O déficit primário de R$ 17,797 bilhões previsto para 2026 colocou a Empresa Gerencial de Projetos Navais (Emgepron) no topo da lista das estatais federais com maior resultado negativo no decreto orçamentário divulgado na quinta-feira (12). Segundo a empresa, porém, o número não reflete prejuízo operacional.
De acordo com nota oficial, o valor decorre “exclusivamente de investimentos estratégicos” ligados à construção de cinco navios para a Marinha do Brasil. O montante aparece no primeiro decreto de programação orçamentária e financeira do ano.
Déficit primário e capitalização da União
Entre 2017 e 2019, a Emgepron recebeu R$ 10,25 bilhões em capitalização via Orçamento da União. À época, os aportes tiveram efeito positivo sobre o resultado contábil da estatal, pois ingressaram como reforço patrimonial.
A partir de 2020, entretanto, à medida que os recursos passaram a ser executados na construção naval, os valores começaram a impactar o resultado primário. Ou seja, o efeito fiscal surge quando o investimento é efetivamente realizado, ainda que a empresa mantenha desempenho operacional distinto.
Essa diferença entre indicador fiscal e lucro empresarial é central para compreender o déficit primário. O conceito desconsidera receitas e despesas financeiras e mede o saldo entre arrecadação e gastos não financeiros, parâmetro acompanhado pelo Tesouro Nacional e pelo mercado.
Resultado operacional e execução de investimentos
Segundo a estatal, os investimentos realizados em 2025 correspondem ao avanço natural do cronograma físico-financeiro dos contratos. A empresa afirma que não há registro de prejuízos decorrentes da execução dos projetos.
“A Emgepron apresenta lucro líquido anual, resultado de suas operações e negócios”, diz a nota. A companhia também declara possuir perspectiva de continuidade desses resultados positivos nos próximos anos, informação que deverá constar na demonstração anual.
Na prática, isso significa que o déficit primário projetado não equivale a perda operacional, mas sim à execução de despesas classificadas como investimento público. A construção dos navios integra um programa estratégico de defesa, com desembolsos plurianuais.
Déficit primário e leitura fiscal
Para analistas de contas públicas, o caso ilustra como grandes projetos de infraestrutura e defesa podem ampliar o saldo negativo primário no curto prazo, mesmo quando a estatal registra lucro líquido. O impacto aparece nas estatísticas fiscais consolidadas do governo federal.
Além disso, a execução de investimentos dessa magnitude influencia metas fiscais, limites do arcabouço e percepção de risco soberano. Ainda assim, a natureza do gasto, se voltado à ampliação de ativos estratégicos, altera a leitura econômica do indicador.
No cenário atual de controle das despesas e busca por equilíbrio das contas, o déficit primário da Emgepron tende a ser analisado sob dois prismas: disciplina fiscal e política industrial de defesa. A evolução dos desembolsos e a entrega dos navios serão determinantes para essa avaliação.





