Recuperações judiciais revelam como o Itaú ficou preso a grandes grupos em crise

O Itaú aparece entre os maiores credores de empresas que entraram em recuperação judicial na última década. A exposição passa de R$ 21 bilhões e inclui Americanas, Oi, Odebrecht, Light e Sete Brasil.
Fachada de prédio do Itaú Unibanco em meio a reportagem sobre recuperações judiciais e perdas bilionárias
Itaú acumulou exposição bilionária em empresas que entraram em recuperação judicial, incluindo Americanas, Oi, Odebrecht e Sete Brasil (Foto: Reprodução)

A sequência de recuperações judiciais envolvendo Americanas, Oi, Odebrecht, Sete Brasil e Light deixou o Itaú Unibanco diante de uma exposição bilionária em empresas que lideravam seus setores. Parte relevante desses créditos perdeu valor ou foi renegociada com forte desconto.

O total supera R$ 21,19 bilhões em dívidas cobradas pelo banco ao longo da última década. Os casos atravessam varejo, telecomunicações, infraestrutura, energia e óleo e gás, revelando como o maior banco privado do país virou presença recorrente nas maiores crises corporativas brasileiras.

O dado não mostra apenas prejuízos pontuais. A repetição dos casos indica como o crédito corporativo de grandes grupos ficou vulnerável a empresas altamente endividadas, estruturas financeiras frágeis e operações que colapsaram após mudanças econômicas, investigações ou problemas de governança.

Americanas ampliou choque no sistema bancário

A recuperação judicial da Americanas virou um dos maiores abalos recentes do crédito privado brasileiro após a descoberta de inconsistências contábeis bilionárias em 2023. A Americanas entrou em recuperação judicial com dívida inicialmente próxima de R$ 43 bilhões, colocando o Itaú entre os maiores credores da varejista.

Na primeira lista de credores, a exposição do Itaú, incluindo banco e fundos, superava R$ 4,3 bilhões, valor corrigido para cerca de R$ 5 bilhões pelo IPCA.

A crise provocou efeito imediato sobre bancos e investidores porque a varejista era considerada uma companhia de baixo risco até poucos dias antes do colapso financeiro. O caso também levantou questionamentos sobre controles internos, auditoria e qualidade das garantias concedidas ao mercado.

A recuperação da companhia avançou após acordos com credores e aprovação de plano judicial.

Oi virou símbolo da recuperação judicial sem fim

A Oi atravessa quase uma década de reestruturações, venda de ativos e disputas judiciais. A empresa entrou na primeira recuperação judicial em 2016 alegando incapacidade de sustentar o passivo acumulado após expansão agressiva e elevado custo financeiro. Em 2023, entrou com o pedido de sua segunda recuperação judicial, apresentando dívida de R$ 43,7 bilhões.

As duas recuperações judiciais da companhia somaram ao Itaú exposição superior a R$ 5 bilhões, segundo os valores corrigidos. Além disso, mesmo após venda de operações móveis e ativos de fibra, a Oi continua pressionada por:

  • Dívida elevada;
  • Baixo caixa;
  • Dificuldade de execução do plano;
  • Conflitos entre credores e administração.

Em 2025, Itaú e Bradesco chegaram a recorrer contra a decretação de falência da companhia, defendendo a retomada da recuperação judicial. Os bancos argumentaram que a quebra poderia ampliar perdas e inviabilizar recuperação parcial dos créditos.

A operadora ainda tenta reorganizar caixa e renegociar obrigações bilionárias.

Odebrecht e Sete Brasil ampliaram exposição do Itaú a recuperações judiciais

Os casos ligados ao setor de infraestrutura e óleo e gás carregam um componente adicional: o impacto da Operação Lava Jato sobre grandes grupos empresariais que dependiam de contratos públicos, capital intensivo e financiamento bancário pesado.

A antiga Odebrecht, hoje Novonor, entrou em recuperação judicial em 2019 após anos de deterioração financeira, venda de ativos e dificuldades para renegociar dívidas acumuladas depois da Lava Jato. O caso colocou o Itaú, novamente, entre os principais credores de uma das maiores recuperações judiciais já registradas no país.

A OEC, braço de engenharia do grupo, voltou a pedir recuperação judicial em 2024 para reorganizar a nova rodada de dívidas. Na lista mais recente de credores, inclusive, ainda restam R$ 7,335 bilhões de créditos relacionados ao Itaú, segundo informações do mercado.

A Sete Brasil seguiu caminho ainda pior. Criada para operar sondas do pré-sal, a companhia perdeu contratos, sofreu efeitos da Lava Jato e entrou em colapso financeiro poucos anos após captar bilhões junto a bancos e investidores. O Itaú cobrava cerca de R$ 2,157 bilhões em créditos sem garantia antes de vender parte da carteira podre para empresas especializadas.

A companhia acabou tendo a falência decretada após a incapacidade de cumprir o plano de recuperação judicial.

Light, Ambipar e Schahin mostram pressão além da Lava Jato

Os casos mais recentes mostram que o problema não ficou restrito às empresas atingidas pela Lava Jato.

A Light entrou em recuperação judicial em 2023 com dívida próxima de R$ 11 bilhões, pressionada por perdas operacionais, furto de energia e deterioração do caixa.

A Ambipar virou um caso emblemático da deterioração financeira acelerada. A empresa recorreu à recuperação judicial no Brasil e ao Chapter 11 nos Estados Unidos após dificuldades ligadas à estrutura de capital, derivativos e liquidez.

O Grupo Schahin, por sua vez, acumulou dívidas bilionárias após perder acesso a crédito e enfrentar problemas operacionais e judiciais ligados ao setor de infraestrutura.

Os três casos adicionaram centenas de milhões de reais à exposição do Itaú em empresas em recuperação judicial.

Itaú passou a antecipar perdas e vender créditos problemáticos

Os episódios mudaram a forma como bancos tratam créditos corporativos deteriorados.

Nos últimos anos, o Itaú passou a acelerar a venda de carteiras problemáticas e reconhecer perdas antes do desfecho judicial das recuperações. A estratégia reduz o risco de manter ativos considerados praticamente irrecuperáveis por muitos anos.

O movimento também mostra mudança no mercado bancário após sucessivos processos de recuperação judicial envolvendo grandes companhias brasileiras.

A repetição desses casos expôs uma fragilidade que vai além de um único banco. O volume bilionário de dívidas renegociadas mostra como empresas consideradas sólidas conseguiram manter acesso amplo ao crédito pouco antes de entrar em colapso financeiro.

Foto de Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista formado pela Faculdade Estácio e pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação em economia e negócios. Integra as equipes editoriais do Economic News Brasil e do J1, veículos que compõem o Sistema BNTI de Comunicação. Sua atuação é fundamentada em sólida experiência em jornalismo editorial e comunicação institucional.

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