eBay barra proposta da GameStop e ameaça de disputa hostil cresce

A eBay rejeitou a oferta de US$ 56 bilhões feita pela GameStop, alegando falta de credibilidade financeira. O mercado teme endividamento elevado, diluição acionária e uma possível disputa hostil liderada por Ryan Cohen.
Imagem do pórtico da eBay para ilustrar uma matéria jornalística sobre a GameStop e eBay.
eBay rejeita oferta da GameStop e mercado teme operação bilionária. (Imagem: Cool Caesar/Wikimedia Commons)

A tentativa da GameStop de comprar o eBay sofreu um duro revés após a plataforma de comércio eletrônico rejeitar oficialmente a proposta de aquisição de US$ 56 bilhões apresentada pela varejista de videogames. O conselho da companhia classificou a oferta como “não credível”.

A negativa expôs a principal fragilidade da operação: o mercado não acredita que a GameStop consiga financiar uma aquisição desse tamanho sem elevar drasticamente o endividamento ou diluir acionistas.

A tensão aumentou porque Ryan Cohen, CEO da GameStop, indicou que ainda pode levar a proposta diretamente aos investidores da eBay, movimento que pode transformar a negociação em uma disputa hostil.

A operação chamou atenção em Wall Street porque o eBay vale quase quatro vezes mais que a GameStop, situação rara em grandes aquisições corporativas. Analistas compararam a proposta a operações altamente alavancadas típicas de fundos de private equity, mas incomuns entre varejistas listadas.

Por que investidores não acreditam na compra da eBay pela GameStop

Antes mesmo da rejeição oficial do eBay, o mercado já mostrava desconfiança. As ações da empresa continuaram negociadas abaixo do valor oferecido pela GameStop, sinal clássico de que investidores enxergam baixa probabilidade de conclusão do negócio.

A desconfiança aumentou por causa da estrutura financeira proposta por Ryan Cohen.

O plano incluía:

  • até US$ 20 bilhões em novas dívidas;
  • emissão adicional de ações;
  • uso de caixa próprio;
  • apoio financeiro do TD Securities.

Analistas alertam que a operação poderia gerar:

  • aumento agressivo da alavancagem;
  • pressão sobre fluxo de caixa;
  • risco de rebaixamento financeiro;
  • forte diluição acionária.

A reação negativa ganhou força após Michael Burry, investidor retratado no filme “The Big Short”, vender toda sua participação na GameStop depois do anúncio da proposta.

O movimento foi interpretado como um sinal de preocupação com a sustentabilidade financeira da companhia caso a aquisição avançasse.

eBay rejeita GameStop e questiona credibilidade da proposta

O chairman da eBay, Paul Pressler, afirmou que o conselho concluiu que a oferta “não é nem credível nem atraente”.

A declaração teve forte impacto porque a empresa não criticou apenas o valor da proposta. O foco foi a capacidade da GameStop de sustentar financeiramente a operação.

Isso atingiu diretamente a estratégia de Ryan Cohen, que tenta reposicionar a GameStop além do modelo tradicional de varejo físico de games.

O executivo afirmou ao Wall Street Journal que via potencial para transformar a eBay em uma companhia avaliada em “centenas de bilhões de dólares” e capaz de competir diretamente com a Amazon.

O plano previa:

  • cortar US$ 2 bilhões em custos anuais;
  • ampliar margens operacionais;
  • integrar vendas físicas e digitais;
  • usar cerca de 1.600 lojas da GameStop como apoio logístico.

As unidades poderiam funcionar como:

  • pontos de retirada;
  • centros de envio;
  • locais de autenticação de produtos;
  • suporte para integração omnichannel.

Mesmo assim, investidores enxergam dificuldade para unir empresas com operações, culturas e perfis financeiros muito diferentes.

O que é uma oferta hostil e por que Ryan Cohen ameaça usar essa estratégia

Após a rejeição, Ryan Cohen afirmou que pode levar a proposta diretamente aos acionistas da eBay.

Esse modelo é conhecido em Wall Street como “hostile takeover”, ou aquisição hostil. Nele, o comprador tenta convencer investidores a aprovar a venda sem apoio da administração da empresa-alvo.

Esse tipo de disputa costuma elevar:

  • volatilidade das ações;
  • custos financeiros;
  • pressão jurídica;
  • tensão entre acionistas e executivos.

O problema para a GameStop é que o mercado ainda demonstra pouca confiança na tese da operação.

A diferença entre o valor ofertado e o preço real das ações da eBay indica que investidores continuam vendo obstáculos relevantes para a conclusão do negócio.

Além do financiamento, Wall Street questiona:

  • capacidade de integração;
  • retorno operacional;
  • geração de caixa futura;
  • risco de execução.

GameStop tenta deixar para trás a era das meme stocks

A ofensiva pela eBay também simboliza uma tentativa de Ryan Cohen de afastar a GameStop da imagem associada às “meme stocks”, ações impulsionadas por investidores de fóruns online durante a pandemia.

Desde então, Cohen tenta transformar a companhia em uma plataforma mais ligada ao comércio digital e serviços online. A compra da eBay seria a maior aposta dessa estratégia de transformação.

O problema é que a rejeição pública da eBay ampliou dúvidas sobre a capacidade da GameStop de executar movimentos corporativos dessa dimensão.

Mesmo assim, a varejista já acumulou quase 5% de participação na eBay, incluindo derivativos, e ainda pode aumentar a pressão sobre a companhia nos próximos meses.

O caso mostra que a tentativa da GameStop em comprar a eBay deixou de ser apenas uma proposta bilionária. A disputa agora envolve credibilidade financeira, risco de endividamento e a tentativa de uma empresa menor desafiar gigantes consolidadas do comércio eletrônico global.

Foto de Marconi Bernardino

Marconi Bernardino

Marconi Bernardino é jornalista formado pela Unifavip Wyden, em Caruaru (PE). Integra a equipe do Economic News Brasil, com atuação na produção de conteúdos analíticos sobre negócios, mercado financeiro e fortunas, além de experiência em jornalismo para televisão e rádio.

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