A recuperação judicial da Americanas entrou em nova etapa no primeiro trimestre de 2026. Segundo dados da divulgação de resultados trimestrais da empresa, publicados nessa quarta-feira (13/05), a varejista reduziu o prejuízo e ampliou as vendas. Além disso, formalizou o pedido para encerrar o processo iniciado após a crise contábil descoberta em 2023.
A melhora operacional diminui o risco imediato de ruptura financeira, mas ainda não elimina as fragilidades acumuladas desde o colapso que levou a companhia ao maior processo de recuperação judicial do varejo brasileiro.
O mercado, portanto, passou a observar menos a sobrevivência jurídica da empresa e mais sua capacidade de transformar crescimento de vendas em geração consistente de margem, lucro e caixa recorrente.
Queda do prejuízo da Americanas melhora percepção sobre a recuperação judicial
A Americanas registrou receita bruta consolidada de R$ 3,7 bilhões no 1T26, um avanço de 19,8% frente ao mesmo período do ano anterior. Parte da alta foi impulsionada pelo efeito calendário da Páscoa, que concentrou as vendas do primeiro trimestre da Americanas e ajudou a aliviar a percepção do mercado sobre a recuperação judicial.
Os principais indicadores do trimestre foram:
- prejuízo líquido caiu 34%, de R$ 496 milhões negativos para R$ 329 milhões negativos;
- EBITDA Ajustado, indicador usado para medir geração operacional de caixa, melhorou R$ 41 milhões;
- EBITDA ex-IFRS16, métrica que desconsidera efeitos contábeis de arrendamentos e aluguéis, avançou R$ 56 milhões;
- margem bruta das operações físicas e do O2O (Online to Offline), modelo que integra vendas digitais às lojas físicas por retirada e entrega rápida, atingiu 28,3%;
- margem bruta avançou 1,4 ponto percentual na comparação anual.
O resultado mostra uma companhia menos focada em expansão acelerada e mais concentrada em rentabilidade, controle de mix e eficiência operacional.
Caixa e dívida ainda limitam a reconstrução financeira
A melhora operacional da Americanas ainda não resolveu o principal problema deixado pela crise contábil que deu início à recuperação judicial: a pressão financeira. Mesmo após reduzir prejuízo e ampliar as vendas, a companhia encerrou o 1º trimestre com dívida líquida de R$ 347 milhões.
Os principais indicadores financeiros do trimestre mostram essa pressão:
- dívida bruta encerrou o período em R$ 2,1 bilhões;
- disponibilidades somaram R$ 1,7 bilhão, incluindo recebíveis de cartões;
- dívida líquida ajustada sobe para R$ 756 milhões ao considerar passivos remanescentes do plano judicial;
- consumo de caixa acumulado em 12 meses atingiu R$ 350 milhões.
O consumo de caixa foi impactado principalmente por investimentos operacionais, pagamentos ligados à recuperação judicial e recomposição de estoques para eventos comerciais. Cenário que mantém o mercado atento à capacidade da Americanas de voltar a gerar caixa de forma recorrente.
Lojas físicas voltam ao centro da estratégia da Americanas
A receita das lojas físicas atingiu R$ 3,3 bilhões e respondeu por 91% do faturamento total da companhia no trimestre. As vendas nas mesmas lojas (SSS), indicador que mede o desempenho das unidades abertas há mais de um ano, cresceram 22,2%, enquanto 83% das lojas encerraram o período superavitárias.
Na prática, os números mostram que a recuperação judicial passou a depender menos da expansão digital acelerada e mais da capacidade da Americanas de extrair margem e eficiência das operações físicas. O indicador de vendas mesmas lojas acumulado em quatro meses avançou 7,8%, reduzindo distorções sazonais provocadas pela Páscoa.
A estratégia também mudou no digital. O canal de vendas online cresceu 55,8% e alcançou R$ 146 milhões no trimestre, apoiado principalmente na retirada em loja e entrega rápida, reduzindo a dependência do antigo modelo digital deficitário.
Venda de ativos da Americanas mostra fase final da recuperação judicial
Como parte do plano de reestruturação proposto na recuperação judicial, a Americanas segue reduzindo ativos considerados pouco eficientes financeiramente. Em maio, a companhia anunciou a alienação de 10 lojas deficitárias da Hortifruti Natural da Terra ao Oba Hortifruti por R$ 69,3 milhões.
A operação ainda depende de aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), mas reforça a estratégia de simplificação do negócio. A companhia tenta concentrar recursos em operações com maior margem, menor consumo de caixa e capacidade mais rápida de retorno financeiro.
O pedido de encerramento da recuperação judicial da Americanas indica que a fase mais crítica da crise ficou para trás. O balanço do 1T26, porém, mostra que a Americanas ainda precisa transformar reação operacional em lucro recorrente e estabilidade financeira duradoura.



