A recuperação extrajudicial da Raízen entrou em uma nova etapa com a divulgação do balanço do ano-safra 2025/26 nessa segunda-feira (29/06). A companhia encerrou o exercício com prejuízo líquido de R$ 27,1 bilhões e dívida líquida de R$ 58,2 bilhões, enquanto executa um plano para reorganizar sua estrutura de capital.
O resultado reúne sinais opostos. Ao mesmo tempo em que a empresa reduziu custos, cortou investimentos e ampliou o apoio dos credores ao plano de recuperação, os indicadores mostram que a desalavancagem ainda depende da execução das medidas previstas.
O balanço marca a transição entre a aprovação da recuperação extrajudicial e o desafio de provar que ela conseguirá reduzir a pressão financeira sem comprometer a operação.
Recuperação extrajudicial da Raízen muda a forma de reorganizar a dívida
O plano protocolado pela companhia recebeu adesão de mais de 80% dos credores e combina diferentes mecanismos para reduzir a pressão financeira de curto e médio prazo. A proposta busca alongar o perfil da dívida e criar condições para diminuir a alavancagem ao longo dos próximos anos.
Entre as principais medidas previstas estão:
- Aporte de R$ 3,5 bilhões da Shell, reforçando o caixa da companhia para sustentar a execução da reestruturação financeira.
- Possibilidade de aporte adicional de R$ 500 milhões pela Aguassanta Participações, caso a acionista decida aderir ao plano.
- Conversão de 45% da dívida reestruturada em ações, reduzindo o endividamento ao substituir parte dos débitos por participação acionária.
- Refinanciamento dos 55% restantes em novos títulos de dívida, alongando os vencimentos e reduzindo a pressão de liquidez no curto e médio prazo.
- Continuidade do programa de desinvestimentos e reorganizações societárias, com foco em gerar recursos, simplificar o portfólio e fortalecer a estrutura financeira da companhia.
A recuperação extrajudicial da Raízen passa a depender da execução dessas medidas para reduzir vencimentos, reforçar o caixa e aliviar as despesas financeiras. Com a adesão dos credores já consolidada, a próxima etapa será transformar o plano em resultados concretos para a estrutura de capital da companhia.
Balanço mostra que a pressão financeira continua elevada
Os números divulgados mostram que a reestruturação ainda convive com indicadores pressionados. A dívida líquida alcançou R$ 58,2 bilhões, equivalente a 5,2 vezes o EBITDA Ajustado, enquanto o prejuízo anual chegou a R$ 27,1 bilhões.
O resultado também incorpora R$ 22,5 bilhões em impairment. Na recuperação extrajudicial da Raízen, esses ajustes ganham peso porque reduziram significativamente o patrimônio líquido, embora não representem saída imediata de caixa. Do total, R$ 12,5 bilhões refletem as incertezas sobre a continuidade operacional e R$ 10 bilhões decorrem da revisão do valor recuperável de determinados ativos.
As despesas financeiras continuaram pressionadas pelo maior endividamento, pelos juros elevados e pela exposição cambial. Esse conjunto limita a velocidade da recuperação e explica por que a companhia ainda trata a desalavancagem como prioridade.
Recuperação extrajudicial dependerá da geração de caixa
Apesar da pressão sobre o balanço, a operação apresentou alguns avanços. A companhia reduziu aproximadamente R$ 1 bilhão em custos e despesas recorrentes, cortou R$ 3,3 bilhões em investimentos e estima impacto financeiro positivo de R$ 12 bilhões com simplificação do portfólio e venda de ativos, parte já refletida nas demonstrações financeiras.
A distribuição de combustíveis no Brasil ajudou a sustentar essa melhora operacional. O EBITDA Ajustado cresceu 35,5% no ano, compensando parcialmente o resultado mais fraco do segmento de etanol, açúcar e bioenergia. Esse desempenho amplia as chances de sucesso da recuperação extrajudicial da Raízen, que dependerá de uma geração de caixa mais consistente para reduzir a alavancagem.
A partir deste ponto, o sucesso do plano dependerá menos da engenharia financeira e mais da capacidade de reduzir a dívida, preservar caixa e repetir os ganhos operacionais. Esse será o principal teste para transformar a recuperação extrajudicial em uma estrutura de capital sustentável nos próximos exercícios.





