A decisão da Amaggi de comprar 40% da FS, na quarta-feira (13), marca uma mudança estratégica no agronegócio brasileiro. A gigante do setor agrícola entrou diretamente no mercado de biocombustíveis num momento em que o etanol de milho se transforma numa das áreas mais disputadas do agro.
O negócio inclui aporte da Amaggi de US$ 100 milhões na FS e amplia a corrida por escala industrial, energia renovável e captura de margem dentro da cadeia do milho. A operação também intensifica a competição entre grandes grupos que avançam sobre o setor no Centro-Oeste.
O etanol de milho deixou de ser nicho complementar da bioenergia. O combustível passou a redefinir a cadeia econômica do milho no Brasil, pressionando tradings e grupos agrícolas a ampliar presença industrial para capturar valor além da exportação de grãos.
Por que a Amaggi decidiu comprar a FS e entrar no etanol de milho
A operação reforça a estratégia de verticalização da Amaggi num mercado que cresce mais rapidamente que o restante do setor de etanol brasileiro.
A FS foi pioneira na produção de etanol exclusivamente à base de milho no país. A companhia opera três usinas no Mato Grosso, com capacidade conjunta de aproximadamente 2,5 bilhões de litros anuais.
A empresa também constrói uma quarta unidade em Campo Novo do Parecis, prevista para iniciar operações no fim de 2026.
A nova planta deve adicionar:
- 600 milhões de litros anuais;
- capacidade total de 3,2 bilhões de litros;
- aumento da escala industrial da companhia.
A entrada da Amaggi ocorre num momento em que grandes grupos agrícolas buscam ampliar participação em negócios menos dependentes do ciclo internacional das commodities.
Hoje, a exportação de grãos enfrenta:
- pressão logística;
- volatilidade cambial;
- redução de margens;
- maior competição global.
Nesse ambiente, transformar milho em combustível passou a gerar vantagem econômica mais previsível e rentável.
A parceria também cria ganhos operacionais relevantes para os dois grupos.
As empresas afirmam que haverá sinergias em:
- originação de milho;
- logística;
- exportações;
- eficiência industrial;
- redução de custos operacionais.
A estrutura societária da empresa será mantida. A Amaggi dividirá participação com o grupo norte-americano Summit Agricultural Group, atual controlador da FS.
Etanol de milho virou disputa por margem no agro
O avanço do etanol de milho mudou a dinâmica da bioenergia brasileira nos últimos anos. O segmento cresceu rapidamente e passou a disputar espaço diretamente com o etanol produzido a partir da cana.
Segundo dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), o etanol de milho respondeu por 27% da produção total do Centro-Sul na safra 2025/26.
O crescimento acelerado do setor ocorre principalmente no Mato Grosso, estado que reúne:
- ampla oferta de milho;
- expansão industrial;
- vantagem logística;
- disponibilidade energética.
O avanço da Inpasa e de outros grupos elevou a pressão competitiva no setor. Agora, a entrada da Amaggi amplia ainda mais a corrida por escala e controle da cadeia produtiva.
A disputa deixou de envolver apenas produção agrícola. O foco passou a incluir:
- energia;
- indústria;
- logística;
- exportação;
- descarbonização.
Esse movimento altera o modelo tradicional das tradings agrícolas, que historicamente concentravam receita na comercialização de commodities.
Com a industrialização do milho, grupos do agro passaram a buscar:
- receita recorrente;
- maior captura de margem;
- redução de exposição externa;
- integração entre produção e energia.
Na prática, o milho ganhou valor estratégico além da alimentação animal e da exportação.
A aposta da FS em combustível carbono negativo
Além da expansão industrial, a FS também avança sobre uma das áreas mais disputadas da bioenergia global: descarbonização.
Em setembro, a companhia inaugurou em Lucas do Rio Verde sua primeira unidade de captura e armazenamento de carbono.
Segundo a empresa, a estrutura terá capacidade para armazenar 423 mil toneladas anuais de CO₂.
A FS afirma que o projeto poderá transformá-la na primeira produtora de combustível carbono negativo do mundo.
A estratégia amplia o valor do negócio num momento em que investidores e mercados internacionais aumentam pressão sobre cadeias produtivas com alta emissão de carbono.
Combustíveis de menor intensidade de carbono passaram a atrair:
- capital internacional;
- crédito ESG;
- receitas ambientais;
- maior competitividade externa.
A empresa afirmou que a operação com a Amaggi não ocorreu por necessidade financeira e que a companhia registrou o melhor resultado de sua história no último exercício fiscal.
Parte da transação será feita por emissão primária de ações, com entrada de novos recursos na companhia, além da compra de participações de acionistas atuais.
A atual diretoria da FS será mantida, enquanto a Amaggi participará do negócio por meio do conselho de administração.
A operação ainda depende de aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Mesmo antes da conclusão regulatória, a aquisição já expõe uma mudança mais profunda no agronegócio brasileiro: a Amaggi e a FS, grandes tradings passaram a disputar não apenas grãos, mas também energia, indústria e carbono dentro da mesma cadeia econômica.



