A tensão envolvendo o Irã voltou ao centro do cenário internacional e já acende um alerta direto para o Brasil: o risco de alta no preço dos alimentos. Com forte dependência de fertilizantes importados, o país pode sentir nos supermercados, ainda em 2026, o impacto de uma crise que começa na geopolítica e avança até o custo da comida.
O efeito não começa no varejo. Ele nasce antes, no custo de produção agrícola. O Brasil importa mais de 90% dos fertilizantes que utiliza, incluindo a ureia, essencial para culturas como milho e soja. Parte desse fornecimento vem de países do Oriente Médio, diretamente expostos à instabilidade atual.
Se houver interrupções na produção ou no transporte desses insumos, o impacto chega ao campo — e, depois, ao consumidor.
Como a guerra no Irã pode encarecer alimentos no Brasil
Quando o fertilizante sobe de preço, o custo da lavoura aumenta. Isso afeta diretamente grãos como milho e soja, base da ração animal. O impacto, portanto, se espalha pela cadeia e aumenta os preços dos alimentos no Brasil.
Com ração mais cara, a produção de proteínas fica mais custosa. Frango, ovos e carne bovina tendem a reagir primeiro, já que dependem diretamente desses insumos. Esse repasse ocorre em etapas: começa no produtor, passa pelo atacado e chega ao varejo.
Segundo o Rabobank, os preços dos alimentos devem subir 4,6% até o fim de 2026, acima do avanço registrado no ano anterior.
Estreito de Ormuz concentra risco na logística global
O problema para os preços dos alimentos não está apenas na produção dos fertilizantes, mas no caminho que eles percorrem até o Brasil.
O estreito de Ormuz é uma das principais rotas marítimas do mundo e concentra o transporte de petróleo, gás e derivados — base da produção de ureia. Além disso, países como Irã e Catar dependem dessa passagem para exportar.
Se a navegação for afetada, o fluxo global de insumos pode ser interrompido, reduzindo a oferta e pressionando preços. Diferentemente de outras crises, o risco atual envolve tanto o mercado quanto a circulação física de cargas.
Dependência externa amplia vulnerabilidade do agronegócio
O Brasil é um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, mas depende de fornecedores externos para manter sua produtividade.
Além disso, mais de 90% dos fertilizantes usados no país são importados. No caso dos defensivos agrícolas, cerca de 75% também vêm do exterior.
Portanto, essa dependência faz com que choques internacionais se convertam rapidamente em aumento de custo interno. Ou seja, aumento nos preços dos alimentos no Brasil.
Segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-primas para Fertilizantes (Sinprifert), o país fica exposto a oscilações que não controla.
Relação com o Irã e o papel da ureia no abastecimento
O Irã não é o principal fornecedor do Brasil, mas tem papel estratégico na oferta de ureia, insumo essencial para a produtividade agrícola.
Em 2025, o país importou cerca de US$ 72 milhões em fertilizantes iranianos, com predominância desse composto.
O risco aumenta porque outros fornecedores relevantes, como o Catar, utilizam a mesma rota de escoamento pelo estreito de Ormuz.
Com isso, uma eventual interrupção na região não atinge apenas os preços dos alimentos no Brasil, um único país, mas compromete simultaneamente diferentes origens de fornecimento.
Sistema barter conecta exportação e importação no agro
Parte desse comércio ocorre por meio do sistema barter, em que produtores brasileiros exportam grãos e recebem insumos em troca.
O modelo funciona como uma engrenagem logística: navios saem carregados de milho e retornam com fertilizantes.
Portanto, esse fluxo reduz custos e garante abastecimento. Se houver interrupção, o impacto não é apenas comercial. Ele, portanto, afeta diretamente a chegada dos insumos ao país.
O que pode acontecer com os preços dos alimentos no Brasil nos próximos meses
O impacto no preço dos alimentos no Brasil tende a aparecer de forma gradual. Primeiro, os custos sobem no campo. Depois, parte desse aumento é repassada ao longo da cadeia.
Produtos com ciclo mais curto, como frango e ovos, reagem mais rápido. Já a carne bovina costuma responder com atraso. Ou seja, se a instabilidade persistir, o segundo semestre pode trazer nova pressão sobre o orçamento das famílias.





