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Terceira Crise Energética Global: A Crise se Repete – Por Beatriz Canamary

*Coluna por Beatriz Canamary, 28/09/22

Com os preços de gás natural e carvão atingindo recordes e os do petróleo bruto não muito abaixo do pico de 2008, o mundo parece estar mais dependente do que nunca no carbono.

Para muitos, os planos para a transição de energia limpa estão cada vez mais distantes.

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No meio desta terceira crise energética global, o legado das duas primeiras – provocadas pela guerra árabe-israelense de 1973 e pela Revolução Iraniana de 1979 – deve ser relembrado.

Embora líderes do Oriente Médio defendam a tese de que o mundo emergiu da primeira crise do petróleo mais dependente dos hidrocarbonetos do que antes, dados evidenciam que tal narrativa é controversa. Essas crises geopolíticas dos anos 1900 certamente não resultaram no fim do petróleo, mas deram um golpe nunca recuperado.

Nos EUA, foram necessárias duas décadas para que o consumo de petróleo voltasse aos níveis de 18,5 milhões de barris diários atingidos em 1978, às vésperas da segunda crise do petróleo. Os países da União Europeia nunca voltaram aos seus níveis de demanda de 16,9 milhões de barris diários de 1979, apesar de uma economia quase três vezes maior que naquela época.

O petróleo, em 1973, compunha cerca de metade do consumo de energia primária do mundo. Agora somente 31%. A mudança, principalmente em relação aos membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), foi abrupta: entre 1973 e 1985, a participação da energia mundial derivada do petróleo da OPEP caiu de 25% para 11%. Nunca subiu substancialmente acima desses níveis.

Com medo de ter suas economias reféns de um grupo de monarquias absolutistas, os grandes consumidores de petróleo iniciaram uma transição energética distanciando-se dessa fonte de energia, o que parece ter sido bem-sucedida.

No Reino Unido, a economia iniciou a corrida pelo carvão à medida que novas usinas de energia eram construídas, minas de carvão reestruturadas e reservas abertas. No Mar do Norte, plataformas de petróleo offshore surgiram para aproveitar as próprias reservas de petróleo da Europa. Um aumento na demanda de combustíveis fosseis nos Estados Unidos causou um boom em suas reservas de carvão, que desde a década de 1980 fornece mais de 40% do carvão consumido pelo país.

A França anunciou planos para mudar toda a sua frota de geração para energia nuclear e tentou vender a tecnologia ao Irã e ao Iraque para garantir o fornecimento de petróleo. Em todo o mundo, a geração nuclear quintuplicou entre 1973 e 1983, antes de dobrar novamente em 1990.

No Brasil, o governo introduziu combustível rodoviário à base de etanol e construiu as barragens de Itaipu e Tucuruí, até hoje algumas das maiores do mundo.

A explicação para essa mudança está em uma das mais antigas lições dos mercados de commodities — a substituição.

Sempre que um produto se torna muito caro ou não confiável, os consumidores mudam para algo que atenda melhor às suas necessidades. A vantagem do petróleo em 1972 era seu baixo preço e pronta disponibilidade. Em 1980, era cerca de oito vezes mais caro e muito menos confiável.

Os eventos recentes expõem uma dramática desaprendizagem dessa lição. Com a decisão do presidente Vladimir Putin de usar o gás como arma após a invasão da Ucrânia pela Rússia, é o gás que será o maior perdedor.

O consumo cairá este ano em cerca de 20 bilhões de metros cúbicos, segundo dados recentes da Agência Internacional de Energia (EIA, sigla em inglês), e o crescimento do consumo de médio prazo, previsto em 1,6% em 2019 e 1,4% no ano passado, será de apenas 0,8% até 2025, segundo a EIA.

O ciclo se repete: Os preços recordes de gás natural hoje e as interrupções no fornecimento estão prejudicando a segurança do gás natural como fonte de energia confiável e acessível.

