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Recuperação extrajudicial supera R$ 109 bilhões e muda estratégia das empresas

Com juros elevados e crédito mais caro, empresas recorrem cada vez mais à recuperação extrajudicial para renegociar dívidas, reduzir impactos financeiros e evitar a recuperação judicial.
Imagem de uma calculadora para ilustrar uma matéria jornalística sobre a recuperação extrajudicial.
Recuperação extrajudicial supera R$ 109 bilhões com Selic alta. (Imagem: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

A recuperação extrajudicial deixou de ser um mecanismo pouco utilizado para se tornar uma das principais alternativas de reorganização financeira no Brasil. Em 2026, as empresas que recorreram ao instrumento já somam mais de R$ 109 bilhões em dívidas, impulsionadas principalmente pelo pedido da Raízen, que busca renegociar R$ 65,1 bilhões com credores.

O avanço ocorre em um ambiente de Selic em 14,25% ao ano, que elevou o custo do crédito para empresas de diferentes setores. Muitas companhias ainda carregam financiamentos contratados durante a pandemia, quando a taxa básica de juros caiu para 2% ao ano, tornando mais difícil sustentar o serviço dessas dívidas no cenário atual.

Os números mostram que o movimento ganhou escala. Segundo o Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre), os pedidos passaram de 16 em 2021 para 84 em 2025. Apenas em 2026, outras 33 empresas já ingressaram com pedidos, abrangendo segmentos como agronegócio, indústria, mineração, logística e varejo.

Juros altos aceleram a busca por acordos com credores

Embora o aumento dos juros tenha intensificado esse movimento, especialistas apontam que a expansão também reflete mudanças na legislação.

A reforma da Lei de Recuperação Judicial, aprovada em 2020, ampliou a flexibilidade das negociações extrajudiciais. O mecanismo passou por uma mudança de percepção e hoje é utilizado também por empresas que ainda buscam preservar sua capacidade operacional antes que a situação financeira se agrave.

A legislação tornou possível concentrar as negociações apenas em determinados grupos de credores, reduzindo custos, acelerando acordos e diminuindo parte dos impactos normalmente associados à recuperação judicial.

Sendo assim, a recuperação extrajudicial permite que uma empresa renegocie dívidas diretamente com determinadas classes de credores. Após a aprovação pela maioria prevista em lei, o plano passa a valer para todos os integrantes daquele grupo, tornando o processo mais rápido e menos complexo que uma recuperação judicial tradicional.

Diferença para a recuperação judicial

O crescimento desse mecanismo também reflete seus efeitos sobre a operação das empresas.

Enquanto a recuperação judicial envolve praticamente todos os credores e costuma provocar maior desgaste reputacional, a recuperação extrajudicial permite negociações mais direcionadas, preservando parte das relações comerciais e reduzindo o impacto sobre fornecedores, clientes e acesso ao crédito.

Essa característica explica por que grandes companhias passaram a adotar o instrumento antes que a situação financeira se deteriore de forma mais severa.

Casos recentes mostram mudança no mercado

A Casas Bahia deu maior visibilidade ao mecanismo ao obter aprovação para uma recuperação extrajudicial de aproximadamente R$ 4,1 bilhões em 2024. Depois vieram operações como a da Tok&Stok e, neste ano, o GPA, que busca reorganizar cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas.

O pedido da Raízen, porém, elevou o volume financeiro envolvido e reforçou a percepção de que grandes grupos passaram a utilizar a recuperação extrajudicial como parte da gestão do passivo financeiro, e não apenas como uma medida de última instância.

Investidores passaram a avaliar com mais rigor o risco de crédito das empresas em um cenário marcado por juros elevados, conflitos geopolíticos e aumento das reestruturações corporativas. Esse ambiente tende a tornar o crédito mais seletivo e o custo de captação mais elevado para empresas com maior nível de endividamento, ampliando a importância de renegociações preventivas.

Foto de Marconi Bernardino

Marconi Bernardino

Marconi Bernardino é jornalista formado pela Unifavip Wyden, em Caruaru (PE). Integra a equipe do Economic News Brasil, com atuação na produção de conteúdos analíticos sobre negócios, mercado financeiro e fortunas, além de experiência em jornalismo para televisão e rádio.

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