A colheita de soja no Brasil avançou para 50,6% da área plantada até 7 de março, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O dado mostra avanço semanal acelerado, mas também expõe um descompasso: no mesmo período do ciclo anterior, o país já havia retirado 60,9% da safra das lavouras.
Esse atraso altera o ritmo da janela agrícola do Centro-Sul. À medida que os grãos deixam os campos, produtores precisam iniciar rapidamente o plantio do milho safrinha, cultura que depende de calendário preciso para evitar perdas de produtividade. A transição entre culturas ocorre sob pressão logística e climática. A leitura do calendário, porém, revela um detalhe técnico que preocupa o setor.
Avanço regional cria mapa desigual da colheita de soja no Brasil
O progresso da colheita de soja no Brasil ocorre de forma desigual entre as regiões produtoras. No Mato Grosso, maior polo da produção agrícola, os trabalhos já atingem 89,2% da área. Em Mato Grosso do Sul, o índice está próximo de 61%, segundo levantamento da Conab.
Já em outras áreas, o calendário segue mais lento. A consultoria AgRural afirma que o ritmo atual representa o avanço mais moderado desde 2022. A empresa também cita preocupação com falta de umidade em partes do Paraná e de Mato Grosso do Sul, fator que pode interferir na evolução das lavouras e no desempenho da safra. Para além do ritmo das colheitas, outra frente da safra revela pressão crescente.
Plantio do milho safrinha entra na equação da safra
Enquanto a soja brasileira sai das lavouras, as plantadeiras agrícolas já ocupam os campos. A AgRural estima que o plantio do milho safrinha alcançou 82% da área do Centro-Sul no início de março.
O avanço representa salto relevante frente aos 66% registrados na semana anterior. Ainda assim, o indicador permanece abaixo do observado no mesmo período do ano passado, quando 92% da área já havia sido semeada. Esse descompasso reduz a margem de segurança do calendário agrícola.
Interior paulista acelera máquinas para encerrar colheita
No interior de São Paulo, produtores operam em ritmo intensificado para concluir os trabalhos ainda nesta semana. No sudoeste paulista, cerca de 20% da área cultivada com soja ainda permanece nas lavouras.
A região reúne municípios agrícolas como Itapetininga, São Miguel Arcanjo, Capão Bonito e Pilar do Sul. Ali, a cultura da soja ganhou espaço nos últimos anos, muitas vezes em rotação de culturas com milho ou substituindo áreas de pastagem agrícola. Além do calendário, outro fator econômico tem acelerado as máquinas.
Preço da soja e dólar incentivam retirada rápida da safra
A recente alta das cotações da soja no mercado internacional também estimula produtores a acelerar a colheita. O cenário geopolítico no Oriente Médio elevou a percepção de risco sobre commodities agrícolas e energéticas.
Ao mesmo tempo, a valorização do dólar aumenta a atratividade das exportações brasileiras. A combinação de preços internacionais, câmbio favorável e necessidade de liberar áreas para o milho cria forte incentivo para a retirada rápida dos grãos.
No plano estrutural, a colheita de soja no Brasil revela um sistema agrícola cada vez mais dependente de sincronização entre culturas, clima e mercado. Qualquer atraso na safra principal amplia riscos sobre a segunda safra de milho e, por consequência, sobre o equilíbrio da oferta global de grãos.





