A Casas Bahia registrou prejuízo líquido de R$ 1,06 bilhão no primeiro trimestre de 2026, mesmo com crescimento das vendas, avanço do e-commerce e melhora operacional. O aumento das despesas financeiras em meio aos juros elevados anulou a recuperação da operação.
A varejista decidiu endurecer a concessão de crédito e reduzir riscos em um cenário que ainda combina consumo fragilizado, inadimplência pressionada e custo financeiro elevado. A empresa admite abrir mão de crescimento para proteger caixa e rentabilidade.
A Casas Bahia conseguiu melhorar indicadores operacionais e gerar caixa, mas ainda enfrenta um problema estrutural: o custo da dívida cresce mais rápido que a recuperação do varejo. O resultado reforça como juros altos seguem sufocando empresas dependentes de crédito ao consumidor.
Juros elevados viram principal pressão sobre lucro da Casas Bahia e contribuem para prejuízo trimestral
A receita líquida da companhia cresceu 6,1%, para R$ 7,4 bilhões. O Ebitda ajustado avançou 4,7%, somando R$ 597 milhões, enquanto a margem operacional permaneceu praticamente estável em 8,1%.
O resultado financeiro, porém, ficou negativo em R$ 1,2 bilhão, alta de 27% na comparação anual. O avanço do CDI médio de 12,94% para 14,86% ampliou o peso das despesas financeiras sobre a empresa.
A piora financeira anulou o ganho operacional e ampliou fortemente as perdas frente ao mesmo período do ano passado, quando o prejuízo havia sido de R$ 408 milhões.
Entre os fatores que pressionaram o lucro estão:
- aumento do custo da dívida;
- juros mais altos nas captações;
- maior despesa financeira com crédito;
- ambiente macroeconômico mais restritivo;
- desaceleração do consumo.
Casas Bahia reduz risco e abre mão de crescimento
A empresa adotou uma postura mais conservadora na concessão de crédito, compras com fornecedores e expansão comercial. A estratégia marca uma mudança importante após o período mais crítico da reestruturação financeira da varejista.
Além disso, a companhia informou que não pretende vender ativos “a qualquer preço” nem ampliar crédito indiscriminadamente diante do aumento do risco de inadimplência.
A nova estratégia inclui:
- maior seletividade no crediário;
- redução da exposição a clientes de maior risco;
- controle mais rígido de compras;
- foco em geração de caixa;
- crescimento mais cauteloso.
A companhia também sinalizou preocupação com o ritmo do consumo nos próximos meses. O mercado de TVs ainda não apresentou o crescimento esperado inicialmente para o período da Copa do Mundo.
A avaliação interna é que a demanda segue abaixo do esperado mesmo em datas e eventos tradicionalmente importantes para o varejo de eletrodomésticos.
E-commerce sustenta avanço das vendas da companhia
O principal vetor de crescimento no trimestre veio da operação digital. A receita bruta online avançou 24%, para quase R$ 3,3 bilhões.
No canal próprio digital, conhecido como 1P, a alta chegou a 26,4%, totalizando R$ 3 bilhões. A Casas Bahia tenta aumentar escala e rentabilidade nesse segmento para reduzir dependência das lojas físicas.
Já a receita bruta das unidades físicas caiu 1,8%, somando quase R$ 5,6 bilhões.
Os números mostram uma mudança gradual no perfil de consumo da companhia:
- avanço do crédito digital;
- maior participação do e-commerce;
- queda do fluxo em lojas;
- consumidor mais seletivo;
- busca por parcelamentos mais longos.
A Casas Bahia destacou crescimento em soluções financeiras e monetização logística, áreas que a empresa considera capazes de ampliar margem e competitividade no longo prazo.
Geração de caixa melhora, mas cenário ainda exige cautela
A Casas Bahia registrou fluxo de caixa livre operacional de R$ 852 milhões, apontado pela administração como um ponto de inflexão na recuperação da companhia.
Mesmo assim, o saldo final ainda apresentou consumo de caixa de R$ 224 milhões após pagamentos financeiros, juros e captações.
A alavancagem financeira permaneceu praticamente estável em 0,5 vez, contra 0,4 vez no trimestre anterior, reduzindo parte da pressão observada nos momentos mais críticos da empresa.
A varejista saiu da fase de maior risco financeiro e agora precisa provar capacidade de gerar lucro sustentável mesmo em um ambiente de juros elevados.
A visão da Casas Bahia para o curto prazo segue conservadora para evitar novos prejuízos. A expectativa de melhora econômica no segundo semestre ainda depende da redução das pressões sobre crédito, consumo e custo financeiro.



