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Carne brasileira: o risco de superbactérias que levou a UE a agir

A União Europeia restringiu a carne brasileira alegando falta de comprovação sobre o controle de antimicrobianos na pecuária. Entenda como o tema está ligado ao avanço das superbactérias e por que a questão preocupa autoridades de saúde no mundo inteiro.
Imagem de uma carne para ilustrar uma matéria jornalística sobre a Carne brasileira.
UE relaciona carne brasileira ao avanço global das superbactérias. (Imagem: David Foodphototasty/Unsplash)

A decisão da União Europeia de retirar o Brasil da lista de países autorizados a exportar determinados produtos de origem animal, como a carne brasileira, vai além de uma disputa comercial. O bloco europeu afirma que a medida está ligada à preocupação crescente com o avanço das bactérias resistentes aos antibióticos.

O caso colocou a produção pecuária brasileira no centro de uma discussão global sobre saúde pública. O temor é que o uso inadequado de antimicrobianos em animais contribua para reduzir a eficácia de medicamentos essenciais para tratar infecções humanas.

A preocupação ganhou relevância porque a resistência antimicrobiana é considerada uma das maiores ameaças sanitárias do mundo. O tema conecta fazendas, hospitais, comércio internacional e segurança alimentar em uma mesma cadeia de riscos.

Por que a União Europeia decidiu barrar a carne brasileira

A União Europeia não apontou irregularidades na qualidade da carne produzida no Brasil nem identificou riscos imediatos aos consumidores europeus.

O problema apontado pelo bloco foi a ausência de comprovação formal de que o país atende integralmente às exigências europeias sobre fiscalização, controle e rastreabilidade do uso de antimicrobianos na produção animal.

As regras europeias determinam que exportadores não utilizem substâncias para promover crescimento ou melhorar desempenho produtivo dos animais quando essas práticas possam contribuir para o desenvolvimento da resistência antimicrobiana.

Como o uso de antibióticos em animais pode afetar pessoas

O principal receio das autoridades sanitárias não está no consumo de carne contendo resíduos de medicamentos acima dos limites permitidos.

O risco considerado mais grave é a seleção de bactérias resistentes dentro das propriedades rurais. Quando um antimicrobiano é utilizado, ele elimina microrganismos sensíveis e favorece a sobrevivência daqueles que possuem mecanismos naturais de resistência.

Essas bactérias podem alcançar a população por diferentes caminhos:

  • contato direto entre trabalhadores e animais;
  • água e solo contaminados por resíduos da criação;
  • disseminação ambiental por dejetos;
  • circulação ao longo da cadeia produtiva;
  • transferência de genes de resistência para outras bactérias.

Quando provocam infecções em humanos, essas bactérias podem exigir tratamentos mais caros, mais complexos e menos eficazes.

O avanço das superbactérias preocupa governos e hospitais

A resistência antimicrobiana já é tratada por organismos internacionais como uma ameaça crescente à saúde pública mundial.

O problema ocorre quando antibióticos tradicionalmente eficazes deixam de funcionar contra determinadas infecções. Em situações mais graves, médicos precisam recorrer a medicamentos de última linha, que costumam ser mais caros e nem sempre apresentam o mesmo nível de sucesso terapêutico.

Segundo especialistas, o impacto vai além da medicina. O aumento da resistência bacteriana eleva custos hospitalares, prolonga internações e amplia o risco de complicações clínicas.

Foi justamente por esse motivo que a União Europeia incorporou o tema à estratégia One Health, que considera a saúde humana, animal e ambiental como partes de um mesmo sistema.

O que é a monensina e por que ela virou alvo do debate

Entre as substâncias mais discutidas após a decisão europeia está a monensina, amplamente utilizada na pecuária brasileira.

Apesar de frequentemente associada ao ganho de peso dos bovinos, ela não é um hormônio de crescimento. Trata-se de um aditivo alimentar que altera a fermentação no rúmen e melhora o aproveitamento dos nutrientes consumidos pelo animal.

Com uma digestão mais eficiente, o bovino consegue extrair mais energia da mesma quantidade de alimento, favorecendo o desempenho produtivo.

A situação da monensina gera dúvidas porque ela não integra a lista europeia de antimicrobianos reservados exclusivamente à medicina humana. Mesmo assim, especialistas avaliam que ainda existe incerteza sobre como a substância será tratada pelas autoridades europeias no caso brasileiro.

O que muda para o agronegócio brasileiro

A decisão da União Europeia evidencia uma transformação que vem ocorrendo no comércio internacional de alimentos.

Os compradores não avaliam apenas qualidade, sanidade e preço. Cada vez mais, exigem comprovação de práticas relacionadas à rastreabilidade, sustentabilidade e controle sanitário ao longo de toda a cadeia produtiva.

O episódio também expõe um desafio regulatório para o Brasil. Embora o país possua normas para o uso de medicamentos veterinários e períodos obrigatórios de carência antes do abate, especialistas apontam que parte das exigências europeias já era conhecida desde 2019.

A discussão mostra que o acesso aos mercados mais exigentes dependerá não apenas da competitividade da produção nacional, mas também da capacidade de demonstrar controle sobre fatores considerados estratégicos para a saúde pública global.

Nesse contexto, a questão da carne brasileira que vai para a União Europeia deixou de ser apenas um tema comercial. O debate passou a envolver diretamente o combate às superbactérias, uma preocupação que mobiliza governos, cientistas e sistemas de saúde em todo o mundo.

Foto de Marconi Bernardino

Marconi Bernardino

Marconi Bernardino é jornalista formado pela Unifavip Wyden, em Caruaru (PE). Integra a equipe do Economic News Brasil, com atuação na produção de conteúdos analíticos sobre negócios, mercado financeiro e fortunas, além de experiência em jornalismo para televisão e rádio.

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