Queda da Selic começa, mas guerra pode frear alívio na economia

O Banco Central iniciou a queda da Selic para 14,75%, mas o cenário global, marcado por guerra e alta do petróleo, limita o ritmo de cortes. O impacto no crédito e no consumo tende a ser gradual, mantendo cautela na economia nos próximos meses.
Moedas empilhadas ao lado de calculadora com gráfico de queda ao fundo representando redução de juros no Brasil
Queda da Selic marca início de ciclo de redução de juros em meio a incertezas globais. (Imagem: ENB)

O Banco Central iniciou nesta quarta-feira (18/03) um novo ciclo de flexibilização monetária ao anunciar a queda da Selic para 14,75% ao ano, após seis reuniões consecutivas mantendo a taxa em patamar elevado. A decisão foi unânime e já era esperada pelo mercado, diante dos sinais de desaceleração da economia brasileira.

Apesar do corte, o movimento ocorre em um ambiente de incerteza crescente no cenário internacional. O avanço de conflitos no Oriente Médio tem pressionado os preços do petróleo e elevado a volatilidade global, o que pode limitar o ritmo de redução dos juros no Brasil e retardar o impacto positivo para consumidores e empresas.

Por que a queda da Selic começou agora

A decisão do Copom reflete uma combinação de fatores domésticos. A atividade econômica dá sinais mais claros de desaceleração, enquanto a inflação, embora ainda acima da meta, começou a perder força nos últimos meses.

Esse cenário abriu espaço para o Banco Central iniciar um ajuste gradual na política monetária, após um longo período de juros elevados. Desde junho de 2025, a Selic estava em 15% ao ano, nível considerado altamente contracionista.

Ao mesmo tempo, o BC indicou que o corte não representa uma mudança abrupta de postura. A estratégia segue sendo de cautela, com ajustes graduais e dependentes dos dados econômicos.

Na véspera da decisão, o Banco Pine já indicava esse movimento. Em relatório, o economista-chefe Cristiano Oliveira avaliou que o Copom deveria iniciar o ciclo de flexibilização mesmo diante da escalada do petróleo.

“O avanço recente da commodity pode caracterizar um novo choque de energia, mas ainda não impede o início da queda da Selic”, afirmou oliveira ao Economic News Brasil.

Guerra e petróleo: o fator que pode travar os cortes

O principal risco para a continuidade da queda da Selic está fora do Brasil. O acirramento de tensões no Oriente Médio tem impactado diretamente os preços das commodities, especialmente o petróleo.

Esse movimento tem efeitos em cadeia:

  • encarece combustíveis
  • pressiona custos de transporte
  • eleva preços de alimentos e serviços
  • dificulta o controle da inflação

Na prática, isso reduz o espaço para cortes mais agressivos de juros. Mesmo com a economia desacelerando, um choque externo pode obrigar o Banco Central a manter uma postura mais conservadora.

Além disso, o cenário global mais incerto tende a pressionar o câmbio, o que também alimenta a inflação no Brasil.

O que muda — e o que não muda — para o consumidor

Embora a queda da Selic seja um sinal positivo, os efeitos no dia a dia não são imediatos.

No curto prazo:

  • crédito continua caro
  • financiamentos ainda têm juros elevados
  • impacto no consumo é limitado

Isso acontece porque o sistema financeiro demora a repassar a queda da taxa básica para o consumidor final.

Por outro lado, o início do ciclo é relevante porque:

  • sinaliza tendência de redução gradual dos juros
  • melhora expectativas econômicas
  • pode estimular investimentos ao longo do tempo

Ou seja, o movimento é mais importante como sinal de direção do que como mudança imediata no bolso.

“O início da queda da Selic é um movimento importante, mas ainda insuficiente para alterar de forma relevante o custo do crédito no curto prazo. O cenário externo, especialmente com a pressão do petróleo e a instabilidade geopolítica, exige cautela na leitura desse ciclo”, disse Geldo Machado, presidente do Sinfac (CE.PI.MA.RN)

Inflação ainda acima da meta mantém pressão

Outro fator que limita a queda da Selic é o comportamento da inflação. As projeções seguem acima da meta:

  • 2026: 4,1%
  • 2027: 3,8%

Mesmo no horizonte mais longo considerado pelo Banco Central, a inflação ainda aparece próxima do limite da meta.

Além disso, há riscos relevantes:

Pressões de alta

  • inflação de serviços resistente
  • câmbio depreciado
  • desancoragem das expectativas

Pressões de baixa

  • desaceleração mais forte da economia
  • queda global das commodities

Esse equilíbrio instável reforça a necessidade de cautela na condução da política monetária.

O que esperar da Selic nos próximos meses

Em nota, o Banco Central deixou claro que o ciclo de queda da Selic será conduzido com flexibilidade. Ou seja, novos cortes dependem da evolução de fatores como:

  • inflação
  • atividade econômica
  • cenário internacional
  • preços de commodities

Na prática, isso significa que:

  • o ritmo de cortes pode ser lento
  • decisões podem mudar rapidamente
  • o cenário externo será determinante

Análise: início do ciclo não significa alívio imediato

O início da queda da Selic representa uma inflexão importante na política monetária brasileira, mas não deve ser interpretado como uma mudança rápida no ambiente econômico.

Diferentemente de ciclos anteriores, o atual começa sob forte influência externa. A combinação de guerra, petróleo elevado e incerteza global cria um ambiente mais restritivo, mesmo com a economia doméstica desacelerando.

Isso torna o ciclo de juros mais sensível e potencialmente mais lento.

Na prática, o Brasil entra em uma fase em que:

  • os juros começam a cair
  • mas o cenário global define o ritmo
  • e o alívio para a economia pode demorar mais do que o esperado

Esse descompasso entre expectativa e realidade na queda da Selic tende a marcar os próximos meses — e será decisivo para o comportamento do crédito, do consumo e da inflação no país.

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Jackson Pereira Jr

Jackson Pereira Jr. é jornalista e empreendedor, fundador do Sistema BNTI de Comunicação e dos portais Economic News Brasil, Boa Notícia Brasil e J1 News Brasil.

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