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Estamos vivenciando a era do caos? – Por Marcos Hirano

*Coluna por Marcos Hirano, 28/02/2022

Não é mais novidade que as transformações no mundo estão cada vez mais profundas, simultâneas e aceleradas. Mas como manter a relevância nesse contexto caótico?

A não ser que você seja um ET que acabou de chegar ou passou os últimos anos desconectado, já percebeu que temos vivido tempos inéditos na humanidade. E não é só por conta das transformações tecnológicas e do digital.

Descoberta do fogo e o desenvolvimento da humanidade

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O ser humano tem uma capacidade cognitiva superior à de outras espécies que habitam a nave mãe Terra. A neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel ganhou destaque com sua pesquisa, que permitiu realizar um cálculo mais preciso da quantidade de neurônios presentes no cérebro humano – em média 86 bilhões. Mas o aspecto do estudo para o qual trago destaque foi a descoberta de que esse desenvolvimento é decorrente da maior quantidade de neurônios presentes na região do córtex cerebral, comparado a qualquer outra espécie – cerca de 80% do total ou 69 bilhões em média. E segundo sua pesquisa, essa evolução é decorrente da descoberta do fogo, que permitiu aos nossos ancestrais obterem maior e melhor nutrição ao consumir alimentos cozidos, “pré-digeridos” pelo calor, que nos liberou para outras atividades mais interessantes, além de buscar alimento para suprir a demanda energética do corpo humano, sendo que em média 25% é consumida por nossa “CPU” biológica.

Comparativo do tamanho do cérebro do Homo-sapiens e seus ancestrais. Destaque para o rápido crescimento do tamanho a partir da cocção dos alimentos. Fonte TED Suzana Herculano-Houzel

Todo o conhecimento produzido por essa inteligência foi sendo transmitido ao longo de milhões de anos, de indivíduo para indivíduo, nas inúmeras inovações que foram surgindo. Ainda que o crescimento populacional e a transmissão desse conhecimento tenham característica exponencial, a velocidade de desenvolvimento de novas tecnologias foi limitada por muito tempo à velocidade e alcance das comunicações. A grande mudança veio a partir do avanço dos computadores, das tecnologias digitais e das comunicações, que permitiram que a pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias ocorra de maneira colaborativa, entre pessoas em diversas localidades do globo, além da própria disseminação da informação, de maneira praticamente instantânea.

Dor e delícia do desenvolvimento tecnológico

O tempo recorde com que as vacinas contra a SARS-CoV-2 foram desenvolvidas; novas maneiras de se diagnosticar, tratar e combater doenças; a descentralização e democratização da produção e distribuição cultural, artística e de informação; a interação com familiares distantes em tempo real; a colaboração e intercambio de informação e conhecimento entre diferentes países e culturas; drones e robôs que fazem trabalhos que evitam exposição de pessoas à fatores de risco; a facilidade de encontrar informação vasta sobre praticamente qualquer assunto; inteligência artificial que acelera o desenvolvimento de novas tecnologias são alguns dos benefícios conquistados.

Por outro lado, há também riscos e ameaças. Os vieses dos dados utilizados para treinar os algoritmos de inteligência artificial; disseminação de informações falsas em dimensões globais; a perda de privacidade e o poder desproporcional da GAFAM – Google (Alphabet), Apple, Facebook (Meta), Amazon e Microsoft; o agravamento de desigualdades pelos desafios do acesso a todas essas inovações; o excesso de informação que inunda nossas vidas o tempo todo, são algumas das preocupações presentes.

A era do caos

Como consequência, nós humanos, individualmente mais preparados para evoluções lineares, paulatinas e consecutivas temos a tendência de ficar perdidos nesse mar de complexidades. Um termo relativamente novo, cunhado pelo futurista Jamais Cascio, tenta ilustrar melhor esse contexto: BANI, de Brittle (frágil/ quebradiço), Anxious (ansioso), Non-linear (não linear) e Incomprehensible (Incompreensível); que vem para atualizar e complementar o já conhecido VUCA, de Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo.

“As pessoas precisam de uma visão motivadora do que vem a seguir e da consciência de que mais acontecerá depois disso, que o futuro é um processo, não um destino. O futuro é um verbo e não um substantivo.” Bruce Sterling

A tendência é que pessoas mais preparadas para enfrentar esse contexto frágil, ansioso, não-linear e incompreensível consigam se sair melhor na tomada de decisões e por consequência, sofrerem menos. E como podemos nos preparar para esse cenário caótico? Algumas características importantes que não só lideranças, mas qualquer pessoa que prefira não enlouquecer sem ficar alienado deve considerar ao menos:

  • Flexibilidade e adaptabilidade frente às mudanças: não significa que temos que abandonar tudo o que já aprendemos. Mas estarmos abertos ao novo, como uma outra maneira de enxergar e fazer as coisas;

  • Respeito à diversidade, num sentido amplo, pois visões distintas e complementares contribuem para minimizar vieses e a superar limitações individuais para análise de cenários;

  • Colaboração, que assim como a diversidade, também ajuda a explorar o poder da inteligência coletiva, pois cada vez mais, ninguém consegue fazer nada sozinho;

  • Atenção às pessoas: é importante praticar escuta ativa, prestar atenção no comportamento delas, o que e como fazem as coisas, sobre o que estão pensando. Não se esqueça de considerar as características anteriores, sobretudo a diversidade – de cultura, classes socioeconômicas, ocupação, idade, experiência de vida etc. – cada um terá uma forma diferente de pensar e enxergar futuros, conforme a sua jornada individual, desde o mais imediato como por exemplo o que comerá na próxima refeição, a um momento adiante, sobre tarefas a cumprir na próxima semana, ou ainda, num horizonte mais distante, qual a viagem que fará em suas próximas férias;

  • Comunicação assertiva e transparente: esse é um assunto sempre desafiador, pois sabemos que no mundo corporativo, apesar de haver inúmeras recomendações para a prática de uma comunicação direta e transparente, nem sempre é tão fácil se sobrepor ao complexo jogo de interesses e relações. Se você lidera uma empresa ou organização, procure promover essa prática para além do discurso, exercitando esse modelo de comunicação, buscando orientação se necessário. Se você não exerce posição de liderança, procure sempre que possível identificar ambientes que promovam uma maior liberdade e respeitem a integralidade das pessoas, para se conectar com eles;

  • Manter-se realista e ter expectativas ajustadas ao que é possível atingir ou conquistar, pois sabemos que quanto maior a expectativa, maior é a chance de frustrações. E mais uma vez, num contexto caótico, com mudanças e transformações acontecendo o tempo todo, não é sagaz querer controlar o futuro ao prever com segurança o que vem pela frente.

  • Procurar focar as decisões considerando a maneira como as pessoas se comportam na realidade e não no mundo teórico ideal.

“O meu trabalho não é chegar a uma resposta final e entregá-la. Eu o vejo como manter portas ou janelas abertas. Mas quem entra ou sai pela porta, o que você enxerga pela janela, como vou saber?” Ursula K. Le Guin

“Ninguém precisa checar a cada segundo se tem um novo seguidor em suas redes sociais”. Cleo Mayumi

Referências bibliográficas

  • HERCULANO-HOUZEL, Suzana. TED: O que tem o cérebro humano de tão especial?, 2013.

  • CASCIO, Jamais. Medium: Facing the age of chaos, 2020.

  • SMITH, Scott; ASHBY, Madeline. How to Future: Leading and Sense-Making in an Age of Hiperchange. London; New York, NY: Kogan Page Inspire, 2020.

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do ENB.

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