O PIB da Argentina cresceu 2,3% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano passado, mantendo o ritmo de expansão da economia sob o governo de Javier Milei. O resultado reforça a recuperação iniciada após o ajuste fiscal implementado no fim de 2023, mas também evidencia um contraste crescente entre os indicadores econômicos e a realidade de parte da população.
Na comparação com os três meses anteriores, a economia avançou 0,7%, já descontados os efeitos sazonais, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec).
Enquanto exportações, mineração e energia sustentam a atividade, indicadores ligados ao mercado interno mostram fragilidade. Desemprego, informalidade e inadimplência avançaram, sinalizando que os ganhos da recuperação continuam concentrados em setores específicos.
A principal questão para a economia argentina deixou de ser apenas crescer. O desafio agora é transformar a expansão do PIB em geração de emprego, renda e fortalecimento da atividade doméstica.
PIB da Argentina avança com exportações, mineração e energia
Os setores que mais contribuíram para o crescimento econômico foram agropecuária, pesca, mineração e intermediação financeira.
O desempenho reflete uma mudança estrutural na economia do país. Nos últimos anos, a Argentina passou a atrair investimentos bilionários para projetos de mineração e hidrocarbonetos, impulsionados por incentivos tributários e aduaneiros criados para estimular exportações.
O ministro da Economia, Luis Caputo, atribuiu o resultado ao avanço das exportações e ao crescimento de 2,7% do consumo privado. O indicador permaneceu resiliente mesmo após o forte ajuste econômico promovido pelo governo.
A expansão desses setores fortalece a geração de divisas e ajuda a sustentar o crescimento econômico. Ao mesmo tempo, aumenta a dependência de atividades voltadas ao mercado externo, reduzindo o peso relativo de segmentos mais ligados ao consumo interno.
Indústria, comércio e emprego revelam uma economia em duas velocidades
Apesar da expansão do PIB, alguns dos setores mais relevantes para o mercado de trabalho continuam perdendo força.
A indústria de transformação recuou 1,7%, enquanto o comércio varejista caiu 0,3% no primeiro trimestre. São atividades que concentram grande parte dos empregos urbanos e dependem diretamente da demanda doméstica.
Os sinais de fragilidade aparecem em diversos indicadores:
- Desemprego de 7,8% no primeiro trimestre de 2026
- Informalidade de 44% em abril
- Inadimplência das famílias de 12,1%
- Alta expressiva frente aos 3,7% registrados um ano antes
Os setores que lideram o crescimento possuem perfil exportador e menor capacidade de absorção de mão de obra, enquanto os segmentos que mais empregam continuam enfrentando dificuldades.
O resultado é uma economia que cresce em ritmo razoável nos indicadores agregados, mas com efeitos menos perceptíveis para trabalhadores e empresas dependentes do mercado interno.
Recuperação econômica da Argentina ainda desafia consumo e renda
Economistas observam que parte do avanço do consumo privado não representa necessariamente uma melhora generalizada das condições econômicas.
A composição dos gastos mudou após os reajustes de preços relativos promovidos durante o processo de ajuste. Além disso, o indicador inclui compras de produtos importados e despesas realizadas por argentinos no exterior.
Além disso, o crescimento do consumo pode ocorrer sem que haja melhora proporcional do padrão de vida da população.
Essa desconexão ajuda a explicar por que a recuperação econômica convive com aumento da inadimplência e deterioração de parte do mercado de trabalho.
O cenário também merece atenção no Brasil. A Argentina continua sendo um dos principais destinos das exportações industriais brasileiras. Uma recuperação concentrada em mineração, energia e setores exportadores tende a gerar menos demanda por bens manufaturados do que um crescimento baseado na expansão da indústria e do consumo doméstico.
Desde o lançamento do programa de austeridade de Javier Milei, a Argentina conseguiu eliminar o déficit fiscal crônico e reduzir a inflação, que havia alcançado níveis de três dígitos. A economia cresceu 4,4% em 2025 e as projeções apontam expansão próxima de 3% em 2026.
O próximo teste da estratégia econômica será mostrar que o crescimento da Argentina pode ir além dos números do PIB e alcançar os setores responsáveis pela maior parte dos empregos, da renda e da atividade interna do país.





