Na última semana, a fraude da Americanas voltou ao centro do noticiário com a segunda fase da Operação Disclosure, quase três anos depois do rombo contábil que levou a varejista à recuperação judicial. No entanto, enquanto as investigações avançam, a empresa continua sua jornada para convencer o mercado de que sua reestruturação começou a produzir resultados.
A estratégia inclui redução da operação, venda de ativos, foco na geração de caixa e mudanças no modelo de negócios. Os primeiros indicadores mostram melhora operacional, mas a companhia ainda registra prejuízo e aguarda a decisão da Justiça sobre o pedido de encerramento da recuperação judicial.
Agora, o principal desafio deixou de ser apenas financeiro. A Americanas precisa provar, por meio dos resultados, que a empresa atual pode ser avaliada além da fraude que marcou sua história recente.
Como a Americanas mudou a operação após a fraude
Desde o início da recuperação judicial, a Americanas fechou mais de 400 lojas e reduziu sua rede de cerca de 1.880 para aproximadamente 1.448 unidades. A companhia concentrou investimentos nos ativos considerados estratégicos e abandonou operações que deixaram de entregar rentabilidade, reduzindo o tamanho da operação para buscar maior eficiência.
A revisão da estrutura também passou pela venda de ativos. Em fevereiro, os credores aprovaram a alienação de imóveis avaliados entre R$ 346 milhões e R$ 468 milhões, com parte dos recursos destinada à amortização antecipada de debêntures. Em maio, a empresa vendeu dez lojas deficitárias da rede Hortifruti Natural da Terra, em São Paulo, ao Oba Hortifruti por R$ 69,3 milhões.
A resposta à fraude da Americanas passou pela redução da complexidade do negócio, e não apenas pelo reforço do caixa. Segundo o diretor financeiro, Sebastien Durchon, caso as vendas da Uni.Co e das lojas do Natural da Terra já estivessem refletidas no balanço do primeiro trimestre, a dívida líquida seria 29% menor, recuando para R$ 535 milhões. A estratégia busca tornar a companhia menos intensiva em capital e ampliar sua capacidade de gerar caixa.
A nova estratégia recoloca as lojas físicas no centro do negócio
A transformação da empresa também redefine a resposta da companhia à fraude da Americanas. Em vez de priorizar a expansão do marketplace, a varejista passou a integrar o comércio eletrônico às lojas físicas, abandonando a estratégia de crescimento baseada na multiplicação de vendedores.
Segundo o presidente Fernando Soares, a companhia continuará operando um marketplace, mas concentrado em grandes parceiros com estrutura logística própria e maior capacidade de atendimento. O foco passou para o modelo O2O (online to offline), que conecta as vendas digitais às lojas por meio da retirada de produtos e das entregas realizadas pelas próprias unidades.
A mudança busca elevar a rentabilidade da operação da Americanas após o rombo provocado pela fraude. O modelo O2O apresenta margem cerca de três vezes superior à do marketplace tradicional, segundo a companhia. As lojas passaram a funcionar também como centros de distribuição, reduzindo custos logísticos e aproximando estoque, vendas e entrega.
Essa estratégia já aparece na composição das receitas.
- 95% da receita líquida passou a vir das lojas físicas.
- A participação do varejo físico subiu de 91% para 95% em um ano.
- O digital recuou de 7% para 4% da receita líquida.
Os primeiros resultados começam a sustentar a nova estratégia
Os primeiros indicadores sugerem que a reestruturação começou a produzir efeitos. No primeiro trimestre de 2026, a receita líquida cresceu 20,2%, para R$ 3,1 bilhões, enquanto o lucro bruto avançou 16,6%, alcançando R$ 834 milhões. O Ebitda ajustado voltou ao campo positivo e somou R$ 15 milhões no trimestre.
Depois da fraude da Americanas, o controle de despesas tornou-se um dos principais focos da reestruturação. Mesmo com aumento nominal dos gastos administrativos e comerciais, essas despesas passaram a representar uma parcela menor da receita, refletindo ganhos de eficiência operacional.
Apesar da melhora, a Americanas ainda encerrou o trimestre com prejuízo líquido de R$ 336 milhões nas operações continuadas, uma redução de 24,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. Segundo a companhia, o desempenho também reflete a integração entre lojas físicas e canais digitais, a melhora na relação com fornecedores, a expansão do programa Cliente A e o fortalecimento dos serviços financeiros.
Fraude da Americanas mantém a reconstrução sob pressão
A segunda fase da Operação Disclosure mostrou que a crise da varejista ainda está longe de produzir seus últimos desdobramentos. A Polícia Federal e o Ministério Público Federal aprofundam as investigações sobre a fraude contábil estimada em cerca de R$ 54 bilhões, com novos mandados de busca e apreensão e determinação de bloqueio de bens dos investigados.
A atual gestão informou que a companhia não foi alvo da operação e reiterou que continuará colaborando com as investigações. Ainda assim, a fraude da Americanas continua influenciando a forma como o mercado avalia a empresa, mesmo após a melhora dos indicadores operacionais.
Essa combinação cria um desafio que vai além do desempenho financeiro. A companhia precisa sustentar a recuperação do negócio enquanto o caso segue produzindo novos capítulos na esfera judicial, mantendo vivo um episódio que redefiniu sua relação com investidores, credores e fornecedores.





