A discussão sobre o fim da escala 6×1 começa a revelar um efeito que vai além da jornada de trabalho. Enquanto grandes redes avaliam que conseguem adaptar suas operações sem repassar custos ao consumidor, pequenos estabelecimentos podem enfrentar dificuldades para reorganizar equipes e manter o atendimento diário.
O alerta foi feito por João Galassi, presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), em entrevista à CNN Brasil, durante o debate sobre a proposta que altera o modelo de trabalho adotado por grande parte do varejo brasileiro. A entidade entende que os efeitos não serão iguais para todas as empresas.
A diferença de capacidade de adaptação entre grandes e pequenos operadores pode alterar a concorrência do setor e ampliar a participação de grupos que possuem mais recursos financeiros e operacionais.
Por que pequenos supermercados enfrentam mais dificuldades com o fim da escala 6×1
Segundo a Abras, os estudos realizados pela entidade analisaram diferentes formatos de jornada, incluindo os modelos 12×36 e 5×2, mantendo a carga de 44 horas semanais.
Os testes indicaram boa aceitação entre os trabalhadores e viabilidade operacional para parte do setor.
“Se nós mantivermos as 44 horas, o colaborador terá que fazer 4 horas distribuídas em 5 dias“, explicou.
Nesse formato, a entidade avalia que o setor pode absorver a mudança sem repassar custos para os consumidores. A situação muda caso as empresas tenham de assumir horas adicionais sem compensação.
João Galassi afirmou que os gastos extras acabariam chegando ao caixa das empresas e poderiam afetar a operação de negócios menores.
Entre os estabelecimentos mais expostos estão:
- pequenos supermercados;
- padarias de bairro;
- açougues;
- lojas com equipes reduzidas.
“Elas não conseguem fazer uma escala 5 por 2, muito menos reduzindo para 40 horas“, disse.
A dificuldade está relacionada ao número limitado de funcionários disponíveis para cobrir folgas e manter o atendimento durante toda a semana.
O que pode acontecer com mercados de bairro
A mudança discutida no Congresso pode produzir efeitos diferentes conforme o tamanho da empresa.
Grandes redes costumam contar com centenas ou milhares de funcionários distribuídos em várias unidades. Isso facilita a reorganização das escalas e reduz o impacto operacional de alterações na jornada.
Nos mercados de bairro, a situação é diferente.
Muitos estabelecimentos operam com equipes enxutas e dependem da presença diária de funcionários em funções específicas. A ausência de um colaborador pode exigir contratação adicional ou aumento das despesas com cobertura de turnos.
Entre os riscos avaliados pelo setor estão:
- aumento do custo operacional;
- necessidade de novas contratações;
- dificuldade para preencher escalas;
- perda de competitividade frente às grandes redes.
Caso a adaptação ocorra de forma desigual, empresas maiores podem ampliar participação no mercado enquanto pequenos operadores enfrentam mais obstáculos para manter margens e capacidade de investimento.
Estrutura do varejo brasileiro amplia o desafio
A preocupação da Abras está ligada a uma característica do próprio mercado nacional.
Enquanto alguns países possuem elevada concentração empresarial, o setor supermercadista brasileiro continua distribuído entre milhares de companhias.
Segundo João Galassi:
- Chile e Peru possuem entre 80% e 90% do faturamento concentrado em três empresas;
- no Brasil, são necessárias mais de mil empresas para alcançar cerca de 60% do faturamento do segmento.
Para o presidente da Abras, essa característica exige atenção especial às condições de adaptação dos pequenos empreendedores.
A avaliação da entidade é que mudanças trabalhistas precisam considerar essa estrutura para evitar dificuldades adicionais aos negócios de menor porte.
Abras defende transição gradual e contrato horista
A associação propõe que uma eventual redução da jornada semanal de 44 para 40 horas seja implementada gradualmente.
A ideia é sincronizar a mudança com a conclusão da reforma tributária prevista para 2033.
Segundo João Galassi, a adoção da cesta básica nacional com alíquota zero de impostos poderia ajudar a compensar parte dos custos adicionais enfrentados pelas empresas.
Outra proposta apresentada pela entidade é a criação do contrato horista.
De acordo com a Abras, o modelo permitiria:
- formalizar trabalhadores atualmente informais;
- ampliar a flexibilidade operacional;
- preservar férias;
- manter o 13º salário;
- garantir depósitos de FGTS.
De acordo com o presidente da Abras, o formato preservaria direitos trabalhistas, como férias, 13º salário e FGTS, ao mesmo tempo em que ofereceria maior flexibilidade para empregadores e empregados.
Para a entidade, a discussão precisa envolver empresários, governo e Congresso. João Galassi afirmou que existe concordância em diversos setores sobre a redução da jornada de trabalho, mas defendeu uma implementação gradual para reduzir efeitos sobre empresas, empregos e preços.
Nesse ambiente, o fim da escala 6×1 passa a envolver não apenas relações de trabalho, mas também a capacidade de sobrevivência dos pequenos negócios e a concorrência futura do varejo alimentar brasileiro.





