O ex-CEO da Nestlé, Laurent Freixe, contesta sua demissão e tenta recuperar bônus e ações perdidos após deixar o comando da companhia suíça. A disputa ainda está em fase pré-contenciosa, antes de uma eventual ação judicial, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.
Freixe foi demitido em setembro de 2025, com efeito imediato, após uma investigação interna sobre um relacionamento romântico não declarado com uma subordinada direta. A Nestlé, portanto, afirmou que a conduta violou seu código de conduta.
O caso transforma uma crise de governança em disputa financeira e reputacional. Em jogo estão o bônus proporcional de 2025, ações ainda não adquiridas e a forma como uma das maiores empresas de alimentos do mundo aplica suas regras internas contra executivos de alto escalão.
Segundo pessoas próximas ao caso, Freixe busca receber o bônus referente aos meses trabalhados em 2025 e recuperar ações vinculadas a programas de incentivo de longo prazo. Esses papéis, ainda não adquiridos definitivamente, teriam sido perdidos após sua saída.
O que o ex-CEO da Nestlé cobra da empresa
A reivindicação atinge uma parte sensível da remuneração executiva. Em grandes companhias, o salário fixo costuma representar apenas uma fração do pacote total pago a CEOs. Bônus anuais e ações de longo prazo pesam no alinhamento entre desempenho, permanência e retorno aos acionistas
Por meio de sua advogada, Vanessa Chambour, o executivo afirma contestar tanto os fundamentos quanto a forma de sua demissão. A defesa sustenta que ele foi afastado sem ser ouvido e privado de compensações que considera legitimamente conquistadas após quase quatro décadas na empresa.
A advogada do ex-CEO da Nestlé não informou os valores solicitados. A Nestlé, segundo pessoas familiarizadas com o assunto, é representada pelo escritório Homburger AG. A companhia também não comentou a disputa.
Por que bônus e ações podem ser difíceis de recuperar
O ponto jurídico mais sensível está na natureza variável da remuneração. Na Suíça, bônus pagos a altos executivos costumam depender das regras internas da empresa, dos contratos e da avaliação do empregador.
Segundo especialistas jurídicos, esse tipo de bônus quase sempre fica sob discricionariedade da companhia. Isso pode dificultar a tentativa do ex-CEO Freixe caso a negociação avance para uma disputa judicial contra a Nestlé.
As ações também têm um obstáculo próprio. Planos de incentivo de longo prazo normalmente exigem tempo de permanência e cumprimento de condições antes que o executivo tenha direito definitivo aos papéis.
Quando a saída ocorre por violação de código de conduta, empresas costumam usar cláusulas contratuais para cancelar bônus, ações não adquiridas e pacotes de desligamento. A discussão, portanto, não se limita ao valor cobrado, mas ao limite entre direito adquirido e perda contratual.
Disputa com ex-CEO mantém a governança da Nestlé sob pressão
A cobrança prolonga um episódio que a Nestlé tentava encerrar com a troca imediata no comando. Após a demissão de Freixe, a companhia nomeou Philipp Navratil, então executivo interno, para assumir o cargo de CEO.
O desgaste, porém, não terminou com a sucessão. Segundo pessoas familiarizadas com o caso, Freixe demorou meses para atualizar seu perfil profissional e permaneceu formalmente no conselho de administração até a assembleia anual de abril.
Esse prolongamento aumentou o desconforto dentro da companhia. A Nestlé chegou a preparar um plano de contingência para a assembleia caso o ex-CEO comparecesse ao evento, segundo pessoas próximas ao assunto.
O conflito expõe uma tensão comum em grandes multinacionais: empresas querem preservar códigos de conduta rígidos, enquanto executivos afastados contestam perdas financeiras e danos à reputação. No caso do ex-CEO da Nestlé, o desfecho pode servir de referência para novas disputas envolvendo remuneração de executivos demitidos por violação de regras internas.





