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Terras raras no Brasil escondem riqueza bilionária ainda fora do mercado

O Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do mundo, mas ainda produz quase nada. Falta tecnologia industrial e domínio do refino travam o avanço do setor.
Imagem da uma mineradora para ilustrar uma matéria jornalística sobre Terras raras no Brasil.
Brasil tem terras raras bilionárias, mas ainda produz quase nada. (Imagem: reprodução/Agência Senado)

O Brasil entrou definitivamente no centro da disputa global por minerais estratégicos após o avanço do interesse americano sobre suas reservas de terras raras. O problema é que o país ainda não possui tecnologia industrial para transformar esse potencial em produção relevante.

Enquanto Estados Unidos e China disputam o controle da cadeia global de minerais usados em carros elétricos, turbinas, chips e armamentos, o Brasil enfrenta um gargalo considerado decisivo pelo setor mineral: a ausência de capacidade de processamento em escala industrial.

A corrida pelas terras raras no Brasil ganhou força porque o país possui mais de 20 milhões de toneladas desses minerais estratégicos, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Trata-se da segunda maior reserva mundial, atrás apenas da China.

Apesar disso, o Brasil exportou somente 20 toneladas em 2024, volume praticamente irrelevante diante das cerca de 390 mil toneladas produzidas globalmente no período.

O contraste expõe um problema que vai além da mineração. O país possui reservas gigantescas, mas ainda depende de tecnologia estrangeira para transformar os minerais em produtos de alto valor agregado.

Falta de tecnologia trava avanço das terras raras no Brasil

O principal obstáculo não está na extração do minério, mas no refino industrial necessário para separar os elementos químicos com alto grau de pureza.

Minerais como neodímio e praseodímio aparecem misturados em areias, argilas e rochas e exigem centenas de etapas industriais até se tornarem utilizáveis pela indústria tecnológica.

Para o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), o processo exige uma estrutura industrial extremamente sofisticada.

Hoje, o Brasil consegue executar parte dessa separação apenas em escala laboratorial. O país ainda não possui refinarias industriais capazes de competir globalmente.

O gargalo envolve:

  • infraestrutura industrial limitada;
  • alto custo energético;
  • ausência de refinarias especializadas;
  • baixa capacidade tecnológica;
  • dependência de pesquisa avançada;
  • falta de cadeia produtiva integrada.

Especialistas do setor afirmam que construir uma indústria competitiva de terras raras pode levar mais de uma década e exigir investimentos bilionários em tecnologia e energia.

China domina o refino global e preocupa os EUA

A disputa internacional pelas reservas brasileiras aumentou porque a China controla justamente a etapa mais estratégica da cadeia: o processamento industrial.

O país asiático responde por cerca de dois terços da produção mundial e domina a tecnologia necessária para transformar terras raras em componentes utilizados pela indústria global.

Esses minerais são considerados críticos para:

  • carros elétricos;
  • baterias;
  • turbinas eólicas;
  • semicondutores;
  • inteligência artificial;
  • sistemas militares;
  • mísseis e radares.

O avanço da transição energética e da indústria de defesa ampliou a pressão global sobre o fornecimento desses materiais.

A dependência chinesa passou a ser vista como risco estratégico pelos Estados Unidos, principalmente após o agravamento da disputa tecnológica entre Washington e Pequim.

EUA ampliam ofensiva bilionária no setor mineral brasileiro

Os Estados Unidos passaram a enxergar o Brasil como uma das principais alternativas para reduzir sua dependência da China no mercado de minerais críticos.

Um representante da embaixada americana afirmou que empresas dos EUA já investiram mais de US$ 600 milhões em projetos ligados às terras raras brasileiras.

O movimento ganhou força após Washington assinar um memorando com o estado de Goiás para incentivar a mineração do setor.

A principal operação ocorreu quando a americana USA Rare Earth adquiriu a Serra Verde, responsável pela única mina de terras raras em operação no Brasil.

O negócio foi fechado por cerca de US$ 2,8 bilhões.

Além dos americanos, empresas australianas e grupos chineses também avançam sobre projetos minerais brasileiros, ampliando a disputa internacional por reservas estratégicas.

Governo Lula tenta evitar perda de controle sobre riqueza mineral

O avanço estrangeiro elevou a pressão política sobre o governo brasileiro e ampliou o debate sobre soberania mineral.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que pretende negociar com diferentes países, mas ressaltou que o controle das riquezas minerais continuará nas mãos do Brasil.

A discussão ganhou intensidade após a Câmara dos Deputados aprovar um projeto que cria incentivos fiscais ao setor e amplia o poder do Executivo sobre acordos com empresas estrangeiras.

O texto permite ao governo vetar contratos por razões de segurança econômica ou geopolítica.

O setor privado reagiu com preocupação. Representantes da mineração avaliam que regras excessivamente rígidas podem reduzir investimentos justamente no momento em que o país tenta desenvolver sua cadeia industrial.

A tensão envolve interesses distintos:

  • atração de capital estrangeiro;
  • proteção de recursos estratégicos;
  • industrialização nacional;
  • segurança econômica;
  • independência tecnológica.

Boom das terras raras ainda está longe de acontecer

Apesar das reservas gigantescas, o Brasil ainda está distante de se tornar um fornecedor global relevante de terras raras.

O país enfrenta dificuldades estruturais que vão além da mineração e atingem diretamente a indústria, a energia e a tecnologia.

Hoje, os principais desafios incluem:

  • ausência de tecnologia de refino;
  • dependência externa;
  • custo industrial elevado;
  • infraestrutura limitada;
  • insegurança regulatória;
  • baixa escala produtiva.

O risco é repetir um modelo histórico da economia brasileira: exportar matéria-prima barata enquanto outros países concentram processamento, tecnologia e produtos de maior valor agregado.

Por isso, o verdadeiro desafio das terras raras no Brasil não está apenas no tamanho das reservas, mas na capacidade de transformar riqueza mineral em uma indústria estratégica capaz de competir globalmente.

Foto de Marconi Bernardino

Marconi Bernardino

Marconi Bernardino é jornalista formado pela Unifavip Wyden, em Caruaru (PE). Integra a equipe do Economic News Brasil, com atuação na produção de conteúdos analíticos sobre negócios, mercado financeiro e fortunas, além de experiência em jornalismo para televisão e rádio.

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