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O Dito e o “Não Dito” na Empresa Familiar – Por Aletéia Lopes

Especialista em Gestão de empresa familiar herdeiros

*Coluna por Aletéia Lopes, 21/02/2022

Nem tudo que acontece dentro de uma empresa familiar, principalmente entre os membros da família empresária é dito, existem muitos “não ditos” e são exatamente os “não ditos” que ameaçam o bem-estar da família e o bom funcionamento da empresa.

Imagine uma família empresária na qual “ninguém nunca mais brigou”, onde por muitos anos muitos “não ditos” foram colocados embaixo do tapete que encobriu tanta sujeira acumulada durante décadas. Logicamente no trabalho de implantação da Governança Familiar será abordado algumas questões que foram silenciadas e isso pode significar abrir feridas que nunca foram tratadas e muitas vezes nem abordadas. Então, após discutirem entre si durante uma reunião de Governança Familiar, os membros dessa família podem pensar: “A gente nunca tinha discutido até aqui, contratamos essa consultora, começamos a brigar. Será que ela veio semear a discórdia? Como é que eu contrato a pessoa para organizar a minha família e ela faz a gente discutir?”.

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Decidir “não discutir” é como fugir da nossa própria essência humana. As discussões ocorrem porque nossas imperfeições inevitavelmente se chocam em algum momento e a convivência mais frequente, como é o caso de uma família empresária, gera muito mais possibilidades dessas divergências acontecerem. Esconder estas questões e não falar sobre elas em família é como não tratar de uma ferida e permitir que ela infeccione. Mais cedo ou mais tarde ela vai se tornar um problema ainda maior do que parecia ser no passado. É preciso tirar a sujeira que se acumula debaixo do tapete, ver os escorpiões, os crocodilos, as cobras que acabam surgindo ali, naquele local obscuro. Pior que as discussões são as palavras e mágoas não ditas, pois estas, sim, podem realmente se transformar em uma doença. “O que não vira palavra, vira sintoma.”

Orgulho, segredos, negação… tem muita coisa embaixo do iceberg que simboliza uma empresa familiar. Por vezes nós só vemos a ponta do iceberg: uma empresa bem-sucedida, uma família de sucesso, uma herança sólida, mas lá embaixo estão os segredos, o “não dito”, e isso também vem junto com a herança e com o legado.

Há sentimentos, sensações, memórias, histórias, desencontros, interpretações equivocadas, e muita coisa embaixo do tapete. As famílias se apresentam com demandas diferentes. Mas com certeza elas trazem consigo um sentimento comum, o anseio de se organizarem enquanto família empresária.

O cenário mais difícil de se trabalhar é aquele que se apresenta como “totalmente organizado”, onde ninguém discute, ninguém fala, todo mundo aceita tudo passivamente.

É nesse contexto que o não dito com palavras é dito através dos comportamentos, dos silêncios, das mágoas, das transferências de sentimentos, das projeções. Raivas, culpas, decepções, expectativas não atendidas, antipatia aparentemente gratuita, facções, conversas adiadas para evitar o conflito, perguntas NÃO emitidas para evitar a resposta NÃO aceita, histórias conversadas uma única vez e a partir daí nunca mais. Nada é declarado abertamente para evitar dizer o que não se quer ou não pode ser dito.

A partir daí as compensações surgem como cortinas de um palco que nunca será aberto. Compensa-se com presentes, bônus, permissividade, entre outros escapes. Isso desencadeia uma busca por soluções em lugar errado e para a situação errada, buscando evitar a resolução necessária e oportuna.

Uma coisa é certa, se a pendência não se resolver na geração atual, terá que ser resolvida na geração seguinte, porque os padrões negativos continuam e são repassados. E em algum momento alguém vai perguntar: onde está a raiz deste comportamento não assertivo na cultura organizacional? A outra geração que entrar, não vai entender o pacto existente, porque nesses processos são realizados pactos inconscientes, e a outra geração que vai entrar não tem nada a ver com este pacto que foi constituído, vai querer dissolver o ‘acordo’ e para isso a história certamente virá à tona. Os segredos geracionais uma hora vêm à tona, nem que seja no leito de morte. E nesse momento quebras familiares acontecem, vínculos são rompidos, sofre a família e a empresa.

A melhor forma de evitar todo esse transtorno que pode fragilizar e romper laços familiares, assim como destruir fortunas, é exatamente se permitindo trabalhar os ditos e “não ditos” dentro de um processo de estruturação da Governança Familiar. Afinal, os acordos trabalhados em consenso e com bastante diálogo, podem evitar muito sofrimento no futuro.

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do ENB.

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