A vitória de Keiko Fujimori recoloca o Peru diante de um desafio que vai além da política: transformar uma das economias mais resilientes da América Latina em um ambiente novamente previsível para investimentos. Após uma disputa decidida por apenas 49.641 votos, o mercado agora acompanha menos a apuração eleitoral e mais a capacidade do novo governo de reduzir a instabilidade institucional.
Com 100% das urnas apuradas, Keiko Fujimori obteve 50,135% dos votos válidos, contra 49,865% de Roberto Sánchez. O resultado ainda depende da proclamação formal do Jurado Nacional de Eleições (JNE), enquanto o adversário mantém questionamentos sobre o pleito e promete recorrer da decisão.
O principal teste do novo governo não será apenas acelerar o crescimento econômico, mas restaurar a confiança política em um país que teve oito presidentes em poucos anos. Essa combinação de fundamentos econômicos relativamente sólidos e sucessivas crises institucionais tornou o Peru um dos casos mais peculiares da América Latina.
Ao contrário da maior parte da cobertura sobre a eleição, a principal pergunta agora é outra: o que realmente muda para a economia peruana?
Por que o mercado acompanha a vitória de Keiko Fujimori?
O Peru chega à transição presidencial com uma economia sustentada principalmente pela mineração, pelas exportações e pelo investimento privado. Por isso, investidores acompanham menos o perfil ideológico do novo governo e mais sua capacidade de oferecer estabilidade regulatória e segurança jurídica.
A Fitch Ratings avaliou, antes do segundo turno, que o resultado da eleição poderia produzir cenários bastante diferentes para empresas dos setores de mineração, petróleo, gás, infraestrutura e outros segmentos intensivos em capital.
Na campanha, Keiko Fujimori defendeu políticas favoráveis ao investimento privado e prometeu ampliar a previsibilidade para empresas, discurso que foi recebido de forma positiva por parte do mercado.
Os investidores observarão principalmente:
- estabilidade política para execução de projetos;
- segurança jurídica para novos investimentos;
- continuidade de obras de infraestrutura;
- menor risco de mudanças regulatórias em setores estratégicos, como mineração e energia.
Ainda assim, nenhuma dessas expectativas elimina o principal fator de risco: a polarização política.
A economia pode avançar mesmo com a crise política?
O histórico recente mostra que a economia peruana conseguiu preservar parte de sua capacidade de crescimento mesmo durante sucessivas mudanças de governo. Essa resiliência é frequentemente atribuída ao peso das exportações minerais e à manutenção de regras relativamente estáveis para o setor produtivo.
Agora, o desafio passa a ser outro.
Keiko Fujimori assume um país dividido praticamente ao meio, com um adversário que contesta o resultado eleitoral e promete buscar a recontagem dos votos registrados no exterior. Especialistas em direito eleitoral consultados pela imprensa peruana avaliam que os recursos têm poucas chances de alterar o desfecho da eleição.
Esse ambiente pode limitar a velocidade das reformas econômicas e dificultar negociações políticas, mesmo que o novo governo mantenha uma agenda considerada mais favorável ao setor privado.
O maior risco para a economia peruana, portanto, não está nos indicadores atuais, mas na capacidade do governo de reduzir a incerteza política.
O que muda para o Brasil com a eleição no Peru?
A eleição também interessa ao Brasil por causa da integração econômica entre os dois países. Empresas brasileiras mantêm investimentos no Peru em áreas como infraestrutura, energia, mineração, serviços e logística, setores que dependem de previsibilidade institucional para ampliar projetos.
Além disso, o Peru é um dos maiores produtores mundiais de cobre, minério essencial para indústrias como eletrônicos, construção civil, energia e veículos elétricos. Mudanças no ambiente de investimentos podem influenciar a expansão desses projetos e repercutir nas cadeias produtivas da região.
Caso o novo governo consiga reduzir a instabilidade política, a tendência é de melhora no ambiente de negócios e maior confiança para investimentos de longo prazo.
Por outro lado, protestos, disputas judiciais ou dificuldades para formar consensos políticos podem prolongar a cautela dos investidores, retardando decisões importantes para a economia peruana.
A vitória de Keiko Fujimori representa, portanto, mais do que uma alternância de poder. Ela inaugura um novo ciclo em que o desempenho econômico do Peru dependerá menos do resultado das urnas e mais da capacidade de reconstruir a estabilidade institucional em um país que transformou a crise política em seu principal obstáculo ao crescimento.





