A confiança do comércio subiu para 86,2 pontos em abril, mas a queda da demanda futura pelo terceiro mês consecutivo acende um alerta no varejo, aponta a Sondagem da Indústria, publicada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV IBRE), nesta quarta-feira (29/04). De acordo com a publicação, o avanço de 1,6 ponto reflete uma melhora no presente, não uma recuperação sustentável.
O setor entra no segundo trimestre pressionado por juros elevados e inflação, que limitam o consumo. O dado, portanto, revela um desequilíbrio: vendas do varejo reagem no curto prazo, enquanto a expectativa de demanda segue enfraquecendo.
Confiança do comércio melhora no presente, mas não muda a tendência
A alta da confiança do comércio em abril foi sustentada pela percepção sobre o momento atual. O Índice de Situação Atual avançou 3,2 pontos, indicando melhora no fluxo imediato de vendas.
Os principais vetores da alta foram:
- Volume de demanda atual: +5,6 pontos
- Situação atual dos negócios: +0,8 ponto
- Avanço em quatro dos seis segmentos pesquisados
O movimento interrompe uma sequência de quedas, mas não indica virada. A média móvel trimestral recuou 1,7 ponto, mostrando que a trajetória segue enfraquecida.
Queda da demanda futura limita reação e expõe fragilidade do varejo
O ponto mais relevante do indicador de confiança do comércio em abril está nas expectativas. Mesmo com estabilidade no índice geral, a composição revela deterioração da demanda projetada.
Os sinais mais críticos:
- Demanda futura caiu 3,0 pontos
- Recuo pelo terceiro mês consecutivo
- Índice de expectativas ficou em 85,1 pontos
Ao mesmo tempo, o indicador de tendência dos negócios subiu 2,9 pontos, criando uma divergência interna.
Na prática, o comércio até projeta continuidade da atividade, mas, semelhante ao fim de 2025, não enxerga fôlego e sustentação no consumo, o que limita decisões de estoque, crédito e expansão.
Juros altos e inflação mantêm pressão sobre consumo e confiança
A leitura da FGV IBRE aponta que o ambiente macroeconômico continua sendo o principal freio para o setor. O consumo segue condicionado por restrições financeiras que limitam a capacidade de compra das famílias.
Juros elevados encarecem o crédito e reduzem o acesso a financiamentos, especialmente para compras de maior valor. Ao mesmo tempo, a inflação corrói o poder de compra, comprimindo o orçamento e forçando cortes no consumo recorrente.
Esse efeito combinado reduz a demanda de forma mais ampla e sustenta a percepção de fragilidade, mesmo diante de uma melhora da confiança do comércio em abril provocada por melhora pontual nas vendas no presente.
A análise por tipo de consumo reforça esse quadro:
- Bens duráveis (como eletrodomésticos, veículos e móveis) perderam fôlego no início de 2026;
- Bens não duráveis (como alimentos, bebidas como leite e produtos de higiene) devolveram parte dos ganhos recentes;
- Bens semiduráveis (como roupas, calçados e tecidos) seguem com menor nível de confiança.
Além disso, os bens duráveis, mais dependentes de crédito, indicam maior exposição do varejo às condições financeiras, funcionando como um termômetro antecipado da desaceleração.
O que a confiança do comércio em abril revela sobre o risco no varejo
A alta da confiança do comércio em abril não altera o quadro estrutural. O indicador mostra um setor que reage no curto prazo, mas ainda sem base para sustentar crescimento de forma consistente.
O ponto central para a leitura da FGV está no descompasso entre presente e futuro. As vendas mostram alguma recuperação imediata, mas as expectativas seguem em deterioração em um ambiente de juros elevados e renda pressionada, o que limita a continuidade desse movimento.
No fim, o dado é menos sobre recuperação e mais sobre risco. A confiança do comércio em abril sobe, mas não sinaliza virada. Sem melhora nas condições de consumo, o setor continua exposto a uma retomada incompleta e vulnerável.



