Guerra entre iFood e 99Food escala com contratos milionários com restaurantes

A guerra do delivery no Brasil escala com contratos da 99Food que chegam a R$ 300 mil por restaurante em troca de restrições a concorrentes. O caso expõe uma disputa estrutural entre apps, levanta dúvidas no Cade e pode impactar preços e opções para o consumidor.
Guerra do delivery no Brasil com iFood e 99Food disputando restaurantes com dinheiro
iFood e 99Food disputam restaurantes com incentivos financeiros em meio à guerra do delivery no Brasil (Imagem: Iustrativa)

A guerra do delivery no Brasil ganhou um novo nível de agressividade. A 99Food passou a oferecer até R$ 300 mil a restaurantes em contratos com restrições de exclusividade contra concorrentes. como Keeta e Rappi. Segundo contratos revelados pela Folha de S.Paulo, o modelo envolve restrições comerciais que colocam dinheiro direto na disputa por espaço em um mercado dominado pelo iFood e sob investigação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

A escalada na guerra do delivery no Brasil não é isolada nem pontual. Ela revela uma mudança mais profunda na dinâmica do setor e no impacto sobre a concorrência no delivery no Brasil, em que aplicativos deixaram de competir apenas por usuários e passaram a disputar o controle da base de restaurantes, que define o que o consumidor vê, quanto paga e quais opções realmente existem.

Por que apps pagam para travar restaurantes

Em meio à disputa dos aplicativos de delivery no país, a lógica por trás desses contratos é econômica. Plataformas de delivery operam com efeito de rede, em que escala define competitividade. Portanto, quanto maior o número de restaurantes, maior a variedade, o que atrai mais pedidos e reforça a posição do aplicativo.

Esse ciclo cria um incentivo direto para garantir exclusividade ou limitar concorrentes. O pagamento antecipado funciona como um custo de aquisição. Tal como a 99Food vem fazendo em seu plano de expansão, em vez de investir apenas em marketing para atrair usuários, as empresas passam a investir diretamente na oferta.

O valor envolvido deixa claro o tamanho da disputa. Pagar centenas de milhares de reais por um único restaurante só faz sentido quando o objetivo é consolidar presença em um mercado onde poucos sobrevivem.

O fator iFood que explica a guerra do delivery no Brasil

A intensificação dessa disputa tem origem na estrutura do mercado. O iFood concentra a maior parte das operações no Brasil, o que cria uma barreira relevante para novos entrantes.

Esse domínio já levou o Cade a intervir, limitando contratos de exclusividade da plataforma em 2023. Ainda assim, o modelo continua sendo uma das principais ferramentas competitivas do setor e principal incentivador da guerra entre empresas de delivery no Brasil

O que muda agora é o comportamento dos concorrentes. Empresas como 99Food e Keeta, que se envolvem em seus próprios atritos envolvendo anúncios no Google, passaram a adotar estratégias mais agressivas para ganhar escala rapidamente, replicando, em alguma medida, práticas que antes criticavam.

Quando contratos de exclusividade viram problema de concorrência

O avanço dessas estratégias levou o Cade a abrir investigação para avaliar se os contratos da 99Food configuram prática anticoncorrencial por meio de exclusividade no delivery. O ponto central não está apenas na existência de exclusividade, mas na forma como ela é construída.

Quando incentivos financeiros são condicionados a restrições comerciais, o efeito pode ir além de uma escolha voluntária do restaurante. A dependência econômica pode limitar, na prática, a liberdade de atuação.

Esse é o ponto mais sensível da análise regulatória. Mesmo sem proibição formal ampla, a combinação de dinheiro e restrição pode produzir um ambiente menos competitivo e ampliar divergências entre aplicativos de delivery, não trazendo “paz” para essa “guerra” no Brasil.

O impacto que não aparece de imediato

Para os restaurantes, o modelo oferece capital imediato, mas reduz margem de manobra. Ao aceitar restrições, o estabelecimento limita sua presença em outras plataformas e concentra risco em um único canal.

Para o consumidor, o efeito é indireto, mas relevante. Menos concorrência entre aplicativos reduz a pressão por preços mais baixos, promoções e melhoria de serviço. A variedade de opções também pode diminuir ao longo do tempo.

Esse impacto não é imediato. Ele aparece conforme o mercado se consolida e as alternativas se tornam mais restritas.

Uma guerra que redefine o mercado de delivery no Brasil

A guerra do delivery no Brasil deixou de ser uma disputa por taxa de entrega ou marketing. Ela passou a girar em torno de contratos, acesso à oferta e controle do ecossistema de restaurantes.

O caso envolvendo a 99Food expõe essa mudança de forma clara. A disputa envolve empresas globais, estratégias de longo prazo e um mercado em que ganhar escala rapidamente pode determinar quem permanece relevante.

A decisão do Cade será determinante para definir até onde essas práticas podem avançar. O que está em jogo não é apenas a relação entre aplicativos e restaurantes, mas o formato de concorrência e o uso de contratos de exclusividade nodelivery que vão prevalecer no mercado brasileiro.

Foto de Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista formado pela Faculdade Estácio e pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação em economia e negócios. Integra as equipes editoriais do Economic News Brasil e do J1, veículos que compõem o Sistema BNTI de Comunicação. Sua atuação é fundamentada em sólida experiência em jornalismo editorial e comunicação institucional.

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