Vendas no varejo iniciaram 2026 contrariando previsões e avançaram 0,4% em janeiro, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O dado supera a expectativa de economistas que projetavam retração mensal de 0,1%. Na comparação anual, o volume comercial cresceu 2,8%, acima da estimativa de 1,65%.
O resultado chama atenção porque surge em um ambiente de juros elevados, com a taxa Selic em 15%, e após sinais de perda de ritmo da economia brasileira no fim de 2025. Ainda assim, o desempenho levou o nível de atividade do comércio ao topo recente da série histórica. Segundo o IBGE, janeiro igualou, em volume, o patamar observado em novembro do ano passado. Ainda assim, o dado esconde mudanças importantes na composição do consumo.
Vendas no varejo avançam com apoio de consumo cotidiano
Entre os segmentos pesquisados, quatro registraram expansão mensal. O maior avanço veio de artigos farmacêuticos e perfumaria, que cresceram 2,6%. Em seguida aparecem tecidos, vestuário e calçados, com alta de 1,8%, e outros artigos de uso pessoal, com aumento de 1,3%. Já hipermercados e supermercados, ligados ao consumo básico das famílias, avançaram 0,4%.
A variação mensal é moderada, porém suficiente para renovar um patamar elevado da série. Contudo, ao observar os setores em queda, surge um contraste relevante na dinâmica do consumo.
Eletrônicos recuam e refletem sensibilidade ao dólar
Nem todos os segmentos acompanharam o crescimento do comércio. O setor de equipamentos de informática e comunicação registrou queda de 9,3%, a maior retração entre as atividades pesquisadas. Também recuaram livros e papelaria (-1,8%) e combustíveis e lubrificantes (-1,3%). Já móveis e eletrodomésticos permaneceram praticamente estáveis.
O segmento de eletrônicos costuma reagir com maior intensidade às oscilações cambiais. Empresas do setor, explicou ele, tendem a recompor estoques quando o real se fortalece e a adiar promoções até que as condições comerciais se tornem mais favoráveis. Esse comportamento também reflete o efeito de vendas fortes durante Black Friday e Natal, períodos que concentram grande parte da demanda por tecnologia.
Varejo ampliado mostra expansão mais ampla do comércio
Quando o recorte inclui atividades adicionais, o desempenho do comércio se amplia. No chamado varejo ampliado, que incorpora veículos, material de construção e atacado de alimentos, houve crescimento de 0,9% em janeiro frente a dezembro. Na comparação com o mesmo mês do ano anterior, a alta foi de 1,1%.
Esse indicador costuma ser acompanhado com atenção por analistas porque captura setores mais sensíveis ao crédito, à renda das famílias e à confiança do consumidor. Mesmo com custos elevados de financiamento, o dado sugere que parte da demanda doméstica permanece ativa.
A leitura do indicador ganha peso em um momento de transição da política monetária. O Banco Central volta a se reunir na próxima semana para decidir sobre a taxa básica de juros, atualmente em 15%.
No pano de fundo, porém, novas variáveis entram no radar da economia global, como a guerra no Oriente Médio e a pressão sobre preços de energia.
Consumo resiste e desafia diagnóstico sobre a economia
O avanço das vendas no varejo aparece em contraste com o desempenho recente do Produto Interno Bruto (PIB). A economia brasileira cresceu apenas 0,1% no quarto trimestre e encerrou 2025 com expansão de 2,3%. Em tese, juros altos tenderiam a esfriar o consumo.
Ainda assim, o resultado de janeiro indica que o consumo das famílias, sustentado por emprego, renda e serviços, continua operando como um dos principais pilares da atividade econômica. A persistência dessa demanda ajuda a explicar por que a política monetária permanece cautelosa: enquanto o consumo seguir ativo, o debate sobre a velocidade dos cortes de juros continuará no centro das decisões econômicas.





