Corte da Selic voltou ao centro das apostas do mercado financeiro, mas agora em um cenário bem mais cauteloso. A poucos dias da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), investidores passaram a reduzir a probabilidade de uma queda inicial de 0,50 ponto percentual e a concentrar as projeções em um ajuste menor.
A mudança aparece nas negociações da Opção de Copom, derivativo listado na B3 que funciona como termômetro das expectativas sobre juros. No início de março, o cenário dominante era de um corte mais amplo. Em poucos dias, porém, a leitura migrou para um passo mais moderado de política monetária, e até a hipótese de manutenção da taxa básica voltou ao radar dos investidores. A mudança levanta uma dúvida central: o que alterou o cálculo do mercado?
Inflação recente enfraquece espaço para corte da Selic maior
O primeiro fator veio da leitura mais detalhada da inflação brasileira. O IPCA de fevereiro subiu 0,70%, número acima do esperado, embora a inflação acumulada em 12 meses tenha recuado para 3,81%.
O dado agregado trouxe algum alívio. No entanto, analistas concentraram atenção na composição do índice. O UBS BB descreveu o resultado como uma “surpresa altista”, apontando núcleos de inflação mais firmes e riscos adicionais vindos da energia.
A média dos cinco núcleos acompanhados pelo Banco Central avançou 0,62% no mês e ficou em 4,5% em 12 meses. Para analistas, esse comportamento reforça a percepção de que a inflação subjacente continua pressionada, especialmente em serviços. Para além do dado cheio, a dinâmica interna dos preços passou a limitar o espaço para um corte da Selic mais amplo.
Petróleo entra no cálculo do Copom e amplia cautela
O segundo vetor surgiu fora do Brasil. A alta do petróleo Brent, impulsionada pela escalada da guerra no Oriente Médio, introduziu um novo risco inflacionário no radar dos economistas.
Segundo cálculos do UBS BB, a diferença entre a gasolina doméstica e a paridade internacional teria saltado de cerca de 5% para aproximadamente 35% após a recente disparada da commodity. Em termos práticos, um reajuste de 10% nas refinarias poderia gerar impacto direto de cerca de 30 pontos-base no IPCA.
Considerando efeitos indiretos sobre combustíveis, transporte e expectativas inflacionárias, o efeito total poderia se aproximar de 50 pontos-base. A investigação, contudo, esbarra em um ponto decisivo: o Banco Central precisa avaliar se esse choque externo será temporário ou persistente.
Bancos globais passam a defender início mais gradual
Diante desse quadro, algumas casas financeiras começaram a rever suas projeções para a decisão do Copom. O Goldman Sachs, por exemplo, passou a esperar um corte de 25 pontos-base, abandonando a expectativa anterior de redução de 0,50 ponto.
O BNP Paribas seguiu caminho semelhante. O banco voltou a projetar um início mais lento do ciclo de flexibilização, avaliando que o aumento do petróleo e a incerteza geopolítica mudaram o balanço de riscos para a inflação.
Nem todos concordam com essa leitura. O JPMorgan ainda espera um corte de 0,50 ponto, argumentando que o Copom pode “olhar além do choque do petróleo” se ele for considerado transitório.
Mercado deixa de apostar em um único cenário
A principal mudança nas últimas semanas não foi apenas o tamanho esperado do corte da Selic. O que mudou foi o grau de convicção do mercado.
Até o início de março, as apostas estavam concentradas em um início mais forte do ciclo de flexibilização monetária. Agora, investidores passaram a distribuir as probabilidades entre três cenários: corte menor, corte maior ou até manutenção da taxa de juros.
No fim das contas, a decisão do Copom passa a depender de um equilíbrio delicado entre desinflação, riscos externos e a credibilidade do processo de ancoragem das expectativas. Em um ambiente de choques geopolíticos e inflação ainda irregular, o primeiro passo da política monetária pode dizer menos sobre o presente, e muito mais sobre o ritmo de todo o ciclo de juros que começa a se desenhar.



