Ceará, Botafogo e Atlético expõem crise das sociedades anônimas bilionárias no futebol brasileiro

O avanço das SAFs no futebol brasileiro não reduziu o endividamento dos clubes. Atlético-MG, Botafogo e Cruzeiro ampliaram dívidas bilionárias em 2025, enquanto o Ceará liderou a alta percentual no país.
Camisa do Atlético-MG durante partida, clube que lidera entre as SAFs mais endividadas do futebol brasileiro em 2025.
Atlético-MG acumula dívida de R$ 2,2 bilhões e aparece entre as SAFs mais endividadas do futebol brasileiro (Foto: Reprodução/Pedro Souza/Atlético)

O modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF) foi criado em 2021 para transformar clubes em empresas, atrair investidores privados e reduzir crises financeiras históricas do futebol brasileiro. Porém, as SAFs endividadas no Brasil ampliaram a pressão financeira sobre o futebol nacional mesmo após a entrada desses investidores privados e a promessa de gestão profissional

Criada pela Lei 14.193, a Sociedade Anônima do Futebol permitiu que clubes deixassem o modelo associativo tradicional com possibilidade de, além de captar investimentos, emitir títulos e reorganizar passivos fiscais.

Quatro anos depois, porém, os balanços mostram um efeito diferente em parte relevante do mercado. Times como Ceará Esporte Clube, Atlético-MG, Botafogo e Cruzeiro ampliaram suas dívidas mesmo após a transformação em SAF, enquanto clubes tradicionais seguem recorrendo a parcelamentos tributários, empréstimos e receitas futuras para equilibrar contas.

SAFs acumulam dívidas bilionárias no Brasil mesmo com investidores

Levantamento da Sports Value mostrou que os clubes brasileiros passarão a dever R$ 16 bilhões em 2025, alta de 16% sobre o ano anterior. Entre os cinco maiores passivos do Brasil, as entidades mais endividadas, três pertencem a SAFs.

A situação mais crítica aparece no Atlético-MG SAF. O clube acumulou dívida de R$ 2,2 bilhões, mesmo após a transformação empresarial e a entrada de investidores privados.

O Botafogo também ampliou a pressão financeira. O balanço oficial da SAF divulgado pelo clube aponta dívida próxima de R$ 2 bilhões em 2025, apesar do faturamento recorde de R$ 1,4 bilhão.

Os números revelam uma contradição crescente no modelo:

  • receitas sobem rapidamente
  • gastos operacionais avançam ainda mais
  • clubes recorrem a empréstimos e antecipações
  • vendas de atletas viram sustentação permanente de caixa

O Cruzeiro, por exemplo, fechou 2025 com dívida superior a R$ 1,1 bilhão. Enquanto isso, o Botafogo teve aumento de 81% em seu passivo em apenas um ano.

Ceará amplia alerta sobre sustentabilidade financeira

Embora ainda não opere como SAF, o Ceará virou símbolo de deterioração financeira dos clubes médios fora da elite nacional do Brasil.

O clube registrou o maior crescimento percentual de dívida do país em 2025. O passivo saltou 206%, saindo de R$ 56 milhões para R$ 174 milhões após o rebaixamento à Série B.

A diretoria afirma que a maior parte do endividamento é tributária e está parcelada a longo prazo. Também projeta entrada de R$ 36 milhões em receitas futuras, principalmente com negociações de atletas.

O problema é que o caso do Ceará expõe uma dinâmica hoje disseminada no futebol brasileiro, especialmente entre as SAFs endividadas no Brasil :

  • queda de divisão reduz receitas imediatamente
  • folha salarial demora a cair
  • clubes recorrem a parcelamentos fiscais
  • vendas futuras passam a sustentar despesas correntes

Outro time nordestino, o Fortaleza, que também adotou estrutura SAF sem vender controle a investidores externos, foi mais um que viu a dívida crescer nos últimos anos, em 94%, chegando a R$ 223 milhões.

O cenário amplia dúvidas sobre a capacidade do futebol brasileiro de equilibrar competitividade esportiva e solvência financeira. Cenário completamente oposto ao do futebol europeu, que concentra praticamente todos os times mais valiosos do mundo.

Modelo SAF ampliou capacidade de investimento e risco

As SAFs que hoje estão endividadas no Brasil ganharam acesso mais amplo a crédito, investidores privados e operações financeiras sofisticadas após a transformação dos clubes em empresas. O modelo aumentou a capacidade de investimento imediato no futebol, mas também elevou a exposição financeira das equipes.

Hoje, parte relevante das SAFs brasileiras opera sustentada por:

  • antecipação de receitas futuras
  • premiações esportivas
  • venda de jogadores
  • empréstimos bancários
  • aportes extraordinários de investidores

Quando os resultados esportivos não acontecem, a pressão sobre o caixa cresce rapidamente. O Botafogo virou um dos principais exemplos desse ciclo. Mesmo após receitas recordes com premiações e transferências, a SAF registrou aumento acelerado da dívida e prejuízo operacional.

Os balanços recentes também trouxeram ressalvas de auditoria sobre as demonstrações financeiras do clube, ampliando o debate sobre a sustentabilidade das SAFs endividadas e a dependência crescente de capital externo para manter competitividade esportiva no Brasil.

Fair Play Financeiro chega sob pressão no futebol brasileiro

O avanço das SAFs endividadas no Brasil ocorre justamente quando o futebol nacional discute regras de Fair Play Financeiro.

A proposta busca limitar gastos acima da capacidade financeira dos clubes, aproximando o modelo brasileiro de ligas europeias.

O desafio é que grande parte dos clubes já opera pressionada por:

  • dívidas fiscais
  • parcelamentos tributários
  • folha salarial elevada
  • dependência de mercado de atletas

Isso reduz a margem de adaptação às futuras regras.

A própria diretoria do Ceará afirmou que a reorganização tributária coloca o clube em posição de segurança para as novas normas previstas para 2026.

O problema é que os balanços recentes mostram uma indústria cada vez mais dependente de capital externo, empréstimos e receitas extraordinárias para sustentar competitividade.

Enquanto isso, apenas poucos clubes conseguiram reduzir passivos de forma consistente em 2025. O Bahia, por exemplo, diminuiu sua dívida em 80%. Já Flamengo, São Paulo e Vasco também registraram queda no endividamento.

O contraste revela que a crise financeira do futebol brasileiro não desapareceu com a SAF. Em vários casos, ela apenas mudou de escala.

Foto de Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista formado pela Faculdade Estácio e pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação em economia e negócios. Integra as equipes editoriais do Economic News Brasil e do J1, veículos que compõem o Sistema BNTI de Comunicação. Sua atuação é fundamentada em sólida experiência em jornalismo editorial e comunicação institucional.

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