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Pix americano? Entenda por que o Zelle funciona de forma diferente

Chamado de Pix americano por Eduardo Bolsonaro, o Zelle possui funções semelhantes ao Pix, mas opera sob regras diferentes. Entenda as diferenças e por que o sistema brasileiro virou alvo dos EUA.
Imagem da logo da Zelle para ilustrar uma matéria jornalística sobre o Pix Americano.
Zelle e Pix: diferenças explicam debate entre Brasil e EUA. (Imagem: divulgação/Zelle)

A afirmação de Eduardo Bolsonaro de que o Zelle seria um Pix americano recolocou no centro do debate uma questão que vai além da política. A comparação surgiu em meio às críticas do governo Donald Trump ao sistema brasileiro de pagamentos instantâneos.

A discussão ganhou relevância porque os Estados Unidos passaram a citar o Pix em relatórios comerciais e a questionar seu modelo de funcionamento. Ao mesmo tempo, especialistas apontam que os sistemas americano e brasileiro possuem diferenças estruturais importantes.

O debate não envolve apenas tecnologia financeira. A disputa passou a incluir concorrência entre empresas, soberania digital e o controle de infraestruturas que movimentam trilhões de dólares todos os anos.

Afinal, existe um Pix americano?

A resposta curta é não.

Os Estados Unidos não possuem um sistema único que desempenhe exatamente o papel exercido pelo Pix no Brasil.

O que existe é um conjunto de soluções que atendem diferentes segmentos do mercado financeiro:

  • Zelle
  • FedNow
  • RTP (Real-Time Payments)
  • Venmo
  • Cash App

Entre eles, o Zelle é o sistema mais frequentemente comparado ao Pix porque permite transferências rápidas entre pessoas usando número de telefone ou endereço de e-mail.

Economistas classificam o Pix como uma espécie de versão pública do Zelle. Ao fazer a comparação, porém, destacam que o sistema brasileiro se tornou mais simples e alcançou uma adoção muito superior.

Por isso, quando se fala em equivalente ao Pix nos Estados Unidos, a resposta correta é que não existe uma solução única com as mesmas características do modelo brasileiro.

O que Eduardo Bolsonaro deixou de explicar sobre o Zelle

O Zelle foi lançado em 2017 pelos maiores bancos americanos. Diferentemente do Pix, ele não foi criado pelo governo dos Estados Unidos nem pelo Federal Reserve, o banco central americano.

O sistema é operado pela Early Warning Services, empresa controlada por grandes instituições financeiras dos EUA.

Entre elas estão:

  • Bank of America
  • JPMorgan Chase
  • Wells Fargo
  • Capital One
  • PNC Bank
  • Truist
  • U.S. Bank

Essa estrutura faz diferença.

Enquanto o Banco Central do Brasil desenvolve, regula e opera o Pix, o Zelle funciona como uma plataforma privada criada pelo próprio setor bancário.

O sistema americano nasceu como resposta dos bancos ao avanço dos pagamentos digitais e das fintechs.

Diferença entre Pix e Zelle vai além da tecnologia

As semelhanças entre os dois sistemas existem.

Tanto o Pix quanto o Zelle permitem transferências rápidas utilizando informações simples para identificar o destinatário.

As diferenças começam na forma de funcionamento.

O Zelle depende da adesão voluntária das instituições financeiras. Atualmente está presente em mais de 2,4 mil aplicativos bancários nos Estados Unidos.

No Brasil, a participação no Pix é obrigatória para instituições autorizadas pelo Banco Central com mais de 500 mil contas ativas.

Outra diferença aparece na velocidade.

O Pix opera de forma instantânea durante vinte e quatro horas por dia, inclusive em fins de semana e feriados.

O Zelle normalmente conclui operações em poucos minutos, mas bancos participantes reconhecem que algumas transferências podem sofrer atrasos dependendo da instituição receptora.

Os custos também seguem modelos diferentes.

  • Pix é gratuito para pessoas físicas
  • Pix possui tarifas reduzidas para empresas
  • Zelle pode ter cobranças definidas pelos bancos participantes
  • Limites do Zelle variam conforme cada instituição financeira

Essas características ajudam a explicar por que os dois sistemas costumam ser comparados, mas não podem ser considerados equivalentes.

FedNow, Zelle e RTP: como funcionam os pagamentos instantâneos nos EUA

Outro ponto pouco citado no debate é que o mercado americano possui múltiplas infraestruturas de pagamento.

O FedNow, lançado pelo Federal Reserve em 2023, é frequentemente apontado como a iniciativa mais próxima de uma infraestrutura pública.

Mesmo assim, ele funciona de forma diferente do Pix.

O FedNow conecta instituições financeiras para permitir liquidação instantânea entre bancos, mas não oferece uma experiência padronizada para consumidores semelhante à encontrada no sistema brasileiro.

Já o RTP, operado pela The Clearing House, atende principalmente instituições financeiras participantes.

O resultado é um ambiente fragmentado, onde diferentes soluções convivem simultaneamente.

No Brasil, o Pix concentrou pagamentos, transferências e recebimentos em uma única infraestrutura nacional.

Os números mostram por que o Pix virou referência global

A escala dos dois sistemas ajuda a entender por que o tema ganhou repercussão internacional.

O Zelle alcançou 151 milhões de usuários e movimentou mais de US$ 1 trilhão em transferências durante 2024.

O Pix avançou ainda mais.

Dados do Banco Central mostram que o sistema é utilizado por mais de 170 milhões de brasileiros e movimentou R$ 35,4 trilhões em 2025.

A diferença não passou despercebida fora do país.

Hoje, o Pix é frequentemente citado em estudos internacionais sobre modernização dos sistemas financeiros e inclusão digital.

Essa expansão também alterou a dinâmica competitiva do setor de pagamentos.

Por que o governo Donald Trump passou a criticar o Pix

As críticas americanas não estão relacionadas apenas à eficiência do sistema.

O relatório do USTR argumenta que o modelo brasileiro poderia favorecer uma infraestrutura nacional em detrimento de empresas privadas que atuam no mercado de pagamentos.

A Febraban rebate essa interpretação e afirma que o Pix é uma infraestrutura aberta, acessível a bancos, fintechs e instituições financeiras nacionais ou estrangeiras.

Especialistas observam que a discussão envolve uma transformação mais ampla.

Sistemas nacionais de pagamento passaram a reduzir a dependência de redes privadas globais e aumentaram o controle dos países sobre dados financeiros e fluxos monetários.

Por isso, o debate sobre o chamado Pix americano ultrapassa a comparação entre aplicativos.

O que está em jogo é a disputa pelo controle das infraestruturas digitais que sustentam a economia moderna. Nesse cenário, o Zelle compartilha algumas funções com o Pix, mas está longe de reproduzir o alcance, a governança e o papel estratégico que transformaram o sistema brasileiro em referência mundial.

Foto de Marconi Bernardino

Marconi Bernardino

Marconi Bernardino é jornalista formado pela Unifavip Wyden, em Caruaru (PE). Integra a equipe do Economic News Brasil, com atuação na produção de conteúdos analíticos sobre negócios, mercado financeiro e fortunas, além de experiência em jornalismo para televisão e rádio.

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