IPO da Compass testa volta da B3 após quase 5 anos sem estreias

O IPO da Compass recoloca a B3 no radar das ofertas públicas após quase cinco anos sem estreias. A operação testa o apetite do mercado em um cenário ainda pressionado por juros elevados e incertezas fiscais.
Imagem da fachada da B3 para ilustrar uma matéria jornalística sobre o IPO da Compass.
IPO da Compass testa retomada da B3 após quase 5 anos sem IPOs. (Imagem: divulgação/B3)

O IPO da Compass encerra quase cinco anos sem novas estreias na B3, a bolsa brasileira, e virou o principal teste do mercado para medir se a janela de ofertas públicas começou realmente a reabrir no país. A empresa passou a negociar ações nesta segunda-feira (11) na B3 sob o código PASS3.

A operação movimentou até R$ 3,2 bilhões e avaliou a Compass em cerca de R$ 20 bilhões, mas o preço saiu no piso da faixa indicativa, a R$ 28 por ação. O movimento expôs uma realidade que ainda limita a bolsa: investidores voltaram a olhar IPOs, porém seguem extremamente seletivos.

Mesmo após o fim do jejum da B3, o ambiente permanece distante da euforia observada entre 2020 e 2021. A Selic em 14,5% ao ano continua drenando recursos para a renda fixa e reduzindo espaço para empresas de maior risco acessarem o mercado.

Por que o IPO da Compass virou termômetro da bolsa brasileira

A estreia da Compass ocorre em um dos cenários mais difíceis para abertura de capital desde a crise de 2015. O último IPO da B3 havia acontecido em setembro de 2021, antes do ciclo agressivo de alta de juros no Brasil.

Desde então, o mercado passou por mudanças profundas:

  • disparada da Selic;
  • deterioração fiscal;
  • queda da bolsa;
  • fuga de investidores estrangeiros;
  • aumento da aversão ao risco.

O efeito foi imediato. Empresas interromperam planos de listagem e o mercado brasileiro praticamente fechou para novas ofertas.

Nesse contexto, a Compass virou um teste relevante para medir se investidores institucionais voltariam a aceitar operações de renda variável, mesmo com o custo do dinheiro ainda elevado.

A demanda evitou um fracasso da oferta. O IPO da Compass precisou inclusive ser ampliado com lotes adicionais, aumentando o valor inicialmente previsto em cerca de R$ 700 milhões.

Ainda assim, o mercado deixou claro que a reabertura da janela não significa retorno automático da euforia.

Preço no piso mostra que investidores ainda impõem desconto

Apesar do interesse institucional, as ações da Compass foram precificadas no piso da faixa indicativa. O mercado aceitava pagar até R$ 35 por papel, mas a operação saiu a R$ 28.

O movimento revelou uma mudança importante no comportamento dos investidores.

Durante o boom de IPOs em 2020 e 2021, empresas conseguiam estrear com múltiplos elevados e forte demanda especulativa. Agora, o investidor exige desconto maior e prioriza companhias consideradas defensivas.

No caso da Compass, alguns fatores ajudaram a sustentar a oferta:

  • receita previsível;
  • atuação em infraestrutura;
  • controle da Comgás;
  • geração recorrente de caixa;
  • exposição ao mercado de gás natural.

A empresa opera cerca de 28 mil quilômetros de rede de distribuição e atende aproximadamente 3,1 milhões de clientes.

O mercado passou a enxergar a Compass como uma companhia mais protegida da desaceleração econômica, diferente de empresas ligadas ao varejo ou consumo discricionário. Essa leitura explica por que justamente uma empresa de infraestrutura conseguiu reabrir a janela da B3 antes de setores mais sensíveis aos juros.

IPO da Compass também ajuda Cosan a aliviar dívida

Outro ponto observado pelo mercado foi o formato da operação. O IPO da Compass é totalmente secundário, sem emissão de novas ações.

Na prática, os recursos levantados não entram no caixa da Compass. O dinheiro vai para acionistas vendedores, principalmente a Cosan (CSAN3).

A controladora reduzirá sua participação de 88% para até 75,37%, dependendo do exercício do lote adicional.

O movimento ocorre em um momento de pressão financeira sobre o grupo, que busca reduzir endividamento em meio ao aumento do custo da dívida e à volatilidade de ativos ligados ao setor de energia.

Entre os fatores monitorados pelo mercado estão:

  • juros elevados;
  • maior custo financeiro;
  • necessidade de desalavancagem;
  • pressão sobre margens;
  • cenário mais difícil para captação.

Esse contexto fez parte dos investidores interpretar a operação menos como expansão da Compass e mais como uma reorganização financeira da Cosan.

O que o IPO da Compass muda para outras empresas da B3

O sucesso da operação pode influenciar outras empresas que aguardam uma melhora das condições para acessar a bolsa brasileira.

Gestores avaliam que o IPO da Compass pode funcionar como referência para setores considerados mais resilientes, especialmente:

  • infraestrutura;
  • energia;
  • saneamento;
  • logística;
  • utilities.

A leitura predominante no mercado é que companhias com fluxo de caixa previsível e menor volatilidade possuem mais chances de atrair investidores neste ambiente. Por outro lado, empresas de tecnologia, varejo e consumo ainda enfrentam dificuldade maior para convencer gestores a assumir risco adicional enquanto a Selic permanecer elevada.

A retomada mais ampla do mercado de capitais continua diretamente ligada à trajetória dos juros brasileiros. As projeções atuais apontam a Selic próxima de 13% ao ano no fim deste ano e perto de 11% em 2027. Esse movimento tende a melhorar o ambiente para novas ofertas públicas.

A lógica financeira é simples:

  • juros menores reduzem atratividade da renda fixa;
  • investidores buscam ativos de maior retorno;
  • bolsa ganha liquidez;
  • valuations melhoram;
  • IPOs voltam a ficar viáveis.

Mesmo assim, o mercado ainda demonstra cautela diante das incertezas fiscais no Brasil e da volatilidade internacional provocada pelas tensões geopolíticas e comerciais.

Por isso, a estreia da Compass é vista menos como confirmação de uma nova onda de IPOs e mais como o primeiro grande teste da bolsa brasileira após anos de paralisação.

Foto de Marconi Bernardino

Marconi Bernardino

Marconi Bernardino é jornalista formado pela Unifavip Wyden, em Caruaru (PE). Integra a equipe do Economic News Brasil, com atuação na produção de conteúdos analíticos sobre negócios, mercado financeiro e fortunas, além de experiência em jornalismo para televisão e rádio.

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