Passagens aéreas mais caras fazem Gol, Azul e Latam reduzirem voos no Brasil

Passagens aéreas mais caras já provocam redução de voos domésticos no Brasil após alta do combustível causada pela guerra no Oriente Médio.
Avião da Latam em voo durante crise no setor aéreo causada pela alta do combustível de aviação.
Latam reduziu parte da expansão de voos domésticos e regionais após a disparada do combustível pressionar os custos operacionais da aviação. (Foto: Divulgação/Latam)

As passagens aéreas mais caras começaram a alterar a operação das principais companhias aéreas do país. Gol, Azul e Latam já reduziram parte da malha doméstica diante da disparada do combustível de aviação após a escalada dos conflitos no Oriente Médio.

O impacto vai além do reajuste das tarifas. A pressão sobre os custos começa a atingir rotas regionais, desacelera planos de expansão e aumenta o risco de corte de frequências em cidades menores, onde as empresas têm menos espaço para repassar a alta ao consumidor.

Os primeiros sinais dessa desaceleração já aparecem nos dados operacionais. O setor ainda não vê risco imediato de falta de combustível no Brasil, mas admite que a continuidade da pressão sobre o petróleo pode ampliar cancelamentos e tornar algumas rotas economicamente inviáveis nos próximos meses.

Alta do combustível causa passagens aéreas mais caras e reduz voos domésticos no Brasil

Um levantamento da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), que reúne as três maiores companhias aéreas brasileiras —Gol, Azul e Latam— mostra queda de 3,3% na projeção de voos domésticos para maio.

Só em abril, estavam previstos 2.193 voos diários no mercado regular nacional. Um mês depois, porém, o número caiu para 2.121 operações por dia. No total do mês, a redução representa 2.225 voos a menos em relação à projeção inicial.

O presidente da entidade, Juliano Noman, afirma que as companhias começaram a ajustar a oferta porque o aumento do querosene de aviação não consegue ser transferido integralmente para as passagens aéreas, deixando-as mais caras.

Segundo ele, rotas mais disputadas e mercados corporativos ainda absorvem parte do reajuste. Em cidades menores e operações regionais, a conta começa a perder viabilidade mais rapidamente.

A consequência prática aparece na própria dinâmica da malha aérea. Empresas preservam corredores mais rentáveis, como a ponte aérea Rio-São Paulo, enquanto destinos menores ficam mais expostos à redução da oferta.

Gol, Azul e Latam sentem impactos diferentes da crise do petróleo

A pressão do combustível não afeta as companhias da mesma forma.

Na avaliação de especialistas, a Gol aparece como a empresa mais vulnerável ao efeito das passagens aéreas mais caras pois depende majoritariamente do mercado doméstico brasileiro, onde existe forte concorrência e menor poder para elevar tarifas.

A Azul opera em várias rotas sem concorrência direta, principalmente no interior do país. Isso dá maior flexibilidade comercial, embora o aumento do combustível continue pressionando custos em toda a rede, apesar da nova estratégia da companhia focada na preservação da margem.

Já a Latam possui vantagem de escala internacional nas negociações de combustível, o que amplia seu poder de barganha diante da disparada do petróleo. Mesmo assim, a companhia informou impacto de US$ 40 milhões no primeiro trimestre e elevou sua projeção para o barril, de US$ 90 para até US$ 170 nos próximos trimestres.

A pressão sobre os custos levou a empresa a reduzir a projeção de margem Ebitda para 2026, de até US$ 4,6 bilhões para até US$ 4,2 bilhões, além de desacelerar a expansão doméstica prevista para junho.

O CEO da Latam no Brasil, Jerome Cadier, afirmou que a companhia monitora a oferta de querosene de aviação (QAV) com fornecedores, embora ainda não veja risco de desabastecimento nos destinos atendidos pela aérea.

Aviação regional vira área mais vulnerável da crise das passagens aéreas mais caras

O encarecimento do combustível começa a criar uma divisão mais clara dentro do setor aéreo brasileiro.

Rotas de alta demanda tendem a permanecer protegidas porque concentram passageiros corporativos e uma maior taxa de ocupação. Já operações regionais trabalham com margens menores e têm dificuldade para absorver aumentos sucessivos de custo, um dos motivos, inclusive, da Latam ter cortado boa parte de suas rotas no Brasil.

Especialistas avaliam que o cenário pode acelerar para além de apenas passagens aéreas mais caras e causar quatro efeitos distintos:

  • Cancelamento de frequências regionais;
  • Redução de conectividade em cidades menores;
  • Aumento mais intenso das tarifas fora dos grandes centros;
  • Concentração da oferta em rotas de maior rentabilidade.

Adalberto Febeliano, especialista em aviação civil e ex-executivo da Azul, afirma que mesmo empresas com presença dominante em determinadas regiões continuam expostas porque o combustível afeta toda a estrutura operacional.

A pressão também começa a atingir o fluxo de caixa das empresas.

Em teleconferência com investidores, o CEO da Azul, John Rodgerson, afirmou que a companhia registrou impacto negativo nas vendas antecipadas de passagens após o agravamento da guerra no Irã e os ajustes feitos na capacidade operacional.

Segundo ele, o efeito tende a ser temporário enquanto a empresa reorganiza a oferta de voos.

Embraer amplia cautela diante do risco de desaceleração do setor aéreo

A Embraer ainda não registrou impacto direto nas vendas de aeronaves comerciais e executivas, mas já elevou o nível de atenção ao cenário global.

O CEO Francisco Gomes Neto afirmou que a fabricante brasileira mantém operações normais, embora tenha ampliado internamente medidas ligadas à gestão de custos e eficiência.

O movimento mostra que a disparada do combustível deixou de ser apenas um problema operacional das companhias aéreas e passou a alterar decisões em diferentes áreas da cadeia da aviação.

Se o petróleo continuar pressionado nos próximos meses, o setor poderá enfrentar uma combinação mais ampla que vai além de passagens aéreas mais caras,causando também a redução da malha doméstica e perda gradual de conectividade regional no Brasil.

Foto de Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista formado pela Faculdade Estácio e pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação em economia e negócios. Integra as equipes editoriais do Economic News Brasil e do J1, veículos que compõem o Sistema BNTI de Comunicação. Sua atuação é fundamentada em sólida experiência em jornalismo editorial e comunicação institucional.

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