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Cala a boca, se esforça e abaixa a cabeça – Por Samir Nicolau

*Coluna por Samir Nicolau, 07/04/2022

Essa semana foi amplamente divulgado o ocorrido na escola Avenues em São Paulo, onde após o aluno pedir a palavra e argumentar contra as críticas ao agronegócio e ao governo federal feitas pela ativista Sonia Guajajara convidada a participar de um evento sobre igualdade de gênero, foi repreendido por um professor da própria instituição de forma grosseira e arrogante, sem apresentar contra-argumentos, o docente censurou o aluno.

“Cala a boca, se esforça e abaixa a cabeça”.

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Não foram essas as palavras do rude docente, que na falta de argumentos concretos usou de seu currículo para validar sua repreensível atitude. Contudo, essas parecem ser as palavras da sociedade brasileira para o produtor rural. Não reclame, aceite o que queremos e ainda se empenhe para alcançar nossas expectativas.

No início da década de 1970 a baixa produtividade da agropecuária rudimentar realizada tornava o Brasil um importador de alimentos, ainda gerava quadro de insegurança alimentar que ameaçava o processo de urbanização e industrialização por que passava o país. O governo investe primariamente em pesquisa e extensão rural e imbui ao produtor rural a missão de alimentar as cidades. Não é a missão de apenas produzir, é produzir muito e muito barato, mesmo que para isso lucre pouco, não lucre, ou tenha prejuízos. Essa é a mentalidade construída para aquele que ficou no campo, classificado como cidadão de segunda classe que não serve de mão de obra para a indústria.

Essa ainda é a mentalidade de muitos do setor, o produtor rural é de sempre doutrinado a produzir mais, mais, mais e sempre a menor custo, raríssimo ouvir de um gestor rural sobre margem de lucro. A lógica é totalmente voltada para a maior produtividade, e não raro encontrarmos propriedades mais lucrativas com índices de produtividade mais medianos, por adotar práticas focadas no ponto de maior lucro, não produção. E o esforço do produtor foi enorme! Na agricultura, por exemplo, passamos de 50.871 milhões de toneladas de grãos produzidos em 40.158 milhões de hectares plantados em 1980 para 149.254 milhões de toneladas de grãos produzidos em 47.415 milhões de hectares plantados em 2010, a produtividade quase triplicou ao passar das três décadas.

Existe ainda, um “vexame coletivo” em lutar por suas próprias causas e até em defender-se, tomemos, por exemplo, leis ambientais, em alguns biomas o produtor deve preservar intactas 80% de sua propriedade, imaginem isso aplicado aos centros urbanos? Certamente nossas metrópoles teriam outro aspecto, Recife figurando em segundo lugar entre as capitais brasileiras cadastradas no ranking do Programa Nacional para Áreas Urbanas, Cidades + Verdes, do Ministério do Meio Ambiente, conta com 582 áreas verdes, que totalizam 578 hectares, ou 38% do território. Esse é apenas um dos muitos prismas onde ainda hoje a sociedade brasileira deita sobre os ombros do produtor rural uma carga maior que do urbano, e nada é dito tanto por medo da repercussão de uma eventual investida do agronegócio buscando equilibrar essas regulamentações tanto pela postura servil adotada.

Nos últimos anos ante a crise econômica fica mais evidente a cada balanço do PIB que o esforço do produtor rural foi frutífero, hoje o setor da economia brasileira mais persistente é o agronegócio. Até quando a será exigido do produtor rural que faça silêncio, como foi demandado ao aluno? Até quando será demandado ao agropecuarista que se esforce além dos objetivos econômicos da própria empresa? Até quando será postulado ao fazendeiro que carregue fardos mais pesados que de setores privilegiados, de primeira classe?

“Cala a boca, se esforça e abaixa a cabeça”.

Calei, me esforcei e aturei.

Edifiquei esse país.

Ainda sou um cidadão de segunda classe?

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do ENB.

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