O modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF) foi criado em 2021 para transformar clubes em empresas, atrair investidores privados e reduzir crises financeiras históricas do futebol brasileiro. Porém, as SAFs endividadas no Brasil ampliaram a pressão financeira sobre o futebol nacional mesmo após a entrada desses investidores privados e a promessa de gestão profissional
Criada pela Lei 14.193, a Sociedade Anônima do Futebol permitiu que clubes deixassem o modelo associativo tradicional com possibilidade de, além de captar investimentos, emitir títulos e reorganizar passivos fiscais.
Quatro anos depois, porém, os balanços mostram um efeito diferente em parte relevante do mercado. Times como Ceará Esporte Clube, Atlético-MG, Botafogo e Cruzeiro ampliaram suas dívidas mesmo após a transformação em SAF, enquanto clubes tradicionais seguem recorrendo a parcelamentos tributários, empréstimos e receitas futuras para equilibrar contas.
SAFs acumulam dívidas bilionárias no Brasil mesmo com investidores
Levantamento da Sports Value mostrou que os clubes brasileiros passarão a dever R$ 16 bilhões em 2025, alta de 16% sobre o ano anterior. Entre os cinco maiores passivos do Brasil, as entidades mais endividadas, três pertencem a SAFs.
A situação mais crítica aparece no Atlético-MG SAF. O clube acumulou dívida de R$ 2,2 bilhões, mesmo após a transformação empresarial e a entrada de investidores privados.
O Botafogo também ampliou a pressão financeira. O balanço oficial da SAF divulgado pelo clube aponta dívida próxima de R$ 2 bilhões em 2025, apesar do faturamento recorde de R$ 1,4 bilhão.
Os números revelam uma contradição crescente no modelo:
- receitas sobem rapidamente
- gastos operacionais avançam ainda mais
- clubes recorrem a empréstimos e antecipações
- vendas de atletas viram sustentação permanente de caixa
O Cruzeiro, por exemplo, fechou 2025 com dívida superior a R$ 1,1 bilhão. Enquanto isso, o Botafogo teve aumento de 81% em seu passivo em apenas um ano.
Ceará amplia alerta sobre sustentabilidade financeira
Embora ainda não opere como SAF, o Ceará virou símbolo de deterioração financeira dos clubes médios fora da elite nacional do Brasil.
O clube registrou o maior crescimento percentual de dívida do país em 2025. O passivo saltou 206%, saindo de R$ 56 milhões para R$ 174 milhões após o rebaixamento à Série B.
A diretoria afirma que a maior parte do endividamento é tributária e está parcelada a longo prazo. Também projeta entrada de R$ 36 milhões em receitas futuras, principalmente com negociações de atletas.
O problema é que o caso do Ceará expõe uma dinâmica hoje disseminada no futebol brasileiro, especialmente entre as SAFs endividadas no Brasil :
- queda de divisão reduz receitas imediatamente
- folha salarial demora a cair
- clubes recorrem a parcelamentos fiscais
- vendas futuras passam a sustentar despesas correntes
Outro time nordestino, o Fortaleza, que também adotou estrutura SAF sem vender controle a investidores externos, foi mais um que viu a dívida crescer nos últimos anos, em 94%, chegando a R$ 223 milhões.
O cenário amplia dúvidas sobre a capacidade do futebol brasileiro de equilibrar competitividade esportiva e solvência financeira. Cenário completamente oposto ao do futebol europeu, que concentra praticamente todos os times mais valiosos do mundo.
Modelo SAF ampliou capacidade de investimento e risco
As SAFs que hoje estão endividadas no Brasil ganharam acesso mais amplo a crédito, investidores privados e operações financeiras sofisticadas após a transformação dos clubes em empresas. O modelo aumentou a capacidade de investimento imediato no futebol, mas também elevou a exposição financeira das equipes.
Hoje, parte relevante das SAFs brasileiras opera sustentada por:
- antecipação de receitas futuras
- premiações esportivas
- venda de jogadores
- empréstimos bancários
- aportes extraordinários de investidores
Quando os resultados esportivos não acontecem, a pressão sobre o caixa cresce rapidamente. O Botafogo virou um dos principais exemplos desse ciclo. Mesmo após receitas recordes com premiações e transferências, a SAF registrou aumento acelerado da dívida e prejuízo operacional.
Os balanços recentes também trouxeram ressalvas de auditoria sobre as demonstrações financeiras do clube, ampliando o debate sobre a sustentabilidade das SAFs endividadas e a dependência crescente de capital externo para manter competitividade esportiva no Brasil.
Fair Play Financeiro chega sob pressão no futebol brasileiro
O avanço das SAFs endividadas no Brasil ocorre justamente quando o futebol nacional discute regras de Fair Play Financeiro.
A proposta busca limitar gastos acima da capacidade financeira dos clubes, aproximando o modelo brasileiro de ligas europeias.
O desafio é que grande parte dos clubes já opera pressionada por:
- dívidas fiscais
- parcelamentos tributários
- folha salarial elevada
- dependência de mercado de atletas
Isso reduz a margem de adaptação às futuras regras.
A própria diretoria do Ceará afirmou que a reorganização tributária coloca o clube em posição de segurança para as novas normas previstas para 2026.
O problema é que os balanços recentes mostram uma indústria cada vez mais dependente de capital externo, empréstimos e receitas extraordinárias para sustentar competitividade.
Enquanto isso, apenas poucos clubes conseguiram reduzir passivos de forma consistente em 2025. O Bahia, por exemplo, diminuiu sua dívida em 80%. Já Flamengo, São Paulo e Vasco também registraram queda no endividamento.
O contraste revela que a crise financeira do futebol brasileiro não desapareceu com a SAF. Em vários casos, ela apenas mudou de escala.



