Tensões em empresas familiares: o custo da gratidão– Por Aletéia Lopes

Especialista em gestão de empresas familiares

Essa semana saiu uma reportagem em vários meios de comunicação relatando que o Rei Charles III da Inglaterra demitiu diversos funcionários sem ao menos respeitar o período de luto da mãe, o que causou bastante revolta no Reino Unido. Essa informação me remeteu a uma série de acontecimentos que já presenciei durante meus atendimentos às famílias empresárias, histórias relacionadas aos protegidos dos fundadores da empresa familiar.

O protegido da empresa familiar é uma pessoa que geralmente tem algum tipo de tratamento especial por parte do fundador que muitas vezes acaba tendo até mesmo suas falhas encobertas, enquanto um tratamento mais rígido é dado ao restante dos membros da organização. Mas quem pode ser essa pessoa? Qual o perfil dela? E por quais motivos ela ganha esse tipo de proteção vinda do dono da empresa?

Geralmente, o protegido do dono da empresa é aquele que entrou junto com ele no negócio – por vezes, um amigo, um primo, um irmão ou um desconhecido – em uma época que talvez nem mesmo o próprio fundador acreditasse que um dia o projeto fosse à frente. Então, ainda no início dos negócios, esse parceiro de longa data começa a atuar como um tipo de “multitarefas”, indo desde funções operacionais até algumas estratégicas.

Com o tempo, essa pessoa – assim como o fundador, muitas vezes – não busca muito conhecimento teórico ou técnico, alegando falta de tempo. Ambos trabalham muito, de sol a sol, dia a dia com “a mão na enxada”. Por ter, muitas vezes, origem simples, esse parceiro lida com a falta de oportunidade de estudar, enquanto precisa se dedicar ao negócio para fazê-lo crescer.

A questão é que, muitas vezes, décadas depois do surgimento da empresa, quando o negócio já está mais solidificado e estável, esse “velho amigo” do fundador esbarra na segunda geração da família empresária: os filhos do fundador. É aí que geralmente, dá-se início a um processo de estranhamento.

Geralmente, por todas essas experiências vividas décadas atrás entre o fundador e seu velho amigo acaba se acumulando uma dívida de gratidão, que o dono da empresa acredita que jamais poderá pagar. Afinal, seu parceiro acreditou na empresa quando ela ainda era apenas um sonho a ser realizado, aceitou trabalhar muito além do expediente ou nos finais de semana por inúmeras vezes sem cobrar hora extra, quando tudo ainda era incerto, enfim, arriscou junto com o fundador.

Por isso, como forma de expressar sua gratidão a esse velho parceiro, o fundador começa a ceder benefícios que a empresa não cede para outros funcionários. Exemplo disso é que, às vezes, esse protegido ganha um salário bem acima de qualquer outro com o mesmo nível de formação que possui. Então, para a diferença não ficar gritante na folha de pagamento, o que o fundador faz? Paga um salário por fora da folha de pagamento, uma espécie de bonificação ao seu protegido. Mas por que isso acontece? Acontece devido à hierarquia que passou a existir na empresa e esse protegido não consegue subir por falta de conhecimento formal. Mas, enquanto lhe falta este, lhe sobra conhecimento pessoal sobre o fundador e o mesmo, por sua vez, não tem coragem de o demitir por gratidão com esse parceiro.

Por outro lado, a segunda geração, muitas vezes nem mesmo conhece a história do pai, e muito menos a história da contribuição desse parceiro e o que vivenciou nos negócios da família, quando tudo ainda era um esboço do que se tornou no momento.

Então, para os filhos do fundador, essa pessoa é nada mais que um funcionário, que com o tempo se tornou obsoleto e precisa ser trocado. É exatamente aí que o conflito pode se revelar, porque enquanto os herdeiros querem substituir esse “protegido”, por enxergarem os gastos diversos que ele gera para a empresa, o fundador não concorda com isso. Inicia-se então, uma guerra, porque a segunda geração considera esse “protegido” uma “erva daninha” – o que em parte é verdade, porque ele já está há tanto tempo na empresa que gerou alguns vícios e se acomodou, e ainda, se sente um pouco “dono” do negócio com benefícios além do salário – o fundador vê esse conceito sobre o seu parceiro como uma falta de respeito e demonstração de ingratidão, por considerar tudo o que essa pessoa contribuiu para que a empresa se solidificasse.

Qual o custo dessa gratidão? Geralmente é alto e só acaba sendo sentido quando a situação se torna insustentável.

Olhando para a minha experiência como consultora de Famílias Empresárias, em 90% dos casos de famílias que atendi, o fundador tinha um protegido, que por sua vez era odiado pela segunda geração. Em quase toda reunião de liderança da empresa, uma filha ou filho do fundador, inclui na pauta a resolução da situação da pessoa que é protegida. A reação do pai também é bem comum para a maioria dos casos.

— Tira isso da pauta, eu já disse que está resolvido. Eu não vou mandá-lo embora! Ele fica e pronto! – diz o fundador.

Diante disso, os filhos se desesperam e chegam a fazer propostas que poderiam parecer absurdas na opinião de algum observador externo, mas, é considerado pela segunda geração como “o preço a ser pago para se manter a paz”.

— Papai, então, vamos fazer o seguinte: o senhor o manda embora, mas faz um acordo com ele e continua pagando o salário integral dele, somente para ele não vir trabalhar – propõe um dos filhos.

Às vezes, a segunda geração chega a fazer esse tipo de proposta, porque acredita que os gastos gerados por esse protegido vão muito além do salário e dos benefícios pagos a ele. Isso também envolve, desgastes de relacionamentos no negócio da família, atraso no cumprimento de diretrizes estabelecidas para sua função devido à dificuldade de adaptação desse protegido às novas operações, e o pior, ele pode se tornar um mau exemplo para outros funcionários. Ao se tornar uma “erva daninha” o protegido pode contaminar outros funcionários com sua conduta cheia de vícios e o usufruto de privilégios.

Essa tentativa de negociação entre o fundador e os herdeiros pode se arrastar por meses ou até anos e na maioria das vezes toda essa problemática só finda com a morte do fundador. Por isso, alguns herdeiros não conseguem esperar nem o luto do fundador para demitir sumariamente os protegidos.

*Opinião – Artigo Por Aletéia Lopes, consultora especialista em empresas familiares e formação e herdeiros.

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal.

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