O Petróleo e Gás do Golfo Pérsico

Entretanto, nesse momento, é a região do Golfo Pérsico que se encontra em sua plenitude energética. Com cerca de US$ 3,5 trilhões de bonança nos próximos 5 anos, graças à cortesia dada por Putin, ela poderá tornar-se coadjuvante para a geopolítica mundial, não apenas devido à reengenharia dos fluxos globais de energia em resposta às sanções ocidentais e às mudanças climáticas, mas também, devido à reconstrução de alianças geopolíticas na região do Oriente Médio.

Em resposta à expansão da influência do Irã ao norte na última década, a maioria dos estados do Golfo, Egito, Israel e outros se aproximaram. Isso se reflete no Abraham Accords (Acordos de Abraham) assinados por Israel e dois estados árabes em 2020, mediados pelos Estados Unidos, que buscam estabelecer relações diplomáticas na região.

Enquanto isso, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos estão aumentando seus investimentos de capital em petróleo com o objetivo de longo prazo de serem os sobreviventes no setor; enquanto Qatar expande seus projetos de produção de gás natural liquefeito (GNL) para uma produção anual equivalente a 33% de todo o GNL comercializado no mundo em 2021.

Uma resultante provável é que o Golfo Pérsico permanecerá importante nos assuntos mundiais nos próximos anos. Em petróleo e gás, sua participação nas importações da Europa pode aumentar de menos de 10% hoje para mais de 20%. Mas embora um novo Golfo possa estar surgindo, sua volatilidade política não pode ser ignorada.

O Carvão

É tentador ver toda essa crise dos hidrocarbonetos como uma simples vitória para o clima e a transição energética – mas em uma época em que a geopolítica está dominando a conversa sobre energia, é o combustível fóssil mais sujo que está contrariando a tendência. Embora seja improvável que o consumo de carvão retorne aos níveis de demanda de pico de 2013, o consumo está superando as previsões anteriores, pois o alto preço do gás natural faz com que as concessionárias na Ásia e na Europa adiem os planos de abandonar o combustível fóssilno curto prazo.

Diferente de petróleo e gás, reservas de carvão são encontradas em uma diversidade de países com China, Índia e Indonésia respondendo por mais de dois terços da produção global. Com a crise energética em alta, há risco de o desligamento necessário das fontes geradoras de energia à carvão no mundo seja adiado.

Energias renováveis

Mesmo assim, as forças de substituição favorecem as energias renováveis, que agora são mais baratas em quase todas asregiões. Três quartos da nova capacidade de geração de energia da Índia instalada em 2021 era renovável; até agosto deste ano, o número equivalente foi de 93%. A geração a carvão na China cairá 1% este ano, o primeiro declínio desde 2015, segundo a EIA.

Em todos os lugares, as energias renováveis ​​e, em menor grau, as nucleares, representam a maior parte da nova demanda. As emissões do setor de energia cairão 5% nas Américas e 8% na Europa no próximo ano, à medida que a breve queda na demanda do carvão diminuir. O REPowerEU – Plano estabelecido pela União Europeia em maio desse ano, para reduzir a dependência do gás russo em frente às perturbações no mercado de energia global, provocadas pela invasão da Ucrânia pela Rússia quadruplicará a capacidade solar na União Europeia. No Mar do Norte, cujas plataformas de petróleo ajudaram a reverter o impacto das crises energéticas da década de 1970, os governos europeus se comprometeram em maio a construir 65 gigawatts de energia eólica offshore até 2030 – o equivalente a cerca de 1,5 vez a capacidade offshore global no ano passado.

A Lei de Redução da Inflação dos EUA (US Inflation ReductionAct), anunciada em julho desse ano, planeja reduzir as emissões do país em 40% abaixo dos níveis de 2005 até o final da década. A indústria de painéis solares, por exemplo, já está construindo uma cadeia de suprimentos que seria suficiente para colocar esse setor no caminho certo para zero emissões de carbono.

As tentativas de provar a dependência mundial dos combustíveis fósseis apenas aceleraram nosso distanciamento deles. A transição energética está cada vez ganhando mais força. E o Brasil está claramente bem posicionado nesse contexto global,com todos os seus investimentos e projetos em geração de energia através de fontes renováveis para curto, médio e longo prazos.

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