Cade investiga 99Food e Keeta intensifica guerra no delivery

A Keeta acionou o Cade com pedido urgente contra práticas da 99Food após abertura de inquérito. A disputa expõe a guerra entre gigantes chinesas pelo mercado de delivery no Brasil e pode mudar regras de concorrência no setor.
Imagem de pedidos da Keeta para ilustrar uma matéria jornalística sobre o pedido de investigação da Keeta ao Cade.
Resumo de 70 caracteres Keeta pressiona Cade e amplia disputa com 99Food no delivery. (WenlAA LUwuasmn HOO26/Wikimedia Commons)

A disputa entre gigantes chinesas pelo mercado de delivery no Brasil ganhou um novo capítulo nesta semana. A Keeta, subsidiária da Meituan, pediu ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) uma análise urgente contra práticas da 99Food, após o órgão abrir inquérito sobre possíveis cláusulas anticoncorrenciais. O movimento intensifica a briga por espaço em um dos setores mais disputados da economia digital e pode alterar o equilíbrio entre as plataformas.

A ofensiva da companhia ocorre em um momento estratégico: a empresa chegou ao Brasil há cerca de cinco meses e tenta acelerar sua entrada em um mercado dominado por poucos players. Ao acionar o Cade, a Keeta busca remover barreiras que, segundo ela, limitam sua expansão e dificultam a adesão de restaurantes à sua plataforma.

Cade analisa avanço da Keeta no mercado brasileiro de delivery

Na prática, o recurso apresentado ao tribunal do Cade pede a adoção de uma medida preventiva contra cláusulas impostas pela 99Food que, segundo a denúncia, impediriam restaurantes de operar simultaneamente com concorrentes como a própria Keeta e a Rappi. A análise ainda está em curso, mas o pedido de urgência mostra que a disputa deixou o campo comercial e entrou de vez na arena regulatória.

Essa movimentação revela um conflito maior: a disputa entre dois grupos chineses globais — Meituan e DiDi — pelo controle de mercados fora da Ásia. O Brasil, pela escala e pelo crescimento do delivery, se tornou um território estratégico nessa expansão.

Cade vira campo de batalha na disputa global

O Cade passa a ocupar papel central nessa disputa ao avaliar se as práticas adotadas no mercado brasileiro ferem a livre concorrência. A Superintendência-Geral do órgão já abriu inquérito e iniciou a coleta de dados, incluindo contratos, volume de operações e presença geográfica das plataformas.

O envio de questionários a empresas como Keeta, 99Food, Rappi e iFood indica que o órgão pretende mapear toda a estrutura competitiva do setor. As companhias têm até 27 de abril para responder, sob risco de multa diária.

Esse tipo de investigação costuma influenciar diretamente o funcionamento do mercado. Caso o Cade entenda que há abuso de posição dominante, pode impor restrições às práticas comerciais, o que abriria espaço para novos entrantes e mudaria a dinâmica de competição.

Entrada da Keeta acelera disputa por mercado

A chegada da Keeta ao Brasil não foi discreta. Controlada pela Meituan — uma das maiores plataformas de serviços da China, a empresa entrou no país com plano de investimentos bilionário e estratégia agressiva para conquistar restaurantes e consumidores.

Ao recorrer ao Cade, a Keeta sinaliza que pretende disputar espaço não apenas com preço e operação, mas também com apoio regulatório. Isso amplia a pressão sobre concorrentes estabelecidos, especialmente a 99Food, que integra o ecossistema da DiDi no país.

A leitura de mercado é clara: em um setor onde escala e rede de parceiros são decisivos, impedir a exclusividade pode acelerar o crescimento de novas plataformas. Por outro lado, manter contratos restritivos pode preservar a base de usuários das líderes.

O que está em jogo no mercado de delivery

O desfecho do caso pode ter efeitos que vão além da disputa entre duas empresas. O mercado de delivery envolve milhões de pedidos, milhares de restaurantes e uma cadeia de renda que inclui entregadores e pequenos negócios.

Se o Cade limitar práticas de exclusividade, restaurantes poderão operar em mais plataformas ao mesmo tempo, ampliando alcance e potencial de receita. Para as empresas, isso tende a aumentar a competição por taxas, logística e experiência do usuário.

Por outro lado, uma eventual validação das práticas atuais pode consolidar modelos mais fechados, favorecendo empresas já estabelecidas e dificultando a entrada de novos concorrentes.

A 99Food, por sua vez, afirma que colabora com as investigações e sustenta que suas práticas estão em conformidade com as regras do setor. O posicionamento indica que a disputa deve seguir também no campo jurídico, prolongando a definição do caso.

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Marconi Bernardino

Marconi Bernardino é jornalista formado pela Unifavip Wyden, em Caruaru (PE). Integra a equipe do Economic News Brasil, com atuação na produção de conteúdos analíticos sobre negócios, mercado financeiro e fortunas, além de experiência em jornalismo para televisão e rádio.

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