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PCC e CV entram na lista de terroristas; Lincoln Gakiya vê risco ao sistema financeiro

Lincoln Gakiya afirma que a classificação do PCC e do CV como terroristas pelos EUA pode gerar consequências além do combate ao crime e alcançar bancos, fundos e operações financeiras brasileiras.
Imagem de Lincoln Gakiya para ilustrar uma matéria jornalística sobre Terroristas do PCC e CV
Maior investigador do PCC, Lincoln Gakiya vê risco para bancos do Brasil.

A decisão do governo de Donald Trump de classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas acendeu um alerta que vai além da segurança pública. Para o promotor Lincoln Gakiya, um dos principais especialistas no combate ao crime organizado no país, a medida pode criar riscos para instituições financeiras brasileiras.

Segundo ele, o enquadramento abre espaço para que autoridades americanas ampliem sanções a empresas, fundos e operações que tenham mantido relações com estruturas investigadas por supostos vínculos financeiros com as facções. O impacto potencial alcançaria um setor muito maior que os grupos criminosos.

O alerta ganhou peso porque parte justamente de um dos nomes mais associados às investigações sobre o PCC nas últimas duas décadas. A preocupação deixa de ser apenas policial e passa a envolver o funcionamento do sistema financeiro brasileiro.

Por que o alerta de Lincoln Gakiya preocupa o mercado

Durante participação na Brazil Conference, realizada por estudantes de Harvard e do MIT nos Estados Unidos, Lincoln Gakiya afirmou que a legislação americana permite medidas amplas quando uma organização é enquadrada como terrorista.

O promotor citou o exemplo de instituições que comercializaram produtos financeiros ligados a empresas investigadas por supostas conexões com recursos do PCC. Segundo ele, praticamente todo o sistema bancário participa da distribuição de ativos financeiros, o que amplia o alcance potencial de eventuais sanções.

A preocupação não está apenas nos investigados diretamente. O temor é que instituições que participaram de operações consideradas regulares à época passem a enfrentar questionamentos ou restrições em razão do novo enquadramento adotado pelos Estados Unidos.

Entre os possíveis efeitos apontados por especialistas do mercado estão:

  • aumento dos custos de compliance;
  • maior monitoramento de operações internacionais;
  • pressão regulatória sobre instituições financeiras;
  • riscos reputacionais para bancos e gestoras;
  • restrições em determinadas transações internacionais.

O que muda com a classificação de PCC e CV como terroristas

Embora considere as facções extremamente perigosas, Gakiya afirma não enxergar ganhos relevantes para as investigações conduzidas no Brasil.

Segundo o promotor, a legislação brasileira já passou por mudanças importantes com a aprovação da Lei Antifacção, que ampliou instrumentos de combate financeiro ao crime organizado e endureceu punições contra organizações criminosas.

Na avaliação dele, os mecanismos atualmente disponíveis já permitem uma atuação forte das autoridades.

Entre eles estão:

  • bloqueio de bens;
  • rastreamento patrimonial;
  • apreensão de ativos;
  • cooperação internacional;
  • mecanismos de asfixia financeira das organizações criminosas.

Por isso, o promotor entende que a principal consequência da decisão americana pode estar menos na investigação criminal e mais nos reflexos econômicos e financeiros que ela poderá produzir.

O risco de transformar investigações em questão de segurança nacional

Outro ponto levantado por Gakiya envolve a cooperação internacional entre Brasil e Estados Unidos.

Hoje, grande parte das informações é compartilhada entre órgãos de investigação, como a Polícia Federal e o FBI. Com a classificação de terrorismo, parte desse fluxo pode migrar para estruturas ligadas à inteligência e à segurança nacional americana.

Informações que poderiam ser utilizadas como prova em processos criminais podem passar a ser tratadas como material estratégico ou sigiloso.

Segundo o promotor, isso cria uma situação delicada. Dados relevantes para investigações brasileiras poderiam ficar submetidos a restrições próprias da segurança nacional dos Estados Unidos, dificultando seu uso em ações judiciais.

A avaliação de Gakiya é que a mudança pode produzir um efeito colateral inesperado. Uma medida criada para ampliar a pressão sobre as facções teria potencial para atingir áreas que vão muito além do crime organizado.

O debate sobre os grupos terroristas, como PCC e CV, passa, assim, a envolver não apenas o combate às maiores facções do país, mas também possíveis impactos sobre bancos, fundos, cooperação internacional e a relação entre o sistema financeiro brasileiro e as autoridades dos Estados Unidos.

Foto de Marconi Bernardino

Marconi Bernardino

Marconi Bernardino é jornalista formado pela Unifavip Wyden, em Caruaru (PE). Integra a equipe do Economic News Brasil, com atuação na produção de conteúdos analíticos sobre negócios, mercado financeiro e fortunas, além de experiência em jornalismo para televisão e rádio.

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