um dos maiores níveis já registrados no país. A carne moída chegou a US$ 7,06 por libra-peso, acumulando valorização próxima de 58% desde 2020.

Além da escassez de animais, o setor passou a enfrentar uma nova preocupação sanitária. O avanço da mosca-varejeira-do-novo-mundo levou os Estados Unidos a suspender temporariamente a importação de bovinos, cavalos e bisões provenientes do México. Especialistas avaliam que uma eventual disseminação da praga poderia elevar ainda mais os custos de produção em uma cadeia que movimenta mais de US$ 100 bilhões por ano.

Para o mercado global, a crise da pecuária americana ocorre em um momento em que exportadores como Brasil e Austrália ampliam sua participação internacional. Enquanto os Estados Unidos enfrentam o menor rebanho em décadas, países com maior disponibilidade de animais tendem a ganhar espaço no abastecimento mundial de carne bovina.

Foto de Marconi Bernardino

Marconi Bernardino

Marconi Bernardino é jornalista formado pela Unifavip Wyden, em Caruaru (PE). Integra a equipe do Economic News Brasil, com atuação na produção de conteúdos analíticos sobre negócios, mercado financeiro e fortunas, além de experiência em jornalismo para televisão e rádio.

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