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Vendas no varejo surpreendem projeções e expõem tensão na economia

As vendas no varejo do Brasil avançaram 0,4% em janeiro e superaram projeções do mercado, segundo o IBGE. O resultado surge mesmo com Selic a 15% e economia desacelerando, indicando que o consumo das famílias segue sustentando parte da atividade econômica.
Vendas no varejo no Brasil registram alta em janeiro segundo o IBGE
Comércio brasileiro inicia 2026 com avanço das vendas no varejo, contrariando previsões do mercado. Imagem: Canva

Vendas no varejo iniciaram 2026 contrariando previsões e avançaram 0,4% em janeiro, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O dado supera a expectativa de economistas que projetavam retração mensal de 0,1%. Na comparação anual, o volume comercial cresceu 2,8%, acima da estimativa de 1,65%.

O resultado chama atenção porque surge em um ambiente de juros elevados, com a taxa Selic em 15%, e após sinais de perda de ritmo da economia brasileira no fim de 2025. Ainda assim, o desempenho levou o nível de atividade do comércio ao topo recente da série histórica. Segundo o IBGE, janeiro igualou, em volume, o patamar observado em novembro do ano passado. Ainda assim, o dado esconde mudanças importantes na composição do consumo.

Vendas no varejo avançam com apoio de consumo cotidiano

Entre os segmentos pesquisados, quatro registraram expansão mensal. O maior avanço veio de artigos farmacêuticos e perfumaria, que cresceram 2,6%. Em seguida aparecem tecidos, vestuário e calçados, com alta de 1,8%, e outros artigos de uso pessoal, com aumento de 1,3%. Já hipermercados e supermercados, ligados ao consumo básico das famílias, avançaram 0,4%.

A variação mensal é moderada, porém suficiente para renovar um patamar elevado da série. Contudo, ao observar os setores em queda, surge um contraste relevante na dinâmica do consumo.

Eletrônicos recuam e refletem sensibilidade ao dólar

Nem todos os segmentos acompanharam o crescimento do comércio. O setor de equipamentos de informática e comunicação registrou queda de 9,3%, a maior retração entre as atividades pesquisadas. Também recuaram livros e papelaria (-1,8%) e combustíveis e lubrificantes (-1,3%). Já móveis e eletrodomésticos permaneceram praticamente estáveis.

O segmento de eletrônicos costuma reagir com maior intensidade às oscilações cambiais. Empresas do setor, explicou ele, tendem a recompor estoques quando o real se fortalece e a adiar promoções até que as condições comerciais se tornem mais favoráveis. Esse comportamento também reflete o efeito de vendas fortes durante Black Friday e Natal, períodos que concentram grande parte da demanda por tecnologia.

Varejo ampliado mostra expansão mais ampla do comércio

Quando o recorte inclui atividades adicionais, o desempenho do comércio se amplia. No chamado varejo ampliado, que incorpora veículos, material de construção e atacado de alimentos, houve crescimento de 0,9% em janeiro frente a dezembro. Na comparação com o mesmo mês do ano anterior, a alta foi de 1,1%.

Esse indicador costuma ser acompanhado com atenção por analistas porque captura setores mais sensíveis ao crédito, à renda das famílias e à confiança do consumidor. Mesmo com custos elevados de financiamento, o dado sugere que parte da demanda doméstica permanece ativa.

A leitura do indicador ganha peso em um momento de transição da política monetária. O Banco Central volta a se reunir na próxima semana para decidir sobre a taxa básica de juros, atualmente em 15%.

No pano de fundo, porém, novas variáveis entram no radar da economia global, como a guerra no Oriente Médio e a pressão sobre preços de energia.

Consumo resiste e desafia diagnóstico sobre a economia

O avanço das vendas no varejo aparece em contraste com o desempenho recente do Produto Interno Bruto (PIB). A economia brasileira cresceu apenas 0,1% no quarto trimestre e encerrou 2025 com expansão de 2,3%. Em tese, juros altos tenderiam a esfriar o consumo.

Ainda assim, o resultado de janeiro indica que o consumo das famílias, sustentado por emprego, renda e serviços, continua operando como um dos principais pilares da atividade econômica. A persistência dessa demanda ajuda a explicar por que a política monetária permanece cautelosa: enquanto o consumo seguir ativo, o debate sobre a velocidade dos cortes de juros continuará no centro das decisões econômicas.

Foto de Flávia Lifonsino

Flávia Lifonsino

Flávia Lifonsino é jornalista formada pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Integra a equipe do Economic News Brasil, com atuação na produção jornalística e em conteúdos analíticos sobre negócios, investimentos e tecnologia aplicada às empresas, além de experiência em coberturas digitais e projetos editoriais.

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