O custo de viajar no Brasil apareceu no balanço da CVC como um dos sinais mais claros de pressão sobre o turismo em 2026. A companhia informou prejuízo líquido ajustado de R$ 63,1 milhões no 1T26, revertendo lucro ajustado de R$ 24 milhões registrado um ano antes.
A virada ocorreu mesmo com crescimento nas reservas confirmadas. A CVC informou alta de R$ 157 milhões nesse indicador, avanço de 4% sobre o 1T25. Sem efeitos do conflito no Oriente Médio e com câmbio neutralizado na Argentina, o crescimento das reservas teria sido de 9%.
O resultado mostra uma tensão relevante para o setor: a demanda por viagens não desapareceu, mas ficou mais cara de operar. Passagens aéreas, remarcações, cancelamentos, juros e despesas comerciais reduziram a capacidade da empresa de transformar vendas em lucro.
A ação da CVC também refletiu a piora do balanço. O papel CVCB3 encerrou negociado perto de R$ 1,88 a R$ 1,89 naa quinta-feira (14/05).
Custo de viajar no Brasil reduz margem da CVC
O resultado da CVC teve geração operacional ajustada, medida pelo Ebitda, de R$ 93,7 milhões no 1T26. O indicador caiu 10,5% em relação ao mesmo período de 2025. A margem ficou em 25,7%, recuo de 3,2 pontos percentuais.
A receita líquida consolidada usada na apresentação de resultados somou R$ 365,1 milhões, alta de 0,8% na comparação anual. Nas demonstrações contábeis, a receita líquida de vendas aparece em R$ 377,8 milhões, avanço de 0,5%.
A pressão veio de duas frentes. O conflito no Oriente Médio gerou cancelamentos, remarcações e fechamento de conexões globais. No Brasil, a apresentação aponta que o preço das passagens aéreas subiu 15% em março, na comparação com o mesmo mês de 2025. Ao mesmo tempo, o tíquete médio da CVC Lazer caiu 2%, com maior procura por viagens de menor valor.
A conta explica a margem menor: viagem mais cara para entregar, pacote menor para vender.
Passagens aéreas caras e juros pesam no balanço
As passagens aéreas caras não foram o único fator. A despesa líquida com juros, encargos e variações financeiras chegou a R$ 84,6 milhões no trimestre, alta de 69% sobre o 1T25.
Na prática, esse custo consumiu parte relevante do resultado antes da linha final do balanço. A empresa citou CDI elevado, aumento do IOF sobre remessas internacionais e maior uso de antecipação de recebíveis.
A antecipação de recebíveis permite transformar vendas futuras em caixa imediato. Para uma companhia de turismo, isso ajuda a financiar a operação antes do embarque. O efeito negativo é o custo financeiro, que cresce em ambiente de juros altos.
Os principais números do trimestre foram:
- prejuízo líquido ajustado de R$ 63,1 milhões, contra lucro de R$ 24 milhões no 1T25;
- Ebitda ajustado de R$ 93,7 milhões, queda de 10,5%;
- margem Ebitda de 25,7%, recuo de 3,2 pontos percentuais;
- despesa financeira líquida de R$ 84,6 milhões, alta de 69%;
- despesas de vendas de R$ 85,4 milhões, avanço de 33,9%.
As despesas de vendas cresceram com campanhas de marketing. A companhia informou que os gastos acompanharam tendências do varejo brasileiro de turismo e a preparação para a alta temporada de viagens.
O Oriente Médio também teve impacto financeiro direto. A CVC estimou perdas de vendas e cancelamentos de R$ 80 milhões no Brasil e R$ 28 milhões na Argentina por efeitos associados ao conflito, com impacto em aeroportos como Dubai, Doha e Israel.
Turismo vende mais, mas custa mais para operar
A leitura mais relevante do balanço é que o turismo não está travado. No Brasil, as reservas confirmadas avançaram 8,1% no 1T26. Sem o efeito do conflito no Oriente Médio, o crescimento teria sido de 11,2%. O B2B também sustentou o volume, com alta de 12% nas reservas confirmadas.
Mesmo assim, o aumento das vendas não protegeu o lucro. O trimestre combinou mais reservas, receita quase estável, despesa financeira maior e pressão sobre o caixa usado para financiar a operação antes do embarque dos clientes.
A dívida líquida encerrou março em R$ 251,6 milhões nas demonstrações contábeis, contra R$ 111,6 milhões no fim de 2025. Na apresentação gerencial, a empresa informou dívida líquida de R$ 241,8 milhões e relação de 0,5 vez entre dívida e geração de caixa.
O 1T26 da CVC deixa uma mensagem mais ampla que a oscilação da ação da Companhia. O balanço mostra que o custo de viajar no Brasil já pesa na rentabilidade do setor: há demanda, mas juros, passagens, câmbio e remarcações tornam cada venda mais difícil de converter em lucro.
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