A segurança pública se transformou no principal campo de batalha da eleição colombiana. O avanço de Abelardo de la Espriella levou a Colômbia a um segundo turno marcado pela disputa entre repressão ao crime e negociação com grupos armados.
A votação de 21 de junho colocará frente a frente dois projetos opostos para enfrentar a violência. De um lado, uma estratégia inspirada no endurecimento adotado por Nayib Bukele em El Salvador. Do outro lado, a continuidade da política de diálogo defendida pelo governo de Gustavo Petro.
O resultado do primeiro turno mostrou que a criminalidade ganhou espaço entre as maiores preocupações dos colombianos e passou a influenciar diretamente o rumo da disputa presidencial.
Segurança pública impulsionou a ascensão de Abelardo de la Espriella
O líder do movimento Defensores da Pátria terminou o primeiro turno com 43,7% dos votos, à frente de Iván Cepeda, que recebeu 40,90%.
O crescimento de De la Espriella ocorreu em um ambiente marcado pelo aumento das preocupações com violência, narcotráfico e atuação de grupos armados em diferentes regiões do país.
Pesquisa do instituto Invamer mostrou que:
- 40% dos colombianos apontam a segurança como principal problema nacional;
- economia e desemprego aparecem com 11% das respostas;
- a violência supera outras preocupações sociais e econômicas.
Nesse cenário, o candidato construiu uma campanha baseada em propostas de enfrentamento direto às organizações criminosas.
Entre as medidas defendidas por ele estão:
- ampliação das operações militares;
- construção de 10 megaprisões;
- endurecimento das penas;
- fim de novos processos de paz com grupos armados.
A estratégia ganhou espaço entre eleitores que avaliam que as negociações dos últimos anos não conseguiram reduzir a violência de forma duradoura.
Por que o modelo Bukele passou a atrair parte do eleitor colombiano
A comparação entre De la Espriella e o presidente salvadorenho Nayib Bukele se tornou um dos temas centrais da campanha.
Os dois compartilham um discurso de linha dura contra organizações criminosas e defendem ampliar a presença do Estado por meio de ações de segurança mais agressivas.
O crescimento dessa narrativa está ligado à percepção de que parte das regiões colombianas continua convivendo com conflitos armados mesmo após o acordo de paz firmado com as Farc em 2016.
Embora a guerrilha tenha aceitado o desarmamento, facções dissidentes permanecem ativas e disputam territórios ligados ao narcotráfico e à mineração ilegal.
Na semana passada, um confronto entre grupos dissidentes deixou 52 rebeldes mortos na Amazônia colombiana.
Para apoiadores de De la Espriella, episódios como esse demonstram a necessidade de uma resposta mais dura do Estado.
Críticos da proposta argumentam que o modelo pode ampliar tensões institucionais e reduzir garantias individuais em nome do combate ao crime.
Iván Cepeda aposta na continuidade do diálogo com grupos armados
Enquanto o adversário propõe endurecimento, Iván Cepeda defende ampliar negociações e preservar a estratégia iniciada durante o governo de Gustavo Petro.
O senador ficou conhecido por participar das articulações políticas que contribuíram para o acordo de paz firmado com as Farc.
A avaliação do candidato é que soluções permanentes exigem negociações capazes de reduzir conflitos e evitar novos ciclos de violência.
Entre as propostas defendidas por Cepeda estão:
- continuidade das políticas sociais;
- fortalecimento das negociações com grupos armados;
- aumento do salário mínimo;
- reforma agrária;
- redução de benefícios para congressistas.
A proposta encontra apoio entre setores que consideram insuficientes as respostas exclusivamente militares para problemas históricos da Colômbia.
Ao mesmo tempo, adversários argumentam que as negociações não produziram os resultados esperados e permitiram que organizações criminosas preservassem influência em várias regiões.
Congresso fragmentado pode limitar qualquer vencedor
Independentemente de quem vencer no segundo turno, governar a Colômbia será um desafio complexo.
As eleições legislativas mostraram que nenhuma força política conquistou maioria suficiente para controlar o Congresso.
O Pacto Histórico, partido ligado a Petro e Cepeda, permaneceu como a maior bancada, mas ficou distante de uma maioria parlamentar.
O resultado indica que o próximo presidente dependerá de negociações constantes para aprovar reformas e projetos.
Analistas também apontam preocupações institucionais envolvendo os dois candidatos.
Críticos de De la Espriella questionam propostas que envolvem maior endurecimento contra o crime e possíveis impactos sobre garantias democráticas.
Já opositores de Cepeda demonstram preocupação com sua defesa de mudanças constitucionais caso reformas importantes sejam bloqueadas pelo Congresso.
O segundo turno na Colômbia será decidido em um ambiente de forte polarização e insegurança persistente. Mais do que escolher entre direita e esquerda, os eleitores definirão qual estratégia o país adotará para enfrentar um dos temas que mais influenciam a política colombiana: a violência ligada às guerrilhas e ao crime organizado.





