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Criação de emprego no setor público supera o privado, mas 81% das novas vagas são temporárias

O emprego no setor público criou mais vagas que o setor privado entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2026. O avanço foi impulsionado principalmente por contratos temporários, levantando dúvidas sobre a sustentabilidade desse crescimento.
Carteiras de trabalho sobre mesa durante atendimento em unidade de emprego, com trabalhadores aguardando em cadeiras ao fundo.
Contratações temporárias ajudaram o emprego no setor público a superar o setor privado na criação de vagas formais entre 2024 e 2026. (Foto: Agência Brasília)

O emprego no setor público criou mais vagas formais que o setor privado entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2026, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). No período, o saldo chegou a 1,091 milhão de novos vínculos públicos, contra 1,041 milhão no setor privado.

O resultado chama atenção porque o setor privado normalmente lidera a geração de empregos formais no país. Embora continue concentrando a maior parte dos trabalhadores, o ritmo recente de expansão foi maior na administração pública.

Ao todo, o Brasil registrou 2,17 milhões de novos empregos formais no período analisado, considerando todas as categorias abrangidas pela RAIS. O dado sugere um mercado de trabalho ainda aquecido, mas com uma composição diferente da observada nos últimos anos.

A principal explicação para a ultrapassagem está na forte expansão dos vínculos temporários dentro da administração pública.

Emprego no setor público foi impulsionado por contratos temporários

Dos 1,091 milhão de postos criados na administração pública, 886 mil correspondem a contratações por tempo determinado, segundo informações apresentadas pelo Ministério do Trabalho.

Na prática, isso significa que a maior parte do crescimento não veio de concursos ou admissões permanentes. O avanço ocorreu principalmente por vínculos com prazo de duração definido.

Segundo a subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho, Paula Montagner, esse modelo ganhou força após as mudanças nas regras trabalhistas ocorridas a partir de 2017, tornando mais comum a utilização de contratos temporários pelos entes públicos.

A característica ajuda a explicar por que o crescimento das vagas de emprego no setor público foi tão intenso em um intervalo relativamente curto.

Estados e municípios ajudam a explicar a disparada das vagas

O próprio Ministério do Trabalho reconhece que o período analisado pode ter ampliado esse efeito estatístico. De acordo com o coordenador-geral de Estudos e Estatísticas do Trabalho, Rafael Coletto Cardoso, parte relevante das admissões pode estar ligada ao calendário de contratação de estados e municípios.

Professores temporários representam um dos exemplos mais comuns do pico de empregos no setor público. Muitas redes de ensino realizam admissões no início do ano letivo e encerram os contratos ao final do período escolar. Esse comportamento cria picos de contratação que aparecem com força nos levantamentos mensais e anualizados.

A própria RAIS já vinha mostrando crescimento acelerado da administração pública nos últimos levantamentos. Em 2025, o segmento registrou expansão de 15,2% nos vínculos formais, com destaque para governos municipais e estaduais.

O que o resultado revela sobre o mercado de trabalho brasileiro

Apesar da ultrapassagem, o setor privado continua sendo o principal empregador do país.

Em fevereiro de 2026, o estoque de empregos privados alcançou 47,97 milhões de vínculos, enquanto o setor público somou 13,81 milhões. A diferença mostra que a liderança das vagas públicas ocorreu no fluxo de criação de empregos, não no tamanho total da força de trabalho.

O dado também revela uma característica importante da atual expansão do mercado de trabalho: parte relevante do crescimento recente dependeu de decisões de contratação dos governos.

O resultado da RAIS, portanto, mostra que o debate deixou de ser apenas quantas vagas de emprego no setor público foram criadas. A questão agora passa a ser qual a qualidade, duração e capacidade de permanência desses postos ao longo dos próximos anos.

Foto de Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista formado pela Faculdade Estácio e pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação em economia e negócios. Integra as equipes editoriais do Economic News Brasil e do J1, veículos que compõem o Sistema BNTI de Comunicação. Sua atuação é fundamentada em sólida experiência em jornalismo editorial e comunicação institucional.

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