Selic se aproxima do limite: até onde os juros ainda podem cair com inflação pressionada

O Comitê de Política Monetária (Copom) deve cortar a Selic, mas inflação em alta e expectativas desancoradas indicam que o ciclo de queda está perto do limite. O mercado já projeta juros entre 12% e 13%, com menor espaço para novos cortes.
Fachada do Banco Central do Brasil em Brasília sob céu nublado
Sede do Banco Central, em Brasília, onde o Copom define a taxa Selic em meio a pressões inflacionárias (Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

Até onde a taxa Selic pode cair deixou de ser uma projeção e virou a principal dúvida do mercado. O corte de 0,25 ponto percentual esperado para esta semana já é consenso, mas a inflação em alta e as expectativas fora da metacolocam um limite cada vez mais claro para a continuidade da queda dos juros.

O foco deixou de ser a decisão imediata e passou a ser o que acontece depois. O Banco Central entra na nova reunião nos dias 28 e 29/04 pressionado por um cenário que piorou rapidamente, o que levanta uma nova questão: a Selic vai continuar caindo ou o ciclo está perto do fim?

Qual o limite de até onde a Selic pode cair no ciclo atual

Nesta segunda-feira (27/04), as projeções de mercado já indicam um intervalo mais restrito para a taxa básica de juros. Estimativas baseadas no Boletim Focus, publicado pelo Banco Central do Brasil, e em análises de grandes bancos apontam a Selic entre 12% e 13% ao fim do ciclo, dependendo do comportamento da inflação e das expectativas.

Esse intervalo revela uma mudança importante: o mercado deixou de projetar quedas prolongadas e passou a trabalhar com um cenário de desaceleração ou até interrupção dos cortes.

Inflação muda o cenário e encurta o ciclo de queda

Desde a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) em março, os dados passaram a trabalhar contra novos cortes. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,88% em março e atingiu 4,14% em 12 meses, enquanto as projeções seguem avançando.

O Boletim Focus já aponta inflação de 4,86% em 2026, acima do teto da meta de 4,5%. Mais relevante que o nível é a trajetória: a alta vem sendo revisada semana após semana, sem sinal de estabilização.

Esse movimento reduz o espaço para a política monetária. Quando a inflação projetada sobe de forma persistente, o Banco Central perde margem para estimular a economia sem comprometer a credibilidade.

Expectativas desancoradas colocam um freio nos juros

O principal limite para até onde a Selic pode cair hoje não está apenas nos dados correntes, mas na forma como o mercado enxerga o futuro da inflação.

Economistas de instituições como Citi, Santander, BTG Pactual e Sofisa apontam que as expectativas seguem se afastando da meta de 3%. Esse processo altera o comportamento da economia real.

Empresas passam a reajustar preços com mais frequência, trabalhadores pressionam salários e a inflação ganha inércia. Nesse ambiente, cortar juros deixa de ser apenas um estímulo e passa a carregar risco de prolongar o problema.

Esse é o ponto central ignorado pela maior parte da cobertura: a Selic pode até cair agora, mas o custo de continuar cortando aumentou.

Petróleo e serviços mantêm a pressão ativa

O cenário externo também adiciona incerteza. Estimativas indicam que uma alta de 10% no petróleo, logo após a recém queda, pode elevar o IPCA entre 0,2 e 0,4 ponto percentual, o que mantém o risco inflacionário ativo.

Ao mesmo tempo, a inflação de serviços segue resistente, sustentada por um mercado de trabalho ainda aquecido. Diferente de choques pontuais, esse tipo de pressão tende a ser mais duradoura.

Na prática, isso significa que o Banco Central enfrenta um ambiente em que a inflação não recua com facilidade, o que exige mais cautela na condução dos juros.

Mercado já sinaliza: a Selic pode parar de cair

Mesmo com o corte esperado nesta semana, o próprio mercado indica que o ciclo pode estar perto do limite. As projeções para a Selic seguem próximas de 13% ao fim deste ano e cerca de 11% em 2027, sem revisões recentes para níveis mais baixos.

Esse comportamento revela um ponto importante: não há mais expectativa de cortes prolongados como no início do ciclo. O ritmo tende a desacelerar, e a possibilidade de pausa ganha força.

Em outras palavras, a pergunta deixou de ser quanto a Selic vai cair e passou a ser se a Selic vai parar de cair antes do esperado.

Copom testa o limite da política monetária

A decisão desta semana funciona como um teste. O Banco Central precisa equilibrar dois objetivos que começam a entrar em conflito: estimular a atividade e manter a inflação sob controle.

Se a deterioração das expectativas continuar, o espaço para novos cortes pode desaparecer rapidamente. Em um cenário mais adverso, o ciclo pode ser interrompido ou até revertido.

Por isso, o corte desta reunião não é apenas mais um passo no ciclo. Ele pode marcar a transição para uma fase mais restritiva, em que cada decisão passa a ser condicionada ao risco de perda de controle inflacionário.

Até onde a Selic pode cair agora

Com inflação pressionada, expectativas em alta e novos riscos no radar, o limite da taxa Selic se aproxima mais rápido do que o mercado projetava semanas atrás.

Hoje, o cenário mais provável concentra a taxa básica entre 12% e 13% ao fim do ciclo, com pouca margem para cortes adicionais caso a inflação continue surpreendendo para cima.

Na prática, isso significa que a resposta para até onde a Selic pode cair já não depende apenas da atividade econômica, mas principalmente da capacidade de conter a inflação, um fator que, neste momento, joga contra novos cortes.

Foto de Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista formado pela Faculdade Estácio e pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação em economia e negócios. Integra as equipes editoriais do Economic News Brasil e do J1, veículos que compõem o Sistema BNTI de Comunicação. Sua atuação é fundamentada em sólida experiência em jornalismo editorial e comunicação institucional.

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