A inadimplência nos bancos digitais avançou em ritmo muito superior ao crescimento da base de clientes nos últimos anos. À primeira vista, os números sugerem uma deterioração acelerada da qualidade do crédito. Os dados da companhia de análise de crédito, Equifax BoaVista, porém, apontam para uma mudança mais profunda no mercado financeiro brasileiro.
Os bancos digitais, como Nubank, PicPay e o Mercado Pago, passaram a ampliar opções de crédito a todo tipo de consumidor. O resultado foi uma expansão sem precedentes do acesso ao crédito, acompanhada por um aumento proporcional do risco assumido pelas instituições.
A discussão deixa de ser apenas sobre atrasos de pagamento e passa a envolver uma questão maior: qual é o custo de incluir milhões de brasileiros no sistema de crédito formal?
Primeiro cartão explica parte do avanço da inadimplência
O dado mais revelador do estudo não está nos índices de atraso, mas na origem dos novos clientes. Os bancos digitais avançaram justamente sobre um público que historicamente encontrava mais barreiras para acessar crédito e que aparecia com menos frequência nas carteiras dos grandes bancos.
Em 2025, essa diferença ficou evidente:
- 41,4% dos cartões emitidos pelos bancos digitais foram o primeiro cartão de crédito desses consumidores;
- Nos bancos tradicionais, esse percentual foi de apenas 4,9%;
- No empréstimo pessoal, os neobanks responderam por 10,2% das primeiras concessões de crédito;
- Entre os bancos tradicionais, a participação ficou em 9,9%.
Mais do que disputar clientes dos bancões, o setor passou a funcionar como uma das principais portas de entrada para milhões de brasileiros no sistema financeiro. Esse movimento ajuda a entender por que a inadimplência nos bancos digitais ganhou relevância nos últimos anos.
A relação fica mais clara quando se observa a velocidade de crescimento dos atrasos. Entre 2021 e 2025, o número de consumidores inadimplentes no cartão aumentou 163,3%, enquanto a base total de usuários avançou apenas 14,95%. Ao ampliar o crédito entre pessoas com pouco ou nenhum histórico financeiro, os bancos digitais aceleraram a inclusão financeira, mas também aumentaram sua exposição ao risco.
Bancos digitais conquistaram espaço que antes pertencia aos bancões
O avanço dos neobanks não ficou restrito aos consumidores que receberam crédito pela primeira vez. Nos últimos anos, essas instituições ganharam escala e passaram a disputar diretamente um mercado historicamente dominado pelos grandes bancos.
Entre 2021 e 2025, os bancos digitais registraram crescimento acelerado em diferentes frentes:
- Participação exclusiva entre usuários de cartão: de 27,9% para 47,1%;
- Participação no empréstimo pessoal: de 18% para 51,8%;
- Saldo de crédito ativo: alta superior a 360%;
- Fatia de mercado: de 11,8% para 31,8%.
Os números mostram que a disputa deixou de acontecer nas margens do sistema financeiro. À medida que os neobanks ampliaram sua participação nas concessões de crédito, a inadimplência nos bancos digitais também passou a ter peso crescente nos indicadores do setor. O fenômeno deixou de ser uma questão restrita às fintechs e passou a refletir uma transformação mais ampla do mercado.
A pesquisa da Acordo Certo ajuda a explicar esse avanço. Entre os consumidores dispostos a migrar para instituições digitais, os principais atrativos foram maior acesso ao crédito, juros menores e menos burocracia. A estratégia acelerou o crescimento do setor, contudo, aumentou a pressão para manter a qualidade das carteiras em um mercado cada vez mais competitivo.
Inadimplência nos bancos digitais avança junto com a expansão do crédito
O crescimento dos bancos digitais veio acompanhado por uma deterioração relevante dos indicadores de atraso. Entre 2021 e 2025, quanto mais essas instituições ampliaram sua presença no mercado, maior passou a ser a exposição a consumidores com perfis de risco mais diversos.
No cartão de crédito, a inadimplência nos bancos digitais quase triplicou no período analisado:
- A proporção de clientes com pagamentos em atraso passou de 7,71% em 2021 para 20,31% em 2025;
- Enquanto o saldo inadimplente avançou de 5,77% para 11,16% do crédito ativo da modalidade.
No empréstimo pessoal, a tendência foi semelhante:
- A taxa de inadimplência subiu de 6,55% em 2021 para 13,93% em 2025;
- Já o volume de recursos em atraso cresceu de 2,56% para 10,3% da carteira ativa.
Nos bancos tradicionais, a evolução foi significativamente menor, indicando que a expansão acelerada dos neobanks veio acompanhada por um aumento proporcional do risco assumido nas operações.
Inclusão financeira amplia acesso ao crédito, mas aumenta o desafio
A rápida expansão dos bancos digitais ajudou a levar crédito a consumidores que historicamente tinham menos acesso ao sistema financeiro. Ao mesmo tempo, essa mudança alterou o perfil das carteiras e ampliou a exposição ao risco.
Os dados mostram que os neobanks cresceram justamente entre públicos que antes apareciam menos nas estatísticas de crédito. Isso ajudou a ampliar a concorrência e o alcance do sistema financeiro, mas também trouxe desafios maiores para controlar o avanço dos atrasos.
Por fim, a atual inadimplência nos bancos digitais sugere que a próxima etapa da disputa no setor não será apenas conquistar novos clientes, mas transformar crescimento acelerado em crédito sustentável.





