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Exportações brasileiras para os Estados Unidos perdem espaço antes mesmo das tarifas de Trump

As exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram 14% em maio, mas o movimento vai além das tarifas de Donald Trump. A participação americana nas vendas externas do Brasil vem diminuindo enquanto a China amplia sua liderança.
Exportações brasileiras para os Estados Unidos registraram queda em maio, enquanto empresas acompanham movimentação de cargas em terminal de contêineres.
Participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caiu para 9,7%, enquanto a China ampliou sua presença na pauta comercial do país. (Foto: Reprodução)

As exportações do Brasil para os EUA recuaram 14% em maio, somando US$ 3,09 bilhões. O resultado, divulgado nesta quarta-feira (03/06) pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), amplia uma sequência de perdas observada desde que as tarifas comerciais do governo Donald Trump começaram a afetar o fluxo entre os dois países.

O dado, porém, sugere algo maior do que um impacto temporário das tarifas. Enquanto os embarques para os EUA perdem força, a China amplia participação e consolida uma mudança que já vinha reduzindo a relevância americana no comércio exterior brasileiro.

A queda recente chama atenção porque ocorre em um momento de expansão das exportações totais do Brasil, impulsionadas principalmente por commodities, energia e pelo avanço das vendas ao mercado asiático.

Exportações para os EUA já perdiam relevância antes da atual disputa comercial

As tarifas impostas por Washington aceleraram a desaceleração, mas não criaram a tendência.

Nos últimos anos, a estrutura do comércio exterior brasileiro passou por uma transformação gradual:

  • crescimento contínuo da demanda chinesa;
  • expansão das exportações de soja, minério e petróleo;
  • aumento da dependência de mercados asiáticos;
  • perda relativa da participação americana na pauta exportadora.

Os números de maio reforçam esse processo. A fatia dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caiu de 12% para 9,7% em apenas um ano. Ao mesmo tempo, a China ampliou sua participação para 32,9% das vendas externas do país.

A mudança acontece porque o perfil das exportações brasileiras passou a se concentrar justamente em produtos que encontram demanda crescente na Ásia, especialmente entre importadores chineses.

Nesse contexto, as tarifas de Trump funcionam mais como um acelerador de uma tendência já em andamento do que como sua causa principal.

China amplia vantagem enquanto os Estados Unidos perdem influência comercial

A distância entre os dois principais parceiros comerciais do Brasil aumentou novamente em maio.

As exportações para a China alcançaram US$ 10,5 bilhões, mais de três vezes o valor embarcado para os Estados Unidos no mesmo período. O crescimento foi de 9,5% em relação ao ano anterior.

No acumulado de janeiro a maio, a diferença se torna ainda mais expressiva:

  • China: US$ 43,26 bilhões em exportações brasileiras;
  • Estados Unidos: US$ 14,01 bilhões;
  • superávit com a China: US$ 15,5 bilhões;
  • déficit com os EUA: US$ 1,47 bilhão.

Esse contraste ajuda a explicar por que muitas empresas exportadoras passaram a direcionar investimentos e estratégias comerciais para mercados asiáticos.

A tendência também reduz a capacidade dos Estados Unidos de influenciar sozinho o desempenho das vendas externas brasileiras, cenário bastante diferente do observado duas décadas atrás.

Tarifas de Trump ampliam dificuldades para recuperar exportações do Brasil para os EUA

O próprio MDIC avalia que ainda é cedo para falar em uma mudança estrutural definitiva. Fluxos comerciais costumam levar tempo para se adaptar e parte dos setores exportadores pode recuperar espaço nos próximos meses.

Mesmo assim, a retomada não parece simples.

As tarifas elevam custos, reduzem competitividade e criam espaço para concorrentes que possuem acordos comerciais mais favoráveis com os Estados Unidos. Em alguns segmentos, como celulose e produtos industriais, exportadores brasileiros já enfrentam perda de mercado para países menos afetados pelas barreiras americanas.

Além disso, a diversificação dos destinos de exportação reduz a dependência das empresas brasileiras em relação ao mercado americano.

O resultado é um cenário em que os Estados Unidos continuam relevantes, mas cada vez menos centrais para a estratégia comercial do Brasil, conforme o apontamento do MDIC.

As exportações do Brasil para os EUA seguem representando uma parcela importante da pauta externa nacional. Porém, os números de 2026 mostram que a disputa comercial iniciada por Trump pode estar acelerando uma transformação mais profunda: a transferência gradual do eixo das vendas externas brasileiras dos EUA para a Ásia, liderada pela China.

Foto de Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista formado pela Faculdade Estácio e pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação em economia e negócios. Integra as equipes editoriais do Economic News Brasil e do J1, veículos que compõem o Sistema BNTI de Comunicação. Sua atuação é fundamentada em sólida experiência em jornalismo editorial e comunicação institucional.

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