A fraude contábil da Americanas entrou em uma nova etapa nesta quinta-feira (25/06). A Polícia Federal (PF) e o Ministério Público Federal (MPF) deflagraram a segunda fase da Operação Disclosure, desta vez com mandados de busca contra Jorge Paulo Lemann e Carlos Alberto Sicupira, que integravam o grupo de controle da varejista durante o período investigado.
A operação cumpre nove mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em São Paulo. A 10ª Vara Federal Criminal do Rio também determinou o sequestro de bens até R$ 54 bilhões, valor que corresponde à estimativa atual do prejuízo provocado pelas supostas manipulações contábeis investigadas pela PF.
A nova fase representa uma mudança importante na investigação. Depois de concentrar as apurações nos antigos executivos da companhia, a Polícia Federal passa a investigar também quem exercia o controle societário da Americanas quando as supostas irregularidades teriam sido praticadas.
Operação Disclosure muda o foco da investigação da Americanas
Criada em junho de 2024, a Operação Disclosure nasceu para investigar a estrutura que teria sustentado a fraude contábil revelada pela Americanas no início de 2023. Na primeira fase, a Polícia Federal cumpriu dois mandados de prisão preventiva, 15 mandados de busca e apreensão.
Além disso, bloqueou mais de R$ 500 milhões em bens de antigos executivos, incluindo o ex-presidente Miguel Gutierrez. As investigações contaram com colaboração da atual administração da companhia e até a firmação de acordos de delação premiada.
O foco daquela etapa era identificar quem teria executado o esquema dentro da empresa. Segundo a PF, as investigações apontaram manipulações envolvendo operações de risco sacado e contratos de Verba de Propaganda Cooperada (VPC). Trata-se de mecanismos que teriam permitido esconder parte do endividamento e inflar artificialmente os resultados apresentados ao mercado.
Agora, a segunda fase amplia esse escopo. Em vez de investigar apenas a atuação da antiga diretoria, a PF busca esclarecer se os antigos controladores da Americanas tinham conhecimento ou participação na fraude contábil. Segundo a corporação, há indícios, em tese, dos crimes de manipulação de mercado e associação criminosa.
Investigação avança enquanto a Americanas tenta virar a página
O avanço da investigação ocorre em um momento decisivo para a companhia. Em março deste ano, a Americanas protocolou na Justiça o pedido para encerrar sua recuperação judicial, iniciada poucos dias após a revelação das inconsistências contábeis em janeiro de 2023. A empresa afirma ter cumprido as obrigações previstas no plano aprovado pelos credores, mas o encerramento ainda depende de homologação judicial.
A recuperação judicial ficou marcada como uma das maiores já registradas no país. O plano envolveu a reestruturação de aproximadamente R$ 42 bilhões em dívidas, aportes dos acionistas de referência. Além da renegociação com credores e mudanças na estrutura operacional da varejista.
Porém, mesmo com o processo próximo do fim, a responsabilização criminal segue um caminho independente, permitindo que as investigações sobre fraude contábil da Americanas continuem avançando.
Esse contraste ajuda a explicar a relevância da nova operação. Enquanto a empresa busca demonstrar ao mercado que recuperou sua capacidade financeira, a Polícia Federal amplia a apuração sobre quem pode ter contribuído para a maior fraude contábil já revelada por uma companhia aberta brasileira.
Fraude contábil da Americanas põe controle societário no centro da apuração
A segunda fase da Operação Disclosure desloca a pergunta central da investigação. O caso deixa de tratar apenas de quem executou os lançamentos contábeis e passa a mirar quem poderia ter ciência das práticas dentro da estrutura de controle da Americanas.
Esse ponto é decisivo porque separa reestruturação financeira de responsabilização criminal. A empresa pode avançar no encerramento da recuperação judicial, mas a origem da crise segue aberta para a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a Justiça.
Com bloqueio de bens, a fraude contábil da Americanas passa a testar o limite da responsabilidade de antigos controladores em companhias abertas. Esse é o impacto que ainda pode pesar sobre governança, mercado de capitais e confiança de investidores no Brasil.